Hannah, ao acordar, olhou pela janela e pode observar os raios do sol iluminarem cada centímetro da praia. As águas iam e vinham como se dançassem uma canção tocada pelo vento e regida pela lua. A linha do horizonte era infinita e, ao mesmo tempo, finita, presa em um paradoxo onde os olhares da garota e de todos os outros seres humanos que observavam este mesmo plano seguiam para um abismo interminável e repleto de mistérios que seriam tão abundantes quanto às moléculas de água são nos oceanos.
A hipnose litorânea atingia-a com extrema força, e a aridez da praia ameaçava trazer de volta uma coletânea de memórias e sentimentos que ela tentara afogar em alguns copos de Martini e atos insensíveis durante a última noite. A enxaqueca a perseguia como se todos os fantasmas dos copos cheios de álcool fossem fantasmas. A ressaca era como um chão de concreto que a trazia de volta para a realidade após se matar do último andar de um prédio de ilusões. Doía. Mas o mal estar não era suficiente para fazê-la parar de olhar para a beira-mar.
Ela se levantou da cama para abrir a janela e percebeu que ainda estava com seu vestido Dior branco e que os Scarpins rubros estavam espalhados pelo chão. Olhou para o espelho que fica de frente para sua cama, na porta do closet. O tecido que cobria o seu corpo estava amassado, os seus cabelos desgrenhados e a tinta do delineador já estava em sua bochecha. A jovem respirou profundamente, reparou melhor em si mesma e sentiu falta do seu sutiã. Costumava dormir sem ele, mas como ainda estava com a roupa da festa, provavelmente deveria estar também usando a peça de roupa.
Ela precisava lembrar o que acontecera na noite anterior. Vários problemas podiam ter sido arranjados. Provavelmente passara um tempo com alguém detestável ou feito algo para se arrepender por toda a sua vida. Ela estava completamente alheia às questões morais e queria se livrar de todos os seus problemas rapidamente para voltar a sua vida normal.
Hannah passou as mãos pelo cabelo e notou que havia uma nota escrita em seu antebraço:
“14:30 – Ponte St. Thomas”
Eram já 14:00, e a ponte não era tão longe de sua casa. Não era preciso pensar muito para entender que era um horário e um ponto de encontro. Não sabia o que ou quem iria estar lá, mas, se era alguma informação sobre a última noite, valia a pena arriscar.
A garota vestiu o primeiro sutiã que achou na gaveta de peças íntimas, um que era realmente desconfortável, colocou uma jaqueta de couro cinza para suportar o frio, calçou os Scarpins avermelhados, porque estavam próximos dela e arrumou os cabelos em um coque firme. Todo o charme e a delicadeza que aquelas roupas podiam ter trazido anteriormente, já não passavam de memórias de alguns trapos desorganizados, que escondiam o corpo magro de Hannah.
O caminho entre a sua casa e a ponte era composto por curtas ruas bem asfaltadas, e era, sobretudo, residencial. Algumas pessoas andavam pelas ruas, em família, e haviam poucos comércios, que se limitavam a oferecer serviços e produtos destinados as necessidades do lar. Era um contraste intenso com as nuances comerciais intensas e os grandes hotéis que compunham as ruas próximas à sua residência. A jovem não via grandes letreiros, falsas e irritantes promessas de promoção, grandes e abundantes marcas de designers ou olhares desinteressados e esnobes, pelo menos, não da maneira como ela se acostumara a contemplar.
De frente à ponte, Hannah reconheceu um rosto, mas não sabia de quem era. As feições ranzinzas do rapaz, o terno bem vestido e os cabelos arrumados para a lateral direita eram familiares, mas nenhum nome ou momento lhe passava pela mente. A reposta mais óbvia era: “Ontem”. Ela franziu a testa, continuou a caminhada para próximo dele e preparou o discurso sobre “esquecer tudo e qualquer coisa sobre a última noite, sem nunca mencionar nada para ninguém, pelo bem da sua integridade pública e por alguma oferta de dinheiro que fosse razoável”.
- Oi, Hannah. – O rapaz sorriu.
- Quem é você? Nem precisa responder. É sobre ontem? Olha... Eu só quero fingir que nada aconteceu e voltar pra casa. Podemos simplesmente...
Antes que a garota pudesse terminar o discurso, ele entregou uma taça de Martini com uma foto embaixo para ela e, piscando o olho esquerdo, falou:
- Talvez o nome Cameron e essa foto te lembrem de alguma coisa.
Na foto, os cabelos de Hannah voavam lindamente enquanto ela beijava um homem de frente para a janela, onde o encontro entre os rostos deles marcava a linha do horizonte, refletindo a luz da lua na maré alta. O cheiro do Martini trouxe um Déjà Vu, e o nome lembrou um sabor doce de torta de morango. Ela disse:
- Eu pago. Mas você precisa sumir com essa foto.
- Mas quem é você afinal?
- Talvez essa peça de roupa de faça lembrar, Hannah.
Ele entregou o sutiã que a jovem usara na noite anterior, onde havia uma anotação.
Assim, a jovem lembrou-se de cada segundo da noite anterior. Desde as primeiras trocas de olhares com Cameron até o último gole de bebida alcóolica, quando finalmente entregou seu sutiã como lembrança para que eles pudessem se encontrar no dia seguinte, cumprindo uma promessa de amor. Não houve erros ou problemas. Tudo ocorrera perfeitamente, a não ser pelo fato de que ignorara todos no baile e se concentrara em um único jovem que a conquistara com uma taça e uma bebida barata. Definitivamente não era algo que ela queria esquecer.
Hannah correu até o jovem à sua frente, beijou-o intensamente, enquanto o abraçava e, sem intenção, deixou que a taça escorregasse da sua mão, quebrando o objeto e sujando seus sapatos com a bebida. Eles interromperam o momento, olharam para o chão, riram e se abraçaram fortemente. Aquilo lhe fez lembrar o motivo do encontro, que não era simplesmente romântico, mas uma forma de poder esquecer-se de sua rotina diária cheia de falsidade, compromissos e pouca vontade de viver.
Enquanto sentia o calor da pele dele, a garota se lembrou do mar e imaginou que a forte sensação que sentira no momento que acordou só podia ser de um destino interligado e, provavelmente, das intensões de quem estava à sua frente. Alguém que, possivelmente, passara a manhã contemplando o mesmo mar, o mesmo céu, o mesmo sol e o mesmo horizonte. Hannah, então, segurou a mão de Cameron com força e perguntou: