Outra semana de trabalho começou, e eu não sabia de nada sobre Jessica. Na verdade, acho que assim era melhor. A cada vez que eu pensava no que fiz com ela, sentia vergonha de mim mesmo. Sim, sou um completo idiota que se aproveitou dos sentimentos dela, e quando conseguiu o que queria foi embora sem levar em conta o que importava. Só não me xingo de “verdadeiro filho da puta”, porque amo minha mãe e ela é maravilhosa.
Eu já havia checado meus e-mails umas mil vezes, duas mil, três mil, mas Hyuk não respondeu nada. Ele só fez me deixar num vazio e isso me tornava um louco pensando que, definitivamente, ele não estava nem aí para mim. Em minha cabeça nada parava de martelar que fui apenas mais uma transa para ele – era preciso aceitar isso.
Os dias passaram e minha tatuagem estava me incomodando. Segui todas as recomendações de KyuHyun, e ainda usei um plástico para proteger a pele de qualquer contato. Toda vez que eu mexia e lia a frase que agora estava desenhada em meu corpo, Hyuk vinha em minha mente. E, por incrível que pareça, eu continuava sem nenhuma notícia dele.
Com a mesma “simpatia” de sempre, minha chefe encheu minha mesa de trabalho até não poder mais. E como um bom escravo que sou, mergulhei nele. SiWon tentou tirá-la do meu pé, fazendo isso da melhor forma que sabe: sexo! E eu me fiz de bobo fingindo não saber de nada. No fundo, sou muito grato a ele por mantê-la ocupada.
Na quinta-feira, saí com os meus amigos para tomar cerveja. Kyu foi também e me perguntou sobre a tatuagem. Combinamos de eu passar em seu estúdio na sexta-feira para ver como estava. Ele era a única pessoa que sabia, e eu não queria contar para mais ninguém.
Na sexta-feira fiquei contando os minutos para sair do trabalho. Dentro de algumas horas eu estaria de férias. E continuava sem saber nada de EunHyuk e da suposta viagem às filiais, então procurei esquecer o assunto. Depois de dar mil voltas entre meus pensamentos, decidi não pensar mais nisso, ou nele. Eu quase superei sua ausência com uns risos para cá, outros para lá ou com algumas conversas engraçadas e umas músicas aleatórias, mas aí ele vinha na minha mente, como quem não quer nada e ficava ali impregnado, como uma doença. Era realmente impossível esquecê-lo, ele nunca abandonava meus pensamentos.
Mas eu quase consegui superar sua ausência.
Quase não acreditei quando desliguei o computador e me despedi dos colegas de trabalho. Férias! Eu ficaria quase um mês fora do escritório; desse ambiente sobrecarregado de trabalho e estresse, e isso me deixava muito feliz.
Quando saí dali, fui direto ao estúdio de Kyu. Ele viu minha tatuagem e disse que eu já podia tirar o plástico de proteção.
Ao chegar em casa, vi que havia uma mensagem de minha irmã na secretária eletrônica. Ela pediu para que eu ficasse com minha sobrinha, pois tinha planos com Henry. Sem conseguir recusar, liguei para ela e disse que sim. Minha irmã estava eufórica e isso me fazia sorrir de felicidade.
Às nove da noite, minha sobrinha levada chegou em minha casa e se apossou da tv enquanto minha irmã, toda afobada, me contava suas últimas façanhas sexuais. Quando foi embora, Hyo insistiu que eu pedisse uma pizza, e nós acabamos comendo uma de catupiry enquanto fui obrigado a aturar os ridículos desenhos infantis que ela gostava. Por fim, à meia noite, exausto de tanto desenho idiota, a levei para cama, deixando que dormisse ao meu lado como queria.
Na manhã de domingo, minha irmã apareceu mais feliz que pinto no lixo. E após dizer “Depois te conto!”, foi embora apressada com minha sobrinha. Meu cunhado a esperava com o carro parado no trânsito do lado de fora. Nessa mesma noite, depois de um dia inteiro jogado no sofá, olhei para minha mala. No dia seguinte eu iria para Mokpo passar uns dias com minha mãe.
Tomei um copo d’água e me enfiei na cama, mas antes de apagar a luz do abajur, vi meu chaveirinho Eun pendurado ali. Suspirei longamente sentindo meu coração apertadinho, mas apaguei a luz e decidi dormir para não ficar pensando em algo que me deixasse triste.
Como sempre, a chegada à casa da minha mãe em Mokpo era o motivo de animação da vizinhança. Ao me verem, todos me abraçaram com uma força descomunal, parecia que eu estava longe por décadas. Praticamente todos gostavam de mim ali. Meus pais eram muito queridos na cidade, já que a vida toda tiveram uma oficina de carros e motos, “Oficina Lee”, que era mais conhecida do que qualquer coisa nas redondezas. A morte do meu pai havia abalado tudo e a todos, mas minha mãezinha seguiu tocando o negócio e não deixou que a tradição morresse junto.
À tarde, após ter cumprimentado a todos, decidi dar um mergulho na maravilhosa piscina que omma construiu em casa. Entretanto, para minha surpresa, alguém apareceu.
Observando pernas longas à mostra, nadei calmamente à borda até que meus olhos oscilaram pelo short jeans bem curto e uma camiseta rosa que a garota usava. Era Jessica, ela estava tão bonita como sempre, e aquela roupa dava um toque especial de sensualidade inocente em sua expressão.
— Annyeong, oppa! – Ela sorriu quando meus olhos subiram mais um pouco e encontraram os seus. Parecia um bom sinal. Sua expressão não estava enrugada ao me ver, parecia radiante.
Sorri com isso e a cumprimentei de volta: — Annyeoooong!
— Já estava mais do que na hora do oppa voltar para casa. – Ela disse com um bico fofo e continuou com uma careta: – Seu ingrato!
As palavras que ecoaram dos lábios dela, junto de seu sorriso, me deram a entender que estava bem, que a mágoa comigo já havia passado. Isso me confortava.
Apoiei as palmas das mãos no chão da borda e dei um impulso para cima, fazendo os músculos de meu trapézio e bíceps evidenciarem pela força usada. A água escorria calmamente por meu tronco malhado, até que minha parte inferior estivesse à mostra. Coloquei um dos pés na borda e saí da piscina com minha sunga vermelha e bastante apertada, que deixava minhas coxas muito mais atrativas do que já eram. Jessica percorria meu corpo de cima a baixo com a boca semiaberta, sem notar que praticamente babava em me olhar daquela forma. Minha mãe, que não reparou no olhar dela, vinha chegando por trás.
— Olha quem veio te ver, príncipe. – Omma disse, sorrindo ao apontar para Jessica. – Quer beber algo, minha linda? – E então referiu-se à garota de boca aberta à minha frente.
— Obrigada, senhora Lee... – Jessica disse, fazendo uma leve mesura após despertar do transe que seus olhos estavam. – Vou adorar um copo de suco.
Minha mãe assentiu com um sorriso adorável e saiu para nos deixar sozinhos.
— Que foi? – Perguntei rindo, ao voltarmos a nos encarar.
— Oppa – Ela disse com um sorriso, daqueles que não acredita no que está vendo, e então apontou para meu corpo – Você é muito gostoso.
— Aigoo... Que isso. – Esbocei um enorme sorriso, enxugando o rosto corado com a toalha após sacudir levemente a cabeça, jogando minha franja longa para o lado. – Você que é, incrivelmente gostosa e linda.
Aproximei-me dela e dei um beijinho estalado em sua bochecha. Senti suas mãos em minha cintura molhada, arrepiando-me devido ao contraste de temperaturas.
— Ya... – Ao ver que não me soltaria, tentei me afastar sorrindo sem graça. – Desse jeito minha mãe vai contar para seu pai e eles marcarão o casamento para daqui a dois dias. – Sussurrei, rindo divertidamente.
— Se assim eu puder te ver mais vezes, aceito me casar! – Jessica piscou e riu baixinho, afastando-se para nos sentarmos numa das cadeiras. – Como estão as coisas? – Ela perguntou ao sentar-se ao meu lado.
— Estão bem... E com você?
Ela assentiu com a cabeça, desviando minimamente o olhar. Provavelmente não queria falar muito sobre o acontecido. Nesse momento, minha mãe apareceu com um copo de suco e um refri para mim. Durante algum tempo, nós três conversamos na beira da piscina, até que Jessica sugeriu que saíssemos para jantar. Eu iria dizer que não, e que não estava a fim, mas minha mãe já foi logo aceitando por mim.
Uma hora depois, já arrumado, saí com Jessica para onde ela tanto queria ir. Em seu carro, dirigi ao restaurante recém-inaugurado em Mokpo e tivemos um jantar agradável. Afinal, Jessica era muito simpática e com ela nunca faltava assunto.
Assim que acabamos de comer, fomos direto a um barzinho tomar algo.
— DongHae oppa... – Ela disse, quando eu menos esperei. – Se eu te chamasse para passar uns dias comigo em Tokyo, você iria?
— Que? – Quase engasguei olhando para ela. – Por que essa ideia agora?
— Você sabe, Hae oppa... – Com sua sensualidade feminina, ela cruzou as pernas e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
Olhei para ela desconcertado. Outra vez a mesma história?!
Antes que eu pudesse dizer algo, ela chegou mais perto e uniu os lábios aos meus com um beijo repentino. Sua língua invadiu minha boca, e eu não vi escapatória além de retribuir o rápido contato que tivemos.
— Você não é gay, Hae oppa... – Ela sussurrou em meu ouvido, envolvendo meu lóbulo em seus lábios, numa tentativa falha de me seduzir. Arregalei os olhos, surpreso. – Seu chefe não é o homem certo para você, hm?
Ela estava mesmo tentando me seduzir, falando de EunHyuk?
— Jessica! – Cerrei os dentes esboçando uma expressão um tanto raivosa, mas ao mesmo tempo temeroso de que ela soubesse o que eu tinha com ele. – Você está louca?
— EunHyuk-ssi não é o homem que você imagina. – Ela continuou movendo os lábios em minha orelha, entre sussurros acompanhados de sua respiração quente.
— Do que você está falando? – Afastei um pouco minha cabeça, o temor vibrando em meus olhos ao fitá-la diretamente.
— Digamos que ele frequenta ambientes que não são saudáveis para você. – Jessica estava tão calma como nunca, sua mão acariciando meu rosto com delicadeza.
Sem precisar perguntar de novo, eu sabia muito bem do que ela estava falando. Meu sangue ferveu quando me dei conta de que Jessica estava bisbilhotando minha vida.
Por que ultimamente todo mundo me espionava?
— E o que você sabe do meu chefe e esses ambientes? – Eu a encarei, muito do mau humorado.
— DongHae, para mim é muito fácil saber certas coisas. – Com um sorriso de canto, ela me encarou de um jeito debochado. – EunHyuk-ssi é um empresário mestiço e rico, que gosta de estar com muitas pessoas. Circula num ambiente muito seleto e, pelo que descobri, gosta de compartilhar algo mais do que amizade.
Descobrir que Jessica sabia certas coisas sobre EunHyuk me incomodou, me preocupou e escandalizou.
— Olha, não sei o que você está falando, nem me importa. – Respondi de forma hostil, incapaz de me acalmar. – Mas o que não entendo é porque você está falando do meu chefe e o que ele faz com a vida pessoal dele!
— Oppa, não me importo com seu chefe... Mas com você, sim! – Ela explicou, olhando dentro dos meus olhos. – E não quero que você tome uma decisão errada. Eu te conheço, gosto de você, sei do que gosta e como gosta. Você não é isso que está se tornando... E não quero que ninguém estrague o que é nosso.
— “Nosso”? – Indaguei indignado – O que é “nosso”?!
— Nosso é o que você e eu temos. Gostamos um do outro há anos e...
— Ai, meu Deeeus... – Murmurei horrorizado.
— Hae oppa, esse homem não...
