A Praça
Por onde começar... Quero falar um pouco da minha experiencia em relação a entorpecentes nesses Ășltimos 3 anos.
Pode parecer meio clichĂȘ quando falamos que começamos a usar sĂł como diversĂŁo; mas realmente Ă© assim, pelo menos comigo foi.
Lembro que antes de começar a usar pó, eu ja me divertia bastante, e bebia bastante, tinha começado a fumar a pouco tempo até; e a primeira vez que eu usei eu nem senti nada demais a principio, porém depois comecei a sentir uma euforia, e realmente, é uma sensação incrivel; onde eu conversava mais, fazia "amizades" facil, etc. Mesmo jå fazendo isso sem o pó, tudo parecia mais excitante.
Passei meses consumindo sĂł quando alguem me oferecia; eu nem pedia e nem gastava meu dinheiro com isso, e sempre dizia que eu controlava. SĂł que, com o tempo, nos rolĂȘs que eu frequentava começou a aparecer pessoas que jĂĄ utilizavam bastante; e eu comecei a usar com mais frequencia, atĂ© chegar no ponto de interar grana pra comprar o pino de pĂł, e isso se extendeu por meses, sem eu nunca ter ido na "boca" comprar pĂł; sĂł usava quando alguem pegava.
Eu pedia pra um amigo proximo a mim pegar na boca, mesmo que no dia ele não fosse sair comigo. Nessa epoca, eu jå usava aproximadamente 2 ou 3 vezes por semana, pois me encontrava com os amigos numa praça proxima a minha casa, entao sempre que dava vontade de sair eu ia pra lå, e obviamente me encontrava com a galera que usava. A partir dai, meu "grupo de amigos" comecou a mudar, e eu comecei a andar mais com a galera que usava pó, do que com meus amigos que não usava. Aos poucos eu fui me distanciando dos meus amigos, sem nem perceber.
EntĂŁo chegou um momento em que meu amigo que fazia o "corre" nĂŁo me respondeu, e eu, por querer usar o pĂł e fazer QUESTĂO de usar quando eu saisse, fui na boca sozinho comprar a droga.
Depois desse dia, claramente, isso se tornou rotina. Eu jĂĄ nĂŁo tinha medo de ir comprar sozinho, entĂŁo quando eu ia pra algum lugar, eu ja tinha minha quantidade garantida.
Obviamente depois disso, quando eu chegava nos locais com meu próprio pó, o pessoal ja sabia. E vinha uma galera me chamar pra ficar com eles, pra usufluir do que eu tinha. No inicio eram simpaticos, me chamavam pra aparecer na praça, e eu sempre tentei dividir conscientemente com o maximo de pessoas possivel, ja que eu não pegava uma quantidade tão grande, e por não saber dizer não, acabava dividindo tanto, que a quantidade que sobrava pra cheirar era infima, e nem dava pra se divertir direito.
Dito isso, eles mesmos começaram a se dividir em grupos, duplas ou trios e passaram me chamar pra cheirar escondidos da propria galera deles. Comecei a perceber que eles jĂĄ nĂŁo botavam mais pĂł pra mim, era eu que estava bancando todo o rolĂȘ, porque alĂ©m de pĂČ eu ainda comprava bebida e cigarro e dividia com todos, entĂŁo (nĂŁo querendo me achar), mas eu era um "TRUNFO" naquele lugar, mas eu demorei muito atĂ© perceber que era sĂł pra usufluir do que eu oferecia.
Durante todo esse tempo, eu achava que eu fazia parte daquele meio, que eu era querido, que eles realmente queriam estar ao meu lado pra gente resenhar, zoar, etc, atĂ© que eu cheguei um dia na praça e um cara em especifico da galera nĂŁo me deu nem um âBoa noiteâ , ao invĂ©s disso, ele perguntou quantos pinos eu tinha levado.
Aquilo me fez refletir, mas eu jå havia me afastado do meus amigos de verdade (a galera do rock), mesmo quando eles apareciam na praça eu jå não passava tanto tempo com eles, porque sempre alguém me chamava pra cheirar (o pó que eu mesmo tinha) em algum outro canto.
