Diria que é triste te ver sofrer. Isso poderia ter sido evitado, caso você não tivesse a brilhante ideia de topar com ele. Ainda mais naquele momento. Se eu dissesse que aquele menino, grande homem, te magoaria no futuro, você diria que valeria a pena. Eu disse isso. O pior mesmo é que ele tem um segredo, uma virtude, um olhar, alguma coisa que até hoje eu não decifrei. Alguma coisa que gruda na gente, e se eu pudesse te dar um conselho, ainda que você tente, vai ser difícil esquecer. Tive uma amostra de como seria seu relacionamento. Nós saímos por algumas vezes, nos abraçamos desesperadamente em outras. Também sorrimos sem porque e roubamos beijos um do outro. Eu ouvia que não era nada demais. A semente já estava plantada. Andamos feito condenados para ver um fim de tarde na Urca, ficamos sem grana, combinamos de nos ver na outra semana. Fugimos para as cadeiras mais altas do cinema e deixamos que o filme passasse sem sequer percebêssemos. Pegamos o mesmo ônibus e entramos na mesma casa, tiramos e colocamos as roupas, nos perdemos naquela pequena sala. Ele me ensinou a limpar um liquidificador e até hoje eu lembro desse ato, como um ensinamento de honra. Naquele domingo de sol, torramos na praia. E não saberíamos jamais que aquele dia maravilhoso seria o último daquela era. Porque depois você apareceria e me forçaria a desistir. E o pior, eu desistiria sabendo que era sobre você que ele pensava. E diante disso tudo, a única coisa que me corrói por dentro é saber que em nenhuma das chances que eu tive, nem mesmo no auge do turbilhão de sentimentos que ele me fez sentir dentro daquele quarto, nem quando nos despedíamos ou quando eu sentia muita falta, em nenhuma dessas vezes, (nenhuma!) eu disse o que realmente importava. Aqui digo então o que eu queria ter dito a ele, digo no presente, porque esse passado nunca se fez tão próximo, e se pudesse escreveria no futuro, porque seria uma meia verdade. eu te amo.