— Chega! Não quero mais ouvir falar do meu chefe, nem da minha vida particular, está entendendo? – Meu tom de voz ríspido tentava colocar ordem, o que a fez ficar quietinha num silêncio incômodo. – Vamos embora agora ou você vai sozinha. – Irritado, levantei e mexi no bolso de minha calça para pegar minha carteira. Dali tirei algumas notas de dinheiro e as joguei sobre a mesa. – Escolhe!
Ela se levantou e assentiu com o olhar baixo.
Muito puto da vida, saí andando e entrei no carro dela, do lado do passageiro. Dessa vez quem dirigiu foi ela. Não falamos nada, nem trocamos nenhuma palavra durante o trajeto de volta. Quando chegamos à porta da casa da minha mãe, ela desligou o motor do veículo e olhou para mim.
— Oppa, pensa no que te falei. – Sua voz manhosa me fez encará-la, tentando pensar em algo para dizer.
Não dava, eu estava sem cabeça para discutir ou tentar usar alguma desculpa para não demonstrar o quanto fiquei irritado com tudo aquilo. Apenas fiquei ali, encarando os olhos dela até que ela debruçou para cima de mim e tomou meus lábios com sua ternura feminina. No início eu correspondi, mas quando Hyuk apareceu em minha cabeça, eu a afastei.
Suspirei profundamente e abri a porta do carro. Eu não queria ficar ali demonstrando o quanto estava atordoado com aquilo tudo, então desci e caminhei até a casa da minha mãe sem nem me despedir de Jessica.
Dois dias depois, ela não voltou a aparecer, embora tivesse me mandado mensagens perguntando como estou, e me convidando para almoçar ou jantar. Recusei seus convites. Eu não queria vê-la. Ter a noção de que ela ficou espiando minha vida e a de EunHyuk me deixou furioso.
O que deu nessas pessoas para quererem me investigar?!
No quinto dia, abri um sorriso enorme quando acordei, porque só então depois de esfriar a cabeça pude notar que meu quarto continuava como sempre. Omma fazia questão de manter tudo igual a antes.
— Bom dia, meu príncipe! – Omma disse dando alguns toques na madeira da porta de meu quarto. Isso me fez abrir um sorriso maior ainda.
Eu adorava aquele tom carinhoso e mimado que ela usava quando falava comigo. Adorava me sentir como um pequeno garotinho, recebendo os mimos da mamãe com os mesmos jeitinhos e tratamento de quando era criança.
Sentei-me na cama e lhe sorri um bom dia com os olhos. Como sempre, mamãe me levou o café da manhã na cama e trouxe o seu também. Era um momento nosso, em que colocávamos o papo em dia. Algo que nós gostávamos.
— Jessica ligou. Ela queria falar com você e disse que voltaria a ligar mais tarde.
Não gostei de ouvir isso, mas tentei não alterar a expressão do meu rosto enquanto tomava um gole do delicioso café dela. Eu não queria que minha mãe tirasse conclusões erradas, mas ela não era boba.
— Você e Jessica brigaram?
— Então por que ela não tem vindo aqui, como sempre? – A pergunta de minha mãe beirava a ironia, seus olhos me atravessavam. Sei que ela esperava que eu dissesse a verdade.
— Olha, omma... Vou ser sincero, tudo bem? Porque já sou bem crescido e – Cocei a cabeça um pouco desconcertado e respirei fundo para então continuar: – Jessica quer de mim algo que eu não quero dela. E apesar de ser uma ótima amiga, nunca haverá nada além disso entre nós dois porque hoje em dia eu penso em outra pessoa. A senhora entende, não é, mãe?
Minha mãe assentiu carinhosamente e pegou sua torrada para dar uma mordida, mudando o assunto completamente assim que engoliu: — Sabe quando sua irmã vem?
— Amber não me disse nada, omma.
— É que eu telefono e ela tem estado sempre com pressa. Mas dá para perceber que ela está feliz. Você sabe o motivo?
Isso me fez sorrir. Se minha mãe soubesse...
— Eu já não te disse, mãe, não faço a menor ideia... – Sorri com graça e fiz um pequeno bico. – Mas com certeza virão os três passar uns dias aqui contigo. A senhora sabe que se Hyo não visitar sua vovozinha, fica arrasada.
— Aigoo, minha Hyozinha! – Omma sempre ficava toda boba quando pensava em Hyo. – Que vontade que eu tenho de ver essa menininha levada.
— Aposto que ela também está morrendo de vontade de ver a senhora.
Sorrimos juntos, até ela voltar a mudar de assunto quando me viu bebericando o café novamente.
— Sobre Jessica... A partir de agora fico de bico calado. – Omma voltava a me olhar de forma séria. – Mas, filho, você por acaso continua com aquela moça com quem te vi na última vez que estive em Seul? – Ao escutar isso, não pude deixar de cair na gargalhada ao notar a cara horrorizada da minha mãe. – Olha, meu querido... – Ela continuou, antes que eu pudesse responder. – Sei que na capital todos vocês são muito modernos. Mas, caramba, você não faz ideia do quanto essa moça me desagradou quando vi que ela tinha um brinco na sobrancelha e outro no nariz.
— Pode ficar tranquila, mãe... Não é ela que ocupa meus pensamentos. E são piercings, não brincos.
— Que bom, príncipe. Aquela lá parecia mais uma piriguete.
Seu comentário me fez soltar uma gargalhada, e minha mãe riu junto. Por um bom tempo, curtimos nosso café da manhã, até que ela olhou as horas. Parecia preocupada em ter que ir logo para a oficina. Mas antes que ela dissesse algo, comecei primeiro.
— Na verdade, mãe... Eu... – Ponderei por alguns segundos, sentindo um nervoso dominar meu interior pelo que estava prestes a contar.
— Mãe... Eu estou gostando de um... – Respirei fundo, mordiscando meu inferior que tremia em nervosismo. – Omma... A senhora me amará de qualquer forma, não é?
— Mas é claro, meu príncipe! – Ela segurava minhas mãos com as suas tão aconchegantes.
— Inclusive se um dia a minha opção sexual mudasse?
