É noite de domingo, e estou descansando um pouco, sozinho em meu quarto, depois de uma semana cheia de coisas, idas e vindas, experiências curiosas, “quebradas de cara” e grandes maravilhas. Há um silêncio imenso na Cité porque é meia-noite, os últimos grupos de estudantes se dispersaram, e os rádios – um ou dois – do meu andar emudeceram.
Tenho aqui comigo um gatinho, que preciso alimentar e abrigar esta noite, pois é o filho coletivo dos moradores do 3º andar. (Há uma semana eu o salvei de morrer gelado na neve, e em reconhecimento o dito-cujo lambeu de tal maneira um pulôver meu que estava ao pé da cama que o estropiou para sempre.)
Acho que há exatos dois anos eu estava em Veneza, prestes a vir para a misteriosa Paris. Já estou aqui há quatro meses e, ontem à noite, ao fazer um balanço mental desse período, percebi a familiaridade incrível com que me movo neste mundo. É aí que está o perigo. É agora que devo vigiar minha visão, a forma de me colocar diante de coisas que venho conhecendo cada vez melhor; é agora que devo impedir que os conceitos escamoteiem minhas vivências. Seria terrível (não me aconteceu, por sorte) eu ter um dia que passar às pressas diante de Notre-Dame e só dar aquela olhada distraída que se dedica a bancos ou a casas para alugar. Quero que a maravilha da primeira vez seja sempre a recompensa para o meu olhar. Posso me dar ao luxo de passar perto do Museu Cluny e pensar comigo: “Vou entrar outro dia.” Mas entrar ali tem de continuar sendo uma coisa séria, última, o motivo verdadeiro de minha presença em Paris. Nós rimos dos turistas, mas juro que eu quero ser turista em Paris até o fim, ser o homem que anota na agenda: quinta-feira, ir ver o São Sebastião, de Mantegna... É horrível perceber a cada minuto como as faculdades intelectuais empiétent sobre as intuições puras, tentando esquematizar o mundo... O cruel de Buenos Aires é que ela é muito mais matéria intelectual do que estética, e apressa esse processo horroroso de cristalização de um homem. Por isso os argentinos são gente de tanto “caráter” (!), de tanta “personalidade” – repertórios de ideias definitivamente fixas, congeladas, sem movimento possível. Todo mundo lá tem sua opiniões sobre as coisas, mas você há de concordar comigo em que basta opinar sobre uma coisa para, ato contínuo, deixar de vê-la. A ideia de Wilde em seu Retrato do Sr. W. H. é realmente profunda: se no ato de provar que uma coisa é A ou B irrompe de repente uma angústia terrível e uma sensação de descrença total no que se afirmou, isso se deve ao fato de que todo homem inteligente e sensível sabe que uma prova é sempre outra coisa, que absolutamente não afeta a realidade essencial daquilo de que se fala. Eu gostaria que Paris se entregasse a mim sempre como a cidade do primeiro dia. Estou aqui há quatro meses: mas cheguei ontem de noite, chegarei outra vez esta noite. Amanhã será meu primeiro dia em Paris.
Comecei a ir ao Louvre, depois de um repentino ataque de raiva por meu condenável mandarinismo. Fui com uma alegria de criança, entrei por aquela porta do Carrousel e me dei ao luxo de passar um bom tempo no hall de entrada, olhando livros e cópias... depois atravessei a Galerie Daru, e lá de baixo vi a Vitória de Samotrácia com toda a sua túnica ao vento. Levava grandes mapas exploratórios (em 1950 estive só dez vezes, de maneira que só conheço algumas seções), mas quando desci pela escadinha da esquerda e me vi diante da Hera de Samos e dos Apolos arcaicos... pronto. Já estive lá três vezes, e não saio das salas gregas. Ontem de tarde o sol iluminava os mármores, vi uma cabeça de atleta com o nariz e os lábios transparentes, como se fossem de mel. E o Apolo Sauróctono brilhava como se a luz brotasse de dentro dele. (Ah, mas antes de ir embora fiz uma travessura: desci correndo até as salas egípcias e fui olhar a deusa dentro do nicho, aquela que iluminam com “luz negra” e que gela meu sangue.)
Já fiz a primeira gravação para as Actualités. Sou um péssimo speaker, pois meus erres fazem o coitado do gravador pular, mas parece que dá para entender muito bem o que digo, ao contrário do que ocorria com o sujeito que estou substituindo. Não acredito que esse trabalho vá durar mais de dois meses, mas são alguns francos facilmente ganhos. E vou conhecendo pessoas curiosas: um grego, um árabe, um chefe de som que fala o argot mais invejável da terra.
Estou muito contente de saber que saiu “El juicio”. Pepe me mandou três números de Sur, mas falta o último; espero vê-lo muito em breve. E seus poemas, vai fazer o livro este ano? Já encontrou o título? Cada dia gosto mais de Georg Trakl. Tenho uma amiga que lê para mim em alemão e depois me traduz linha por linha. Temos muitos poemas de Trakl, ele nos parece um poeta muito intenso. E agora este finalzinho de carta eu dedico a María. Quero dizer novamente que você fez muito bem em me escrever daquele modo, e que não há motivo para se desculpar. Se minha memória continua fiel, no próximo dia 27 você vai somar mais um ano a sua vida. Beberei por você uma grandetaça de Beaujolais num bistrô da rue du Cardinal Lemoine, ao lado da place de la Contrescarpe. Gosta disso como presente de aniversário?
Um abraço bem grande, e que esta o encontre bem,