Uma noite comum pra quem vê de fora. Vários amigos reunidos interagindo na sala da minha casa. Todos entrosados numa conversa. Eu sentada de canto, encostada na parede, calada, e tudo normal... Tudo normal... E nada. De repente eu não entendi nada. Havia um esforço extremo pra entender a situação, e absolutamente nada. Meu corpo não reagia aos meus comandos. Meu querer me desobedecia. Minha cabeça não parava. O pensamente era inconstante e sem nexo. A tentativa de um controle impossível. O que eu queria controlar? O que eu queria descontrolar? Desequilibrou-se qualquer merda interior. As ações se perdiam no surto da coragem, na predominância da covardia, e eu permanecia praticamente imóvel. Vontade de pular e me jogar no chão num foco desajustado. Eu sorria e nem sabia o porquê, acompanhando o sorriso alheio enquanto ouvia alguma coisa indefinida. E a cabeça não parava. Eu mentia as expressões na tentativa ocultar minha confusão. E a cabeça não parava. Eu enlouqueci. Um esforço absurdo pra me dar conta de que os murmurinhos perturbadores eram sussurros que iam aumentando o tom... Aumentando... Aumentando... Até a recuperação parcial da consciência. Ouvia as vozes, mas captava palavras que não se uniam. Distorção de qualquer tentativa de chegar a um significado. Palavras que flutuavam no caos do pensamento. Entender uma delas era uma conquista. A voz do pensamento gritava mais alto que qualquer som possível no ambiente. Entender uma frase era quase um milagre, tal qual, pelo quase, aconteceu. Finalmente entendi uma frase que não me recordo, e eu me situei além da percepção que a cabeça já no âmago do não-ser me permitiu, o pós inatingível: ativar a audição para o real “tem uma música tocando aqui! (?)” Sim, havia uma música tocando ali, e aquela música foi o ponto focal para um possível norteio. Um som sem letra, uma batida rápida e contínua sem pausa para um risco de segura consciência, um portal sugador escancarado. Um buraco negro. A loucura me engolindo mais uma vez. Ouvir as batidas sonoras foi a maior conquista das mais longas três horas da minha vida, que duraram 7 minutos.