O sorriso que minha mãe carregava e o brilho em seu olhar, de repente, mudaram. Agora ela me encarava tão profundamente, que senti um medo incomum dominar todo meu corpo. Senti medo de ela me rejeitar só com aquela pergunta e me julgar da pior forma, como todas as mães ignorantes fazem quando descobrem que seus filhos escondiam algo a mais sobre sua intimidade. Porém, algo dentro de meu peito dizia que minha mãe não era como todas as outras, e que ela me aceitaria de todas as formas.
— Meu principezinho... Não... – Sem se controlar, ela deixou um suspiro escapar antes de concluir: — Não gosta de mulheres?
Os olhinhos de mamãe caíram para uma expressão tristinha, que fez meu coração apertar dentro do peito ao me lembrar que se eu seguisse esse caminho, não lhe daria os netinhos que ela tanto queria.
— Omma... Eu... Não é exatamente que eu não goste de mulheres. Eu gosto! Mas é que... – Comecei a me desesperar ao pensar que poderia desagradar a mulher mais importante de minha vida, então puxei todo o ar ao meu redor e tomei coragem: – Eu estou gostando de um homem, mamãe...
Abaixei a cabeça com medo do pior. Aquela seria a hora que qualquer pessoa estaria esperando os piores sermões. Mas, eu, não. Eu tinha esperanças de que, apesar disso tudo, minha mãe iria estender seus braços para me abraçar e aconchegar em seu colo.
A mulher que eu mais amava no mundo estava me abraçando como se eu fosse a coisa mais preciosa que ela tinha na face da Terra. Meu coração dolorido palpitou e meus olhos arderam em um marejar sorridente, sabendo que ela não me humilharia nem nada. Afinal, quem ama de verdade não machuca a pessoa amada. Amor mais forte que tudo, mais obstinado que tudo, mais duradouro que tudo, é somente o amor de uma mãe que realmente tem amor por seu filho.
— Meu pequeno DongHae... – Omma finalmente estava se pronunciando para fazer com que meu coração acelerasse disparado na expectativa de saber sobre suas palavras. – Eu quero que você saiba que eu te amo incondicionalmente. – Seu olhar estava ainda mais doce, antes de me abraçar mais docemente do que antes. Eu fechei os olhos, porque só queria sentir os braços maternos e escutar suas palavras. E então recebi um beijo na testa, junto da continuidade de sua doce sinfonia calma, esta que sempre precisei ouvir desde que me peguei confuso por ele. – Eu tenho muito orgulho de você, meu filho. Você é a pessoa mais corajosa que eu conheço. Sempre lutarei por você. A sua orientação sexual não te define. Você continua sendo o garotinho que mamãe ama e sempre vai amar.
— Aigoo... Omma, eu te amo tanto!
Abracei omma com força, afundando meu rosto entre o seio de mãe, tão caloroso que sempre procuro quando estou triste. Acho que no mundo ainda não inventaram nada melhor do que o colo quentinho e aconchegante de uma mãe. A minha tinha tudo isso e muito mais; ela tinha todo o amor que eu necessitava receber, junto de carinho e palavras especiais que tocavam o fundo do meu coração. Eu não precisava de mais nada, se a pessoa que eu mais amava me apoiaria em qualquer decisão.
Ficamos naquela coisinha melosa de mãe e filho, um apertando e sorrindo para o outro entre conversas bobas e “eu te amo”. Apenas interrompemos nosso momento lindo, porque ela deveria ir ao trabalho, senão ficaríamos daquela forma a manhã e tarde toda.
— Tenho que ir à oficina.
— Tudo bem, mãe. Eu vejo a senhora à tarde.
— Que tal dar uma passada na pista? Vou estar por lá.
— Passe lá por volta das cinco. – Ela sorriu sem me revelar nada, e foi se levantando da cama. – Tenho uma surpresinha para o meu príncipe!
Minha mãe e seus segredinhos.
Rapidamente me caiu a ficha e eu entendi do que ela se referia. Aceitei o convite, vendo a forma graciosa que ela saia enquanto eu começava a me entupir de torradas.
Nadei a tarde toda para romper o tédio infernal que eu estava. Era uma das coisas que pelo menos eu gostava de fazer ali. Quando por fim me cansei, saí da água e peguei meu celular. No exato momento, recebi uma mensagem de Jessica, que me convidava para almoçar. Recusei o convite e deitei na espreguiçadeira para ouvir música.
Meu celular apitou de novo.
Peguei o aparelho com muita má vontade e fiquei sem ar quando li:
Meu coração disparou, quase saindo pela goela fora. Ele estava na Coreia e eu a muitos quilômetros de distância. Minha garganta havia ficado seca de repente, e o celular apitou outra vez. Peguei o refrigerante e bebi num gole só.
“Você sabe que não sou paciente. Responda.”
Com as mãos tremendo, comecei a digitar, mas não acertei uma tecla sequer. Até parece que eu estava tendo um ataque epilético, porque meu corpo movia-se sem meu comando e nada do que eu queria escrever dava certo. Só depois de alguns minutos finalmente consegui escrever: “Estou de férias.”
Enviei a mensagem e minha barriga gelou, até que ouvi o celular apitar e li sua resposta: “Eu sei. Muito bonita a porta laranja do chalé da sua mãe.”
Quando li aquilo, dei um pulo, larguei o celular, passei o roupão pelos braços e corri desesperado até a porta. Na minha corrida, derrubei cadeiras do quintal, bati com o quadril, saí quase quebrando tudo, mas não me importei com nada. Hyuk estava ali... Era o que me importava.
Mais rápido do que o flash, abri a porta, mas minha cegueira pela euforia era tamanha que não vi nenhum carro que pudesse ser o dele, até que uma buzinadinha me fez olhar para a direita. Ali eu pude ver um homem numa moto maravilhosa. Ele desceu, tirou o capacete e seus olhos intensos junto de sua boca linda, sorriram para mim. Meu coração foi a mil, e sem me importar com mais nada nem ninguém, corri até ele e me atirei em seus braços. Meu impulso foi tão forte que nós dois quase caímos no chão, mas, nada, absolutamente nada, me importava. Nunca um abraço havia mexido tanto comigo. Era como se todas as minhas terminações nervosas fossem acalmadas diante de seu toque. Tudo poderia ter sido ruim em sua ausência, mas no seu abraço, tudo se esvaía e tornava-se delicioso. Hyuk me deixava com os sentimentos à flor da pele. Qualquer palavra dele era capaz de me desmontar. E eu fiquei tentando imaginar como consegui ficar tanto tempo longe dele.
— Pequeno... Senti sua falta. – Ele sussurrou em meu ouvido, fazendo todo meu corpo estremecer.
Ele estava em meus braços...
Na porta da casa da minha mãe...
Ele havia me encontrado e tinha ido me buscar...
Essas eram as únicas coisas em que eu queria pensar.
Ele não fazia ideia do quanto eu o queria. Não fazia ideia do quanto eu o desejava, do quanto eu desejava aquele abraço, o olhar, um beijo... Muito menos fazia ideia do quanto eu o desejava por inteiro.
— Hyuk, você podia ter avisado. Olha o meu estado.
Senti seu olhar percorrer meu corpo quando me separei um pouco dele, e então me dei conta da minha aparência. Os respingos de água escorriam pelo meu cabelo, pingando em meu peitoral malhado que estava à mostra devido ao roupão que eu não havia fechado. E minha sunga apertada evidenciava minhas coxas bem esculpidas.
Ele não respondeu. Apenas continuava me olhando daquela forma predadora, comendo sua presa com seu olhar. Em seguida me segurou pela nuca e me puxou para ele, após ter olhado envolta em busca de sossego, pronto para me dar um beijo apaixonado que fez toda Mokpo estremecer.
Satisfeito por me surpreender com seu beijo, ele rompeu o contato e continuou com o rosto próximo ao meu.
— Você está lindo, yeobo. – Ele sussurrou, puxando meu lábio inferior entre os dentes, ganhando um ofego audível de presente.
Ele ainda por cima me chamou de “yeobo”!
— Como está o braço? – Ele perguntou de repente.
— Está ó... – Mostrei a marca arroxeada começando a entrar numa coloração que sumiria conforme os dias passassem. – Ótimo.
Hyuk fez um gesto de satisfação e alívio com a cabeça e me sorriu com os olhos. Sorri de volta. Eu ainda não estava acreditando que ele estava ali, então o convidei para entrar na casa. Sem pestanejar, ele foi me seguindo por cada cômodo até chegarmos no lugar que eu estava: na piscina.
Por educação, ofereci algo para beber e fui correndo buscar um copo d’água e aproveitar para me vestir. Ele havia resistido e até tentou ir junto comigo, mas expliquei que minha mãe poderia aparecer a qualquer momento. Entendendo a situação, ele obedeceu e ficou sentado à minha espera.
Em questão de cinco minutos, coloquei uma bermuda e voltei até ele com um copo d’água.
— Você recebeu duas mensagens da Jessica. – Hyuk disse ao pegar o copo da minha mão.
Respirei fundo e fui pegar o celular, porém Hyuk foi mais rápido. Na verdade, ele não queria pegar meu celular, queria era me pegar.
Num segundo ele estava colocando o copo vazio sobre a mesinha ao lado da espreguiçadeira e no outro estava me puxando para si, para que sua língua faminta se enfiasse em minha boca e seu beijo voraz tirasse minha sanidade.
Seu beijo me fez entender que ele sentiu tanta minha falta quanto eu a dele, e isso me deixava feliz. Apesar de que ele ainda me devia muitas explicações.
Em meio aos beijos saímos do quintal e entramos na cozinha. HyukJae me subiu na bancada para continuar me beijando ao mesmo tempo em que me apertava contra si de um jeito delicioso, possessivo, fazendo-me arfar de puro desejo. Eu estava sentindo um calor infernal e mais ainda quando ele abaixou a cabeça e mordeu meu mamilo até que o biquinho endurecesse dolorido.
— Que... Que saudade, Hyukkie... – Suspirei ao sentir que suas mãos apertavam minha cintura, deixando minha pele marcada de vermelhidão por seus dedos longos.
Estávamos dominados por um desejo ardente e tão intenso que agora era eu quem me esquecia de onde estávamos. Rapidamente abri sua calça, enfiei a mão em sua cueca e toquei em seu pênis por cima da peça. Comecei a estimulá-lo daquela forma, afoito e desesperado por mais. Já ele, excitado por minhas carícias, puxou o velcro da minha bermuda e praticamente a rasgou, retirando-a com uma violência extrema. Em seguida, ele arrancou minha sunga e eu pude sentir o frio da bancada em minha bunda. Continuei sentado ali e percebi como ele tocou depressa uma punheta para ficar mais duro do que já estava. Reparei em minha tatuagem, mas ele não. Hyuk estava cego de desejo e eu gostava disso...
Desesperado de desejo, ele me puxou para si pelas coxas, encarando-me com desejo daquela forma quase desumana, transbordando luxúria de suas orbes, e a respiração entrecortada. Ele esfregou aquele pau latejando em minhas bolas, até que se esfregasse no meio da minha bunda, sequer esperando que eu me preparasse para recebê-lo.
— Espera… Hyukkie. – Tentei implorar por um preparo, mas ele grudou a boca na minha, maltratando meus lábios com uma vontade que me incendiou.
— Não me peça para esperar para tê-lo como quero. – Ele murmurou com nossos lábios roçando um ao outro, quase que eroticamente.
Então enfiou aquele pau delicioso em mim, agarrando-me pela bunda. Com um movimento certeiro, ele enfiou seu pênis completamente dentro da minha bunda enquanto eu cravava minhas unhas em seus ombros, gritando meu gemido dentro de sua boca esfomeada pelo som do meu prazer. Beijamo-nos com o desespero do desejo.
