O som da risada de Mad soou-lhe familiar como se nunca tivessem realmente perdido o contato por anos. Quinn fechou os olhos enquanto o abraçava, saboreando a sensação de encontrar um velho amigo em um cenário completamente novo e inusitado. Era estranho explicar as coincidências da vida, ainda mais quando se tratava dos dois. A loira lembrava-se dele, caminhando despretensioso e atento pelos bastidores do teatro singelo em Nova Delhi. A máquina fotográfica pendurada no pescoço e a maestria inegável dos ângulos. Era quase sobrenatural pensar que pouco menos de um mês depois de sua peça ter estreado, o mesmo homem apareceu no passeio turístico pelos templos da Índia. Quinn odiava os tradicionais passeios guiados, disputados pelas fotos e pelo exibicionismo dos turistas. Mas fez questão de participar daquele em particular, pois queria saber mais sobre a cultura por trás das majestosas construções milenares. Se não tivesse voltado atrás em sua ideia inicial, jamais teria reencontrado Madzimoyo. Olhando para ele, materializado à sua frente, só conseguiu pensar o quanto teria perdido.
Quando os dois se separaram, a professora alargou o sorriso olhando-o com atenção. Ele parecia diferente, mais sábio. Como se tivesse reunido, ao longo do tempo, uma quantidade incontável de experiências inacreditáveis. Quinn não duvidava disso. Juntou as mãos e abaixou ligeiramente a cabeça, em posição de oração. — Nem mesmo a força de Kali foi capaz de destruir essa nossa insistência em nos reencontrar nos momentos mais inesperados! Eu entendo exatamente o que você quer dizer, Mad — Os olhos dela brilharam. Não sabia explicar o porquê, mas sentia como se a amizade entre os dois tivesse vindo de outra vida. Talvez os deuses soubessem explicar. — A cabeça de um alfinete! Que interessante sua teoria. E agora foi você quem acabou de tirar o alfinete da minha roupa com a sua presença. Estamos quites. Punição divina foi eu ter deixado meu celular cair no Ganges, dias depois, e ter perdido seu número nas profundezas do rio sagrado. — Fez uma careta divertida, como se esperasse que Mad entendesse que uma coisa dessas só poderia acontecer com ela. E de fato tinha acontecido. Quinn não costumava ser atrapalhada, mas havia passado um pouco do ponto na festa de despedida na noite anterior à sua partida da Índia. — Eu me senti culpada por anos, sério. Espero que você me perdoe. Pelo visto o destino já perdoou, já que você está aqui! — Bateu palmas silenciosas, sorrindo genuinamente feliz por vê-lo novamente. Logo em seguida soltou uma gargalhada, divertindo-se com o raciocínio do amigo. — Tem certeza que não pediu nem um pouquinho? Para um viajante nato como você, ser professor no Armstrong é uma experiência e tanto! Talvez os deuses estejam tentando fazer você entrar nas viagens etéreas das mentes adolescentes novamente. — Fez um gesto divertido com as mãos, como se conjurasse uma espécie de portal. Riu com ele, abraçandp-o de lado — Desculpa! Acho que isso é culpa minha no final das contas. Eu fiz muitas orações para te encontrar em alguma estrada por aí! Quem diria que eles te mandariam para a arquibancada! — Arregalou os olhos de maneira teatral, antes de ser convidada a dar uma olhada nas outras fotos dentro do envelope. — Jura? — Voltou-se para Mad, entusiasmada, antes de manusear as fotos com o cuidado meticuloso de quem tem a sorte de segurar as próprias memórias. À medida que o álbum de cores, sorrisos e paisagens inesquecíveis iam passando, Quinn sorria mais e mais. — Porra! Você nasceu para isso. Olha essas fotos, esses ângulos. Oh, eu me lembro dessa! — Apontou para a foto em que faziam careta com Jamal, o motorista e guia do passeio. — O Jamal era mesmo uma figura, né? Me pergunto como ele deve estar agora. — Riu, passando pela próxima foto, na qual aparecia deitada em uma escadaria, encarando um macaco não muito amigável. Levou as fotos ao coração, olhando de volta para o amigo. — Mad, essas fotos são tudo para mim! Tem alguma chance de você conseguir algumas cópias delas? — Perguntou, segurando uma fotografia que havia sido tirada na peça que estrelara ao lado de uma de suas amigas do grupo de teatro. Essa tinha sido a segunda grande peça da carreira de Quinn e tinha sido muito especial. Ouviu a pergunta de Mad soar ao fundo. Deixou que a curva de seus lábios se elevassem em um sorriso de canto. — Para ser honesta, essa não ficou particularmente conhecida. Mas consegui um papel bem modesto em um filme de Bollywood logo depois. — Relembrou, feliz por dividir essa memória com ele. — Foi uma época muito, muito especial. Aprendi tanto… — Finalmente tomou coragem para soltar as fotos, sustentando o olhar do amigo. — Algumas vieram depois… — Sorriu, colocando uma mexa atrás na orelha. — Duas na Broadway. — Elevou ligeiramente os ombros, humildemente. — Mas depois a Quinn que você conheceu partiu para uma nova aventura: a faculdade. Artes Cênicas, algumas peças, pós em Literatura e Estados Unidos. Esse é um breve resumo. — Riu baixinho, respirando profundamente antes de perguntar. — Mas me conta de você! O Mad que eu conheci não teria deixado a estrada por nada nessa vida.