Mesmo depois disso, ainda continuei andando com essa galera da praça, comecei a ver as pessoas que estava me rodeando, mesmo percebendo que aquela não era minha realidade, tinha pessoas ali que, pra mim, poderia surgir algum tipo de amizade. Algumas pessoas iam na minha casa ( eu jå morava sozinho) e a gente passava a madrugada cheirando e conversando sobre bastante coisas pessoais, eles contavam sobre suas vivencias, e eu as minhas, e era até legal ver o quanto a vida de cada pessoa é completamente diferente da bolha que a gente vive, e como realmente a vida de cada pessoa é uma historia a parte.
Nesse meio tempo até me relacionei sexualmente com algumas pessoas de lå, mas era apenas onda de droga. Eu só servia pra fazer oral ou anal, e nunca rolava beijo ou algo do tipo, afinal eles eram Heteros, e eu gay, era apenas uma onda da droga.
Como eu jĂĄ estava a MUITO TEMPO sem me relacionar com outro cara assumidamente gay, eu acabava deixando com que o âmĂnimoâ desses caras fossem um âtudoâ pra mim. E comecei a me iludir e a me diminuir, achando que realmente era sĂł aquilo que eu merecia. EntĂŁo, isso foi se tornando um ciclo; mesmo sabendo que nada era real, eu me apeguei a essas pessoas durante essa Ă©poca.
No inicio eu havia gostado de um cara de lĂĄ, que a principio parecia diferente de todos, começou a me dar mais atenção, a me mandar mensagens, a perguntar se eu ia aparecer na praça, e eu fui gostando da presença dele, e quando Ăamos cheirar era eu, ele e algum amigo dele. Ele falava que nĂŁo era sĂł por causa de pĂł, mas mesmo se eu nĂŁo tivesse nada, em algum momento davamos um jeito de comprar pra gente usar, ainda assim era com o meu dinheiro, e nesse momento eu queria agrada-lo (lembrando que ele Ă© HETERO).
Esse cara começou a freqĂŒentar minha casa, durante meses, e ficou morando lĂĄ. Obviamente nunca tivemos NADA sĂ©rio. No inicio era atĂ© tranqĂŒilo, nĂłs tirĂĄvamos um dia na semana pra beber e resenhar, ambos paramos de freqĂŒentar a praça.
A Casa
Com os passar dos meses começamos a cheirar pó dentro de casa, coisa que eu nunca tive costume de fazer; pra conversar mais e resenhar. Porém, ele foi ficando cada vez mais estranho. Até chegar um momento em que discutimos e ele me agrediu a primeira vez.
Eu jĂĄ nĂŁo tinha tantos amigos prĂłximos pra conversar,jĂĄ que havia me afastado de todos os meus amigos nos quais confiava de verdade, e sĂł falava muito com uma amiga em especifico. Essa amiga começou a aparecer nas resenhas que fazĂamos em casa, era sĂł eu, ele e ela. Começamos a fazer essas resenhas frequentemente, cheirĂĄvamos, bebiamos, e fumĂĄvamos. E sempre que eu estava a sĂłs com ela, eu desabafava sobre ele, sobre o quanto gostava dele, e ela me escutava, me dava um suporte, falava pra eu deixar ele, etc, E nĂŁo vou mentir, que era o que eu mais queria, mas eu estava muito apegado nele, e por mais doido que possa parecer eu queria conversar com ele, pra que ele mudasse.
Eu estava vivendo uma paixão onde, claramente, era só na minha cabeça; e ele sabia disso, e parecia sempre contornar a situação pra que eu achasse que ele gostava de mim, ainda que OBVIAMENTE não gostasse.
Com o passar do tempo, quando eståvamos nós 3 em casa cheirando, comecei a perceber umas mudanças na minha amiga, e comecei a desconfiar de algo. E ele negava que tinha algo, e ela também.
Rolou briga entre eu e ele algumas vezes, até que um dia ele me agrediu novamente e eu tomei coragem e mandei ele pra fora; e fui correndo pra casa de minha mãe, e desabafei tudo pra ela.
Uma semana depois voltei pra praça e essa minha amiga estava la sem celular e pediu para entrar no instagram no meu celular, eu deixei; ela acabou saindo e deixando o instagram aberto no meu celular e eu vi mensagens dos dois trocando flertes.