Ele tentava me suspender em seus braços com toda a força que tinha em si, arrastando-se até que meu corpo se chocasse contra a geladeira. Dessa forma soltei um gemido doloroso contra seus lábios, sentindo todo meu corpo formigar de tesão por estar sendo prensado daquela forma, como se eu fosse algo minúsculo nas mãos daquele homem delicioso.
Eu sentia vontade de gritar de prazer, enlouquecido com as penetrações fortes e profundas dentro de mim, mas precisava me conter já que estava na casa de minha mãe. E isso me deixava com ainda mais tesão, sabendo que controle era algo que eu precisava ter, mas jamais conseguiria perto de HyukJae.
A pele de minhas costas estava dolorida de tanto ser empurrado contra a geladeira. Vendo que o aparelho doméstico se movia com seus movimentos brutos, Hyuk tornou a me colocar em cima da bancada. Dessa vez, de bruços, com a barriga apoiada na superfície gelada. Ele me tocava de um jeito que seus dedos pareciam querer ultrapassar minha pele e seu pênis parecia rasgar todo meu interior.
Não foi preciso esperar muito mais do que milésimos de segundos para que voltasse a avançar seu quadril contra meu corpo fazendo sua ereção enterrar com toda violência dentro de mim, causando-me arrepios tanto internos quanto externos, que nos fazia gemer de modo contido e abafado. Era bom demais, gostoso, fodidamente delicioso.
— Como você é gos... Uhn... toso... – Ele disse, gemendo contra a pele de minhas costas ao me encher de mordidas deliciosas, entrando e saindo de mim com vontade.
Eu não conseguia dizer nada, meus lábios moviam-se em inteira e completa disposição dos gemidos que eram ecoados com tanta facilidade. Minhas coxas ardiam tanto pelo choque brusco da pele dele contra a minha quanto pelos movimentos rápidos, selvagens, possessivos e viris que ele fazia para me foder à sua vontade, magoando a extremidade que era pressionada pela superfície da bancada.
Em um momento de puro prazer, não pude conter um gemido que saiu desesperado, quase como um grito esganiçado de puro deleite. Era muito prazer para tentar me controlar.
Minhas mãos se esfregavam por toda a área da bancada a qual eu conseguia tocar naquela posição, como se tentasse fugir. Mas na verdade eu estava me contorcendo de tanto tesão, querendo buscar o equilíbrio para não perder a consciência de tanto que meu corpo tremia sob os comandos dominadores dele.
A sensação gostosa de que Hyuk poderia estar me rasgando por dentro começava a formigar dos pés à cabeça. Incendiava meu pênis como um massacre, mesmo que eu sequer o tivesse tocado, tudo devido às investidas certeiras em minha próstata. Eu estava delirando completamente, e ele sabia exatamente como fazer.
Antes que eu pensasse em me tocar, a mão dele já me tocava com rapidez, levando-me ao ápice em questão de milésimos junto de seu gemido rouco e orgasmático que foi ecoado baixinho em meu ouvido, quando puxou meus cabelos e me fez jogar a cabeça para trás em seu ombro.
— Você goza de um jeito tão gostoso. – Ele murmurou com uma voz ofegante e entrecortada, raspando os dentes por minha orelha tão sensualmente, que eu poderia gozar novamente com apenas aquela voz cantada de gemidos em minha audição. – Tão gostoso como sempre, Hae-ah...
Seus gemidos arrastados, acompanhados das várias estocadas fortes e desesperadas, me indicavam que ele estava no limite do ápice. E com um pouco mais, senti aquele líquido preencher meu interior, escorrendo entre minhas pernas despreocupadamente assim que ele se retirou de mim, para deitar a cabeça em minhas costas. Por alguns minutos, nós dois permanecemos apoiados na bancada, tentando comandar nossas respirações descompassadas.
— O que... O que você está fazendo aqui? – Questionei depois de um tempo, quebrando o silêncio da nossa luxúria.
— Eu estava morrendo de vontade de ver você de novo.
Suas palavras me fizeram fechar os olhos. Adorei ouvi-lo dizer aquilo, mas ao mesmo tempo não entendi por qual motivo ele não havia vindo me ver antes.
Virei-me de frente e o apertei em meu corpo, procurando seus lábios em um beijo apaixonado enquanto seguíamos para o banheiro para nos limpar um pouco, antes de sair da casa de minha mãe – após limpar a cozinha – entre beijos e risadas. Ele havia me sugerido que almoçássemos em algum lugar e, logicamente, aceitei.
— É sua? – Perguntei ao chegarmos em frente àquela maravilhosa moto.
— Você tem medo? – Ele deu de ombros à minha pergunta, entregando-me o capacete.
— Medo não. Apenas respeito. – Respondi, ele sorriu.
Hyuk subiu na moto e eu fiz o mesmo.
— Segure em mim com força. Se você tiver medo em algum momento, me avise, ok? – Ele explicou, e eu apenas concordei num gesto.
Então partimos. Eu o orientei pelas ruas de Mokpo até que chegamos ao restaurante de uma das amigas da minha mãe. Conversamos, rimos e preenchemos nossas energias depois daquele sexo delicioso que havíamos feito. De repente, Hyuk olhou para mim e estendeu as mãos por cima da mesa para pegar as minhas. Meu coração acelerou e tentei olhar desesperado à nossa volta, com medo de alguém ver. Ninguém prestava atenção em nós.
Não dizemos nada, apenas nos olhamos até que ele rompeu o silêncio: — Sei que sou um escroto.
— É mesmo... Com certeza. – Concordei firme, sabendo que o comentário dele me confirmava que havia recebido meus e-mails. – Você mereceu.
— Fiz o que você me pediu. – Soltei as mãos dele e o encarei com atenção. – Como seu detetive não podia me espionar dentro do quarto, resolvi fazer isso eu mesmo.
— Reconheço que errei, mas não gostei do que vi.
Recostei-me na cadeira e observei as mãos dele, os nós de seus dedos estavam tensos e ficavam brancos de tanto que ele cerrava o punho com força.
— Não gostou de me ver transando com outra? – Não pude evitar sorrir de canto, debochado.
— Não, porque eu não estava participando.