Graduação, mestrado e doutorado eram um período de espaço e tempo confuso; indistinto. Um sucedendo-se ao outro numa velocidade que colocaria o mais concentrado numa espiral. A maturidade adquirida nas viagens, por seu salvador na campanha missionária, colocando-o bem acima dos colegas de classe. A distância de idade ultrapassando facilmente as dezenas. A primeira turma a assumir como professor oficial, não um mestrando substituindo o docente contratado. Os fatos o colocaram ali, na Índia, nas merecidas férias do jeito que mais gostava de passar: uma mala, uma câmera e o pé no mundo. Encontrar Quinn foi uma brisa fresca, brincalhona, desanuviando os pensamentos que carregava consigo, lembranças do passado que costumava assombrá-lo quando tudo parecia meio estranho. A culpa demais pesando nos ombros para aproveitar o que a vida tinha lhe proporcionado. E talvez tenha sido por isso, a culpa, que o colocara no lugar sagrado por seus deuses e tradições. Pela religiosidade estampada, monumental, erguida da maneira mais célebre e apaixonada como nenhuma outra. Madzimoyo imitou o movimento, as mãos juntas em oração e a cabeça tão abaixada que a ponta dos dedos tocaram o centro da testa. Os lábios mexendo rapidamente para a prece aprendida no país exótico, agradecimentos rápidos e cheios de uma uma paixão, da genuína intenção de oferecer sua gratidão naquele momento. --- Os deuses interferem naquele que precisa ser interferido. Imagino que nossa separação tenha sido para nos tornamos quem somos hoje, agora. Somos diferentes do que poderíamos ter sido se tivéssemos nos comunicado. --- O efeito borboleta seria tao forte que ele se pegava pensando, revisando, o que teria sido caso a insistência tivesse se transformado em mensagens, ligações, vídeos e vizinhança. Teria encontrado seus novos melhores amigos? Teria se mudado para aquela cidade? Teria ido para uma convenção? Deu de ombros para si mesmo, conformado e feliz com o resultado, estava satisfeito. Feliz no ponto da vida em que se encontrava, mesmo tendo um grande problema para ser resolvido pelo próximo -- e talvez o resto de seus -- dias. --- Enquanto você ficou culpada, eu me senti a pior pessoa do mundo nos primeiros meses. Eu pensava que tinha sido super simpático? Muito prestativo? Jurei que estava fingindo tudo, só para ter fotos profissionais de graça. Mas, calma, perdi essa sensação quando nem as fotos chegasse a pedir. --- Segurou o peito, sinal do sofrimento interno com a fase ignorada, terminando com um sorriso meio riso,; balançando a cabeça para aquela reviravolta na vida dos dois. --- O destino não te perdoou não, mocinha. Eu vim aqui pessoalmente para piorar sua culpa e aplicar uma punição condizente. Vai ficar me devendo um monte de favores até o fim da sua vida. Vou acrescentar juros pelos danos emocionais que eu mais sofri. --- Circundou a ponta de uma das fotos, a ponta afiada provocando pontadinhas na parte macia do dedo da mão calejada do professor. --- Eu pedi, no início. Pedi muito. Mas quem seria eu para continuar pedindo? Uma atriz em ascensão? Preocupada com um parceiro de viagens? Nenhum filme me deu essa esperança de resposta. Olha aqui como eu estou certíssimo nessa história. --- Tirou o celular do bolso, um modelo quase perto de se tornar obsoleto. Abriu a agente de contatos e foi descendo, descendo, contatos diversos e em diversas línguas. Nomes acompanhados de lugares, ações, marcos históricos de valor inestimável. E lá, aconchegando na letra Q, estava ela. No entanto, nenhum número tinha sido colocado, afinal, não tinha consigo um celular durante o passeio. Celulares, contatos, nada, só a câmera e ele. --- Você agora está intimada a colocar o seu número. Todos. Qualquer um. Casa, celular, fax, esposo. O que for. Pois nós não vamos nos separar novamente. Não como da primeira vez.
