Laura não era uma mulher alta e não era uma mulher gorda, possuía um corpo escultural, arredondado e sedutor. Sua pele era levemente bronzeada e seus cabelos ruivos, de fios lisos e cortados na altura de seu queixo com uma franja que recaia sobre seus olhos esverdeados. Sardas se espalhavam pela sua face de feições delicadas, um nariz arrebitado, fino e de narinas pequenas, lábios estreitos e um queixo pouco saliente que parecia se encaixar perfeitamente em seu rosto. Era como se ela tivesse sido esculpida por um artesão habilidoso em todos seus mínimos detalhes, suas pintas espalhadas pelo corpo e pelos quase transparentes que brilhavam no sol, pareciam ter sido escolhidos a dedo, para que Laura fosse uma mulher desejada, sonhada e padronizada, de que forma que habitasse a imaginação de todos, em idealizações familiares ou em sonhos eróticos.
Laura morava só. Não tinha família. Seus pais? Não se lembrava deles, haviam morrido muitos, muitos anos atrás. Nunca se interessara por ter filhos. Achava crianças repugnantes, seu choro ensurdecedor, a constante necessidade por atenção e as escatologias que faziam sem o menor constrangimento, era tudo detestável. Laura nunca esteve em relacionamento que perpetuou por muito tempo, já se deitou junto de homens e mulheres, e homens e mulheres a cobiçavam. Mas ela nunca parecia satisfeita, por mais que achasse o sexo prazeroso, nunca respondia ligações, mensagens, ninguém era capaz de satisfaze-la. Não achava ninguém interessante, apenas ela mesma, seus maiores prazeres vinham de seus próprios dedos. Na verdade, Laura não gostava de pessoas e relações sociais. Possuía um raciocínio muito simples e pragmático que a levava a fechar a porta a qualquer um que se interessasse por ela e buscasse algo mais do que uma noite passional: ela iria morrer, então não fazia sentido relacionar-se socialmente com alguém por muito tempo. Sua prioridade nunca fora relacionar-se com alguém durante um torturante e agoniante período de tempo no qual ela se sentiria presa, sua prioridade sempre fora trabalhar.
Se enfiar no escritório era maior do que qualquer necessidade biológica de seu corpo. Laura trabalhava no mercado de ações. Ela gostava de números, sempre os achou fascinantes e sempre os estudou com maior interesse do que estudara qualquer pessoa que ousara se aproximar dela. As previsões que faziam e os segredos que as contas revelavam, para ela era algo surreal. Gostava de seu trabalho, tudo que alcançara em sua vida fora fazendo contas no mercado de ações, ela tinha facilidade em faze-las. Muitas pessoas achavam a velocidade com que calculava algo inumano, mas sempre fora assim, para ela era algo banal e não conseguia compreender como tantas viam um raciocínio tão lógico e básico como algo tão complicado, chegava até a deixa-la irritada. Ela era fundadora de um grande e bilionário fundo de investimentos. Tornou-se uma mulher independente e dona de uma fortuna invejável. Fizera tudo sozinha, não precisou nunca de ajuda. Tornou-se um ícone, uma pessoa a quem todos se espelhavam.
Laura possuía sempre a mesma rotina, qualquer coisa que forcasse uma alteração em seu cronograma perfeitamente calculado e planejado a irritava. Ela acordava precisamente as sete horas da manhã, nem um minuto mais tarde nem um minuto mais cedo. Levanta-se da cama e a arrumava sempre do mesmo modo, a dobra do lençol e a barra da colcha sempre na mesma posição, e seus dois travesseiros de mesmo tamanho apoiados na cabeceira de modo que não escorregavam e mantinham-se presos estáticos até o momento que Laura fosse se recolher, as onze horas da noite em ponto. Depois de arrumar a cama ela se arrumava para o trabalho. Ajeitava seu cabelo e vestia um terninho e saia brancos, sempre perfeitamente passados e nunca amassados, colocava um colar de ouro branco em seu pescoço longo e brincos em formato de argolas em suas orelhas arredondadas. Calçava sapatos de salto alto finos e na cozinha preparava uma única xícara de café sem açúcar e sem leite, puro, se feito de outra maneira, usando outra máquina, ela se sentia enojada. As sete horas e quarenta e cinco minutos da manhã seu motorista a buscava na porta do prédio em que morava, uma vez que Laura ficava plantada no saguão do edifício desde as sete horas e trinta e cinco minutos esperando-o. As oito horas da manhã chegava no escritório, era sempre a primeira, e as dez horas da noite seu motorista a levava para casa.
Era uma segunda feira as dez horas e cinco minutos da noite. O motorista de Laura já a levava para casa fazia cinco minutos. Ela ia no banco de trás do carro de pernas cruzadas e sem trocar uma sequer palavra com o homem que se sentava no banco do motorista. Era uma noite chuvosa e ela observava as gotas d’água escorrendo pelos vidros das janelas do carro enquanto as partículas úmidas se iluminavam pelos neons coloridos que brilhavam e piscavam nas ruas. O carro foi desacelerando aos poucos, estava chegando em casa, ela se perdera no tempo observando a dança das luzes, era algo belo, gostava. De sua cobertura conseguia ver toda a cidade, as vezes ficava com seu rosto apoiado em uma grande janela, que se estendia do chão ao teto, apenas observando a cidade que brilhava durante a noite.