Seu olhar estava sombrio.
Acabei tremendo com o poder que ele tinha sobre mim. Eu não queria confessar que, para mim, ele estava sim, na minha imaginação o tempo todo.
— Você me desculpa? – Ele perguntou, referindo-se ao sumiço. Agora seu olhar havia mudado, estava o mesmo de sempre: sedutor.
— Não sei. Tenho que pensar, Iceman.
— Tua frieza às vezes lhe transforma num homem de gelo. – Sorri, escondendo uma risada interna ao me lembrar de seu apelido que SiWon havia inventado. Mas, logicamente, não disse que foi ele quem deu. – Por isso: Iceman!
Ele fez um gesto concordando com minha afirmação. Ficou me olhando e exigiu que eu lhe desse a mão de novo.
— Peço desculpas por não ter lhe procurado esse tempo todo. Mas acredite em mim: eu estava muito ocupado.
— Por que não podia me ligar?
Ele ficou em silêncio, parecia pensar bastante antes de me responder: — Prometo que da próxima vez eu ligo.
Tentei fazer uma cara emburrada, mas não consegui ficar bravo com ele. Afinal, eu estava tão... feliz. Feliz por ele ter ido até Mokpo e por estar ao meu lado. Só consegui sorrir como um bobo apaixonado, aproveitando da felicidade.
Mas então meu celular tocou... Era Jessica. E mesmo que eu tenha tentando disfarçar, Hyuk havia visto o nome no visor.
— Pode atender, se quiser.
Olhei mais uma vez para a tela do visor para ver as horas e desliguei o celular. Era 16h15, me lembrei de que marquei de encontrar minha mãe às cinco.
Pagamos nossa refeição e nos levantamos em direção à saída.
— Você tem vontade de conhecer a pista de motos de Mokpo?
— Pequeno, vontade mesmo eu tenho é de outra coisa. – Hyuk aproximou-se de mim e sussurrou perto do meu ouvido. – Vamos, aluguei um chalé que...
— Sim. Quero estar perto de você.
Aquela proximidade, a voz e a sugestão me fizeram suspirar de desejo. Tive vontade de correr para esse chalé, mas não. Eu não faria isso, por mais que a ideia me seduzisse.
— Combinei com minha mãe às cinco na pista. O que acha de conhecê-la?
— É. Minha mãe. Mas pode ficar tranquilo, ela não tem nada contra americanos! – Meu comentário o fez sorrir.
Após me dar um tapinha na bunda, ele me entregou o capacete e disse: — Vamos conhecer sua mãe.
Assim que chegamos na pista, encontramos alguns conhecidos que me disseram que era para esperar minha mãe na reta dos boxes. Expliquei a Hyuk como chegar lá e ele brincou comigo, dando aceleradas que me fizeram gritar e agarrar a cintura dele com mais firmeza.
Ao chegarmos aos boxes, ninguém estava lá.
— Quer que eu te ensine a usar? – Hyuk perguntou ao perceber que depois de descer da moto, eu não parava de observá-la. Era linda e maravilhosa.
Sua pergunta me surpreendeu e eu reagi como uma criança: — Hummm... Não sei.
— Então qual é o problema?
O sol batia direto em meu rosto, impedindo-me de olhar fixamente para Hyuk, o que fazia meu sorriso brilhar e meus olhos parecerem piscar para ele.
— Tenho medo de cair e de estragá-la.
— Não vou te deixar cair. – Ele respondeu com segurança. Isso me fez sorrir. Esse era Hyuk, um homem completamente seguro.
Incentivado por ele, subi na moto. Olhei ao redor e vi que minha mãe ainda não havia aparecido. Durante alguns minutos, ele me explicou que as marchas estavam no pé esquerdo, depois me indicou como acelerar, como usar a embreagem e como frear. Em seguida, arrancou com a moto.
— Uau, que barulho incrível!
— As Ducati, todas têm esse som assim, pequeno. Forte e rouco. – Novamente ele estava tentando me explicar sobre a moto, conseguindo inclusive me arrancar um sorriso de admiração. – Agora vem, engata a primeira e... – Fiz o que ele me pediu e a moto morreu. Com um sorriso carinhoso, ele arrancou outra vez. – Isso é como um carro, yeobo. Se você soltar a embreagem depressa, o carro morre. Engata a primeira, solte devagarzinho e acelere.
Ele havia me chamado de “yeobo” duas vezes em menos de duas horas. Eu estava me sentindo maravilhoso, como num conto de fadas ou dentro daquelas gaiolas de bolinhas coloridas, onde as crianças costumam brincar de se afundarem.
— Tente. – Ele disse, então voltei a engatar a primeira. Soltei devagarzinho e... Droga! A moto morreu de novo. – Não se preocupe. – Ele riu, aproximando-se de mim.
Hyuk repetiu todas suas palavras e ações, e desta vez eu me concentrei tentando não ficar prestando atenção somente no quanto ele era maravilhoso ao me explicar como se anda de moto.
Engatei a primeira, soltei devagarzinho a embreagem e acelerei. A moto começou a andar e HyukJae aplaudiu orgulhosamente junto dos gritos de felicidade que eu dava.
De repente freei e a moto deu um tranco.
— DongHae! – Hyuk gritou e correu atrás de mim. – Se você frear só com o freio dianteiro, pode cair.
Repetimos o processo vinte vezes e cada vez eu me saía pior. Freei pior e o deixei inconformado. A cara dele era impagável. Com certeza eu estava usufruindo de toda a paciência que HyukJae tentava ter.
— Nããããão, Hyukkie... Quero aprender!
— Outro dia continuamos com as aulas. – Insistiu.
— Ah, por favor, Hyukkie... Não seja desmancha-prazeres.
— Chega, Hae. – Seus olhos não sorriram. Ele estava tenso. – Não quero que você quebre a cabeça.
— Só mais uma vez, por favor. – Pedi com um bico manhoso, fazendo uma cara de pidão. – Só mais uma, por favorzinho.
— Só uma vez... – Ele olhou para mim, muito sério, mas acabou cedendo. – E depois você desce, combinado?