Acostumado com elogios, Madzimoyo riu e agradeceu à moda indiana. Cumprimentando com a cabeça e as mãos novamente juntas. --- Namaste, namaste. --- E a formal verbal de tais elogios não eram sequer a melhor parte. Porque era fácil mentir, exagerar, colocar um pouco da compaixão para o golpe não ser tão forte. Quando a reação era visceral, ao vivo, cada um dos adjetivos ganhavam o mundo e as estrelas na galáxia do professor. Por isso era tão preservada, para sim, a tradição de revelar fotos. Dar de presente na forma mais básica e milenar da arte capturada pelas lentes. --- São suas para usar como quiser e posso mandar a versão digital de todas elas. Quer dizer, nem todas, as minhas vou ficar comigo. Não sou muito de divulgar minha identidade assim. --- Apesar da natureza amistosa, charmosa, e um tanto flertiva, Madzimoyo era discreto em seus hobbies. Este, escondido pela câmera, era o maior de todos eles. A conta no instagram com seus cliques permanecendo privada para todos os olhos, com exceção de dois. Duas das mulheres da sua vida. Mel e Maddie. --- Ele está ótimo. Casou pela terceira vez e está esperando o quinto filho. Depois que eu dei umas fotos para ele, do dia em fizemos o passeio, o negócio dele bombou. Tem uma companhia de transporte turístico. Não é que o cara tem uma lábia excelente? Atrevo-me a dizer que está muito feliz. --- Escutou as novidade da mulher com a concentração redobrada, a mente montando e criando cenários para cada uma das memórias. Os papéis podiam ser menores, mas tinham o peso de clássicos na imaginação e visão criativa. --- Primeira coisa que vou fazer quando chegar no meu apartamento hoje vai ser procurar seu nome no Google e assistir tudo o que tem gravado. Sem ressalvar. Se quiser me ajudar e poupar o trabalho de me dizer os nomes... Não, não fale. Quero ter a animação de achar e me deleitar com o seu talento. --- Bateu a mão no joelho, satisfeito com o plano traçado. As aulas da semana estavam preparadas de todo o jeito, não seria sacrifício nenhum adiar a praia para dar reconhecimento e merecimento às obras da colega. Amiga. Mad provoucou um pouco, cutucando-a na lateral do corpo. --- Não lembro de ter pedido a versão resumida, mas vou aceitar. Por enquanto. Precisamos de assuntos para conversar no nosso próximo intervalo na sala dos professores. --- Tomou uma longa golada de ar, soltando pelo nariz num suspiro comprido. --- Minha história... Vamos lá. Depois da Índia estiquei a viagem para o Paquistão e Afeganistão. Do jeito clássico, de avião, e não a pé como eu teria preferido. Quando eu estava ultrapassando a fronteira do Tajiquistão tive que voltar voando para os estados Unidos. Eu entrei num projeto de arqueologia com alguns colegas do setor, cada um apontava uma área para escavações e esperava pelo melhor. Minha área achou um fóssil de dinossauro, acredita? --- Lembrava dos olhos brilhando como uma criaça ao ver cada osso aparecendo à superfície, limpos por pincéis delicados. Frágeis. --- A identificação demora alguns meses, para saber a que espécie pertence e todas as classes. Quinn, você não acreditaria se o visse, ele é belíssimo. Ainda estou nesse projeto, assim como estou me especializando em Arqueologia, além de dar aulas para graduandos na faculdade. Quer dizer, dava. Eu não estava mais me sentindo muito à vontade. --- O desconforto não existia, só a tristeza por ter sido um motivo tão fútil quanto a cor da pele em um ambiente altamente preconceituoso. --- O reitor me indicou Armstrong quando pedi por mentes mais jovens, sem muito vícios. Só fui descobrir o nome daqui depois dele ter mandado a carta, porque eu teria conversado com a minha ex antes. Eu me casei Quinn e divorciei alguns meses atrás, da professora Melissa de Literatura.