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@pseudonimocaco
Porcos de Duas Patas
autorretrato, 2019.
O MIRANTE AVISO DO TEMPO.
Percebi ainda agora como as pálpebras caem sobre os olhos...
Como a pele é fina, e desde já, rugosa.
Perguntei-me como seriam os anos seguintes
Como seria a textura da pele, o contorno dos olhos, a cor das olheiras.
Visualizei um rosto ainda mais sério que o meu, com mais linhas e uma expressão ainda mais cansada.
Enquanto a pele ainda cobre a carne, enquanto a carne ainda é dura,
Sobra no espaço o silêncio dos devaneios quase que certeiros.
Fica na timidez do sorriso, a esperança de não se ver degradar.
O tempo quisera desde cedo acelerar.
Prematura infância adulterada.
Corpo em fluxo, avante.
Tingem os pelos, marca a pele, conduz a alma...
O agora será tarde demais para voltar (?).
A vida destina-se ao vai...
E sem pensar em com ir, eu fui... Vou... Sigo.
As pálpebras, o brilho da pele, a força da carne.
O esforço dos pulsos, a opção relacionada, atravessada.
Os nãos que revelam sim...
O tempo, o desgaste, o corpo, o pensamento e a ideia...
Caem, deslocam-se, caminham para um estado de repouso.
Adormecem sobre os braços do tempo, com toda sua vulnerabilidade, flacidez e instabilidade.
Dormem com o seu prazo alcançado.
Acabaram-se as oportunidades, não haverá mais ocasião.
CACO. 28 de Abril de 2017.
ALVOROÇO DA NAÇÃO.
Passei entres os vivos de falas mortas Senti seus fluidos invadindo os meus poros e roubando meu ar A delicadeza sendo sufocada na grosseria Esmagada, silenciada em temporal de ruídos. Observei a força de cada homem que ontem meninos, foram impedidos de chorar. Ciclos. Repetindo, repetir, repetirão... Sobra ausência de empatia Falta a sobra de verdades Silencie vossos gritos, eles não amedrontam ninguém. Há gritos mais potentes, há gritos calados. Chorem. Deságuem pelos poros o que nos fazem sofrer Revelem a potencia de se permitirem amar.
Caminhei entre os becos cheios, avenidas suadas de desejos e repreensão. Caminho agora entre o ardor de uma garganta seca, entre os lábios fechados e sedentos da labuta.
Caminharei de costas para uma rua sinuosa e escura, Deixarei os braços relaxados para que um alguém possa me agarrar. Transpassar em mim, o que não posso mais falar. Foi dito. Lido, tateado e embrulhado por mãos comuns, por pés familiares.
Emitir raivoso o desacato de minha propriedade não é por mim validado. Sorriam, mais um caiu sobre o asfalto sujo, histórico e impregnado de um sangue que também lhe corre as veias. Gargalhem, os dias possuem prazo. Os dias possuem fim. Lavem das mãos o que levita pelo ar, respirem pela boca o que bombardeiam com os olhos. Ódio, desamor insensato.
Hoje, mais um, mais uma bixa, mais uma trans... Amanhã, um preto acorrentado, Um pai desacordado, um corpo ébrio dormindo ao chão. Sorriam, pois todos nós, dos mais ricos aos fudidos, para sua angustia somos irmãs.
CACO. 28 de Fevereiro de 2017.
O silêncio convidou o tempo para em minha cabeça caminhar.
Mostrou-me os medos, mortes e ausências de desejos.
Mostrou-me a fraqueza do meu torso
O assombro da minha moleira.
E gritava, gritava...
Esperneava berrando pelo achego
Pelo apreço na imprecisão
Pelo terror que não havia de ser breve
Pelo argumento, hoje, dominado.
Ficou latejando no neurônio o estopim deflagrado
O estresse desembrulhado pelo sorriso desajustado
Assombrado pelas próprias certezas
Intimidado pelo parecer de seus chegados.
Sorrindo, permaneceu intimidado
Socorro que não se pede,
Socorro que não é dado.
Socorro forte, gritado no silêncio do não falar.
Prostrei. Desanimei.
-CAIQUE COPQUE, Janeiro de 2017.
ÁGUA NO CO( R )PO. Eu durmo Mas não descanso. Eu tomo banho Mas não me limpo. Eu vejo, eu sinto, Mas não me mostro. Não permito. Eu me molho, Me emociono ainda secando o cloro da pele. Eu descamo, Acinzento as costas desde á infância Avermelho os olhos desde sempre. Eu bebo, E molho a sede da boca, com o falso doce D’água. Eu me afogo, Entre o copo quase cheio, entre as lagrimas reprimidas, entre os risos silenciados. Eu me acarinho, me fito, Me julgo e admiro os lábios bicolor que sorriem. Eu me orgulho de ser gota De ser fluído vivo de mãe forte, viva. Eu abraço o gole vital de minha fome com a boca molhada. Eu me coço seco entre as popas e as coxas ressecadas querendo mais e mais água. Eu carrego, Eu acoberto, Eu reflito. Eu aperfeiçoo, acentuo e denoto as instabilidades de minha fluída e estranha carne... Eu ilumino, atravesso atravessado pela luz natural de um dia tranquilo. Eu detalho, reajo e engulo o nada em que me é tudo, em que parece sede. Em que se alinha ao contorno de uma linha marrom, de uma alma boa se balançando infinitamente nas paredes de um aparentemente estável, porém, desgastado co(r)po.
CAIQUE COPQUE, 2016.