— Yes! – Sorri amplamente e engatei a primeira. Mas ao ver o rosto tenso dele, parei. – Vem cá, por que você está tão preocupado?
— Hae... É que eu tenho medo de que você se machuque.
— Você fica angustiado quando não sabe o que vai acontecer?
— Porque preciso saber que você está bem e que não vai te acontecer nada. – Ele respondeu com a testa franzida, sem entender minhas perguntas.
Eu o deixei falando sozinho e arranquei de novo. Engatei a primeira, soltei a embreagem e acelerei com cuidado. A moto foi andando devagarzinho e Hyuk foi indo ao lado.
Olhei para ele, não me importando com a moto em movimento. Ele por um segundo ficou nervoso por eu não estar olhando para frente, mas não me importei. Continuei olhando para seu belo rosto e suspirei antes de deixar que aquelas palavras, que tanto angustiavam meu coração, saltassem de meus lábios para que ele entendesse como foi ficar “tanto tempo” sem sua presença.
— Fique sabendo que a angústia que você acaba de sentir, nem se compara com a que eu senti por sua causa nessas duas semanas. – Engatei a segunda, acelerei e a moto se movimentou. – E, agora, olha só isso!
Coloquei a marcha na terceira, na quarta e saí diretamente em direção à pista. Pelo retrovisor eu podia ver Hyuk boquiaberto, o que me fazia sorrir. Eu estava tão empolgado por pilotar uma moto outra vez. Era algo de que sempre gostei e que me proporcionava liberdade.
Enquanto eu fazia as curvas da pista de Mokpo, pensei nele; em sua cara de preocupação, fazendo-me voltar a sorrir. Eu o imaginava nos boxes, sozinho e desconcertado. Então acelerei, saí da pista e entrei nos boxes. Ele estava sentado num degrau, e quando me viu logo se levantou. Sua expressão era dura, e eu sabia que o Iceman estava de volta. Porém, eu fiquei feliz por tê-lo feito sofrer por alguns minutos.
Cheguei até ele e freei bruscamente, sem desligar o motor.
— Hyuk, você acha mesmo que o filho dos melhores mecânicos de Mokpo, não saberia dirigir uma moto? – Tirei o capacete e olhei para ele, que se aproximou de mim.
Hyuk parecia prestes a me dizer alguma coisa não muito amigável, até que me segurou pelo pescoço e me beijou com uma paixão sufocante. Estremeci, surpreendendo-me com seu ato. Ainda em cima da moto, eu o agarrei e devorei seus lábios deliciosos, até escutar as risadas de minha mãe ao longe. Rapidamente me separei de seu corpo e pisquei para ele, o que o fez sorrir.
— Omma! – Virei-me na direção de minha mãe e desci da moto. Por sorte ela não havia visto nada. Ela sorriu e acenou ao nos perceber ali. – Esse aqui é um amigo meu. – Então apontei para o homem maravilhoso ao meu lado, apresentando-o à minha mãe. – Lee HyukJae.
Minha mãe sorriu e o examinou de alto a baixo. Eu sabia que ela tinha a certeza de que era aquele homem que não saía da minha cabeça. Ter isso em mente me deixou um pouco envergonhado, eu podia sentir minhas bochechas queimarem apesar de tentar disfarçar.
— Prazer em conhecê-la, senhora Lee. – Hyuk deu um passo à frente e inclinou-se em uma reverência respeitosa.
— Aigoo... Que rapaz lindo, charmoso e simpático!
Ambos sorriram e eu sabia que mamãe havia ido com a cara dele.
— Senhora Lee, a senhora tem um filho meio mentiroso. – Hyuk dessa vez me encarou por alguns segundos, antes de voltar a falar para minha mãe. – Ele tinha me dito que não sabia pilotar moto. E depois de me fazer ensinar a ele como usar a embreagem, saiu disparado como uma flecha.
— Aigoo! Disse isso a ele, seu sem vergonha? – Mamãe brincou, dando um tapa no meu braço. Confirmei, morrendo de rir.
— Hyuk-ssi, o meu príncipe foi campeão de MotoCross de Mokpo, por váaaarios anos. – Omma parecia honrada de dizer aquilo a ele, e eu logicamente ficava ainda mais envergonhado. – Hoje em dia, ele continua ganhando prêmios.
— Sério!? – A cara de surpresa de Hyuk era impagável.
— Sim. – Afirmei, divertindo-me com um sorriso sapeca.
Durante um tempo, Hyuk e minha mãe ficaram fazendo graça e eu entrei na brincadeira. Eu estava diante das duas pessoas mais importantes da minha vida, e isso me deixava extremamente feliz.
Alguns instantes depois, minha mãe começou a andar e voltou em nossa direção para nos dizer: — Me acompanhem, rapazes.
Quando fui segui-la, Hyuk me agarrou pela cintura e me puxou para si.
— Príncipe, você é uma caixinha de surpresas.
Pisquei para ele e fingi lhe dar um soco na barriga que o fez rir.
— Cuidado, porque também fui campeão regional de Taewandoo. – Adverti, rindo divertido.
— Olhem o que preparei para meu filho! – Omma disse empolgada, e eu escutei Hyuk assobiar, surpreso, quando entramos no boxe.
Bem na minha frente estava a moto com a qual ganhei diversos prêmios de MotoCross. Limpa e reluzente. Uma moto 350 SX-F**, laranja, toda desenhada em tons parecidos com fogo. Emocionado, andei até lá e subi nela. O celular de minha mãe começou a tocar e ela saiu do boxe para atender.
— Woaaah! – Arrepiado pela sensação das memórias de adrenalina dominando meu corpo, olhei para HyukJae com um sorriso sapeca e debochado, depois liguei a moto. Seu som áspero ecoou ao nosso redor.
— Isso realmente é surpreendente. – Ele disse, seus olhos percorrendo pela motocicleta.
— Então... – Chamei sua atenção com um sorriso sapeca e debochado ao fazer o som áspero da moto ecoar ao nosso redor. – Eu já te disse que não sei andar de moto?