O carro parou e ela desceu, se molhando com a chuva que escorria violentamente das mãos de Deus. Não correu com presa para o saguão, ela gostava da chuva, gostava de se molhar. Com calma começou a ouvir seus saltos batendo no piso de mármore da recepção e ecoando por toda a entrada do edifício. Parada no elevador, ajeitou seus cabelos e jogou no chão algumas pequenas gotas que se recusaram a ser absorvidas pelo algodão de sua roupa. Entrou em casa e tirou seus sapatos e se deparou com um grande anúncio recém instalado no prédio que ficava ao de Laura. Mostrava uma imagem de uma bela mulher de cabelos louros cacheados, não muito alta e nem muito baixa de corpo escultural. Pele bronzeada e face de feições delicadas com um nariz arrebitado, fino e de narinas pequenas exibindo lábios estreitos. Abaixo da foto da mulher que se mostrava de braços cruzados, havia uma única frase:
“O mais novo e avançado tipo de androide”
A mulher do anúncio era de extrema semelhança a Laura. O nariz, o lábio, a forma de seu rosto. Ela não parecia ser mais tão única como achava que era antes. Um coração não bate em meu peito. Fios ao invés de veias. Ferro ao invés de pele. Como pude ser tão tola ela pensava? Não fazia sentido ela ser um robô, eles não sentem nada, e Laura? Eu sinto alguma coisa não? NÃO. Não sinto. TOLA. Devia ter percebido antes. Eles não se lembram de seus pais e famílias, eu... eu... lembro? TOLA. Eles não sentem dor, eu sinto? Nunca senti em minha vida. Tomada por tempestades e confusões em sua mente, em seu coração? Em seus fios? Em sua pele? Ferro? Começou a correr em direção a grande janela de sua sala de estar, protegeu seu rosto com seu braço e mergulhou causando estilhaços de vidro voarem para todos os lados. Voou.
Laura abriu seus olhos desesperadamente. Não via nada. Estava sentada nua, em cadeira de ferro gelado em uma sala escura com apenas um monitor de computador em sua frente, acesso e com apenas três pontos verdes piscando. Ela estava sem fôlego e sua respiração estava acelerada. Seu corpo, sem nenhum arranhão e hematoma, impecável como sempre. Sentia apenas uma insuportável dor de cabeça. Não conseguia se mexer, seu corpo parecia mais pesado, como se houvesse algo puxando-o para trás, de fato havia um emaranhado de fios presos e conectados em seu pescoço. Os três pontos na tela pararam de piscar e ela se iluminou com a frase sistema reiniciado. Na sala escura, ecoou apenas um grito de dor e desespero.
A.I. - Inteligência Artificial conta a história de David, um robô programado para demonstrar amor incondicional, é adotado como filho de um casal, mas começa a ter problemas quando não é bem aceito nem pelos humanos nem pelas máquinas, tendo assim que encontrar o seu lugar no mundo, tentando se tornar um garoto real. Isso demonstra a problemática da inteligência artificial tentar se tornar humana ou se revoltar contra a humanidade, tornando-se um medo comum de certas pessoas visto que é uma possibilidade que parece se aproximar cada vez mais de nós. O Big Data, de acordo com determinados pensamentos, já é um sinal que evidência isso, já que a máquina consegue saber os gostos e possíveis comportamentos futuros nossos, invadindo a nossa privacidade e demonstrando que está a nossa frente, prevendo nossos movimentos.
A artista contemporânea, Laura Ramirez, é conhecida pelos seus projetos visuais e digitais, fazendo parte de um grupo de artistas que vem usando a criatividade e tecnologia como principais ferramentas para desvendar esse universo infinito da arte. Atualmente, ela marca presença em grandes festivais de arte eletrônica pelo mundo, como o Mapping Festival em Genebra.
Sua produção, baseada em vídeos e projeções, traz ao espectador um universo revolucionário como o da fotografia acima com um painel sob o prédio da FIESP durante o Festival SP Urban em 2016.
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A post shared by Sophia the Robot (@realsophiarobot) on Aug 9, 2019 at 12:55pm PDT
A robô Sophia foi criada pela empresa Hanson Robotics, proveniente de Hong Kong. Ela foi criada com o conceito de inteligência artificial, um computador programado para ler, aprender, falar, trabalhar, adaptar-se ao comportamento humano, reconhecer voz e faces, além de pode repetir 62 expressões faciais. A andróide já foi entrevistada por diversos jornalistas, algumas das situações geraram conversas impressionantes e outras bizarras. Em algumas ocasiões, quando perguntada se destruiria a raça humana, Sophia respondeu com um simples “Ok”. Essa informação junto ao fato de Sophia ser o primeiro robô que possui uma nacionalidade, proveniente da Arábia Saudita, fazem muitos se perguntar se não estamos indo longe demais, se um tema tão comum em filmes de ficção científica não está cada vez mais próximo de nossa realidade, se Sophia desenvolver capacidade de destruição de massa será que sua cidadania não a protegeria de um possível julgamento?