A gaveta
Eu era uma gaveta entalhada de silêncios. Dentro de mim, papéis se multiplicavam— medos escritos em letras trêmulas, segredos dobrados em origamis de vergonha, traumas que escorriam pelas frestas como tinta de uma caneta furada.
Alguém jurou que ia desentulhar meus cantos. Prometeu mãos leves, paciência de arquivista, dizer: "Isso aqui não te define" e jogar fora o que doía. Mas seus dedos foram como furacões— remexeram tudo, rasgaram ainda mais as bordas, e no fim, jogaram os mesmos papéis de volta, com um suspiro: "É muito. Não dá."
E eu, que já estava meio aberta, me fechei de uma vez.
Agora carrego o peso sozinha. Aprendi: algumas gavetas não são para serem esvaziadas, apenas trancadas. E eu— eu sou boa em ficar quieta.