Eu parei de falar com minha amiga, e comecei a passar um tempo sozinho em casa. Só saindo pra lugares perto da minha casa. Fiquei bastante mal nessa época, foi quando terminei de produzir o meu EP Metamorfose, com minha banda, que tem musicas que falam dessa época.
ApĂłs todo esse caos na minha vida, comecei a andar com outras pessoas, e eu jĂĄ nĂŁo queria sair pra lugares pĂșblicos, fiquei meses sĂł fazendo sociais em casa; e sabemos que quando a gente esta triste, a gente quer cheirar pra se distrair, e quando ta feliz quer cheirar pra comemorar, entĂŁo tudo acaba voltando pro mesmo lugar.
Comecei a varias vezes na semana chamar vĂĄrios amigos pra minha casa, e era droga, bebida e cigarro a noite inteira, e isso se tornou costume. Eu deixei de ter animo pra escrever minhas musicas, pra trabalhar, pra fazer tudo o que eu gostava, porque eu sĂł queria resenhar, todo dia era dia pra eu beber, fumar e cheirar.
AtĂ© que nessas sociais começou a rolar coisas desconfortĂĄveis, e minha saĂșde começou a cobrar. Fiquei internado 2 semanas por uma infeccção e quando eu saĂ eu disse pra mim mesmo que nĂŁo queria mais cheirar, mas como onde moro Ă© mais difĂcil de conseguir comprar bala (jĂĄ que eu queria substituir o pĂł) eu acabei voltando a usar pĂł um tempo depois de sair do hospital. Parei de fazer essas sociais e comecei a andar mais pelo meu prĂłprio bairro.
O Bairro
Quando comecei a freqĂŒentar mais meu prĂłprio bairro, paredĂ”es, etc e ficar mais prĂłximo de casa comecei a conhecer umas pessoas de la, que atĂ© eram pessoas legais, mas que jĂĄ tinham seus grupos de amigos formados, e algumas nem cheiravam pĂł, mas nessa Ă©poca eu jĂĄ comprava pĂł pra eu usar sozinho. Vira e mexe acontecia situaçÔes desconfortĂĄveis entre esses grupos de pessoas e eu me distanciava, alĂ©m da maioria das pessoas que falavam comigo fosse tambĂ©m pra pedir pĂł.
Comecei a perceber que eu tambĂ©m nĂŁo era tĂŁo bem-vindo ali, e quando acontecia de me relacionar sexualmente com alguĂ©m era tambĂ©m com homens âheterosâ em prol do pĂł. Nessa Ă©poca eu jĂĄ cheirava aproximadamente 4 vezes por semana; porĂ©m, tudo o que eu fazia nĂŁo estava me deixando confortĂĄvel, eu basicamente sĂł saia porque nĂŁo queria ficar em casa. Tentei freqĂŒentar lugares nos quais eu freqĂŒentava a ANOS atrĂĄs em que eu realmente me divertia mesmo sem drogas, como boates e tal, mas agora acabava usando droga da mesma forma; isso durou durante um ano inteiro.
Acho que a ficha caiu pra mim quando chegou no final do ano, em que eu me vi sozinho. No Natal, meu aniversario (27/12) e Reveillon eu sempre saia com meu grupo de amigos (a galera do rock); e agora eu não tinha nem eles pra sair. Reveillon de 2025 pra 2026 passei na casa de meus pais deitado assistindo série, sozinho.
Eu queria tanto reconquistar tudo o que eu tinha, a vontade que eu tinha de continuar meu trabalho artĂstico, o meu trabalho na minha loja e principalmente o meu grupo de amigos, que eram de verdade; mas acabei me afastando de absolutamente tudo.
Agora em 2026 surgiu a oportunidade de vim para o Rio de Janeiro, e recomeçar. Conhecer novas pessoas, em um local completamente diferente, que nĂŁo me trĂĄs lembranças do que eu fazia; e sei que cabe unicamente a MIM dizer NĂO quando me oferecerem algo. Mas atualmente estou na luta, procurando o meu melhor, longe de tudo e todos que sĂł tiraram de mim o pouco que restava.
Sei que vou ter gatilhos pelo resto da minha vida, e posso tropeçar as vezes, mas NUNCA mais quero estar no fundo do poço como jå estive.

















