Você me ensinou, sem pretensão de ensinar, a dançar nos corredores dos mercados quando me desse vontade. Me ensinou a andar com confiança em ruas nas quais nunca poria os pés e a amar como quem come uma torta de maçã. Até hoje não gosto de tortas de maçã, mas gostei da sua.
Hoje não consigo mais assinar no fim das minhas cartas "Salvador, 2024", do jeito que eu achava tão bonito, mas ainda escrevo pra você.
Sempre que me vejo amando de menos, escrevo pra você. Sempre que tenho medo de viver, lembro de como, de cima daquele estacionamento no carnaval, o mundo era qualquer coisa e ser qualquer coisa e não ser nada era a coisa mais libertadora que ele podia ser. Sempre que ouso querer parar de escrever, lembro que você me disse, numa carta, "Escreva. Você escreve bem, continue fazendo-o. Sei bem o que é ter uma única rota de escape. Faça-o. Escreva como se sua vida dependesse disso. No final você descobrirá que sim."
Hoje escrevo mais canções do que textos, estou cercada de músicos talentosos e poetas que escrevem como você - como se a vida dependesse disso -, e apesar de me sentir pequena as vezes, tento me lembrar de manter a poesia corrida, de ignorar os polites, de aceitar a contradição e manter a minha chama acesa, apesar do estrago que ela possa causar.
Os meus chifres de áries vão ser sempre acompanhados pela regência dos meus planetas em fogo (sei o quanto você gosta de citações astrológicas) , e não me cabe mais tentar extinguir a chama do meu coração. É ela que aponta a direção certa: onde estão os maiores sentimentos, as mais breves e mais bonitas e mais complexas e mais reais histórias de amor.
Creio que a melhor história de amor que vivi desde que troquei a areia de Itapuã pelo asfalto da Avenida Paulista tenha sido a que vivi comigo mesma, apesar de ter vindo acompanhada dos maiores clichês: inimizade, que virou reconhecimento, que virou entendimento, que virou paixão e que finalmente virou amor de mim pra mim.
Gosto de clichês. Gosto de você. Gosto de mim.
Eu reconheço, hoje, a estranha que mora dentro de mim. e rio de seus tropeços, me irrito com o modo como às vezes troca os pés pelas mãos, tenho compaixão por suas dores agudas e abraço a dor e a delícia de conviver com o que quer que venha dela.
Eu te amo por toda a confusão que foi o nosso amor e por todos os grandes gestos e grandes sensações, e por todos os pequenos gestos e pequenas sensações que pareciam gigantes porque vinham de você. Te amo por todas as palavras que nem sabia que podia juntar pra falar o quanto era apaixonada por você. Te amo hoje com a calma de quem, como você previu, ia ver o tempo passar, de quem ia crescer.
Meu mundo tem fumaça demais e bebida demais, como o seu tinha na época em que nos encontramos, e acho que esse foi um dos seus maiores erros - não era você quem trazia fumaça pro meu mundo, ele sempre teve esse ar boêmio de madrugada, poemas e absinto. Eu gostava de você porque você me lembrava de um eu que eu tinha que fazer ser pequeno pra viver, e que agora posso deixar viver e errar e acertar, do outro lado do país.
Sinto sua falta como quem pensa na primeira memória feliz da infância. Com nostalgia, mas sem tristeza.
Eu sei que eu vivi muito com você.
Obrigada por cantar Beatles pra mim enquanto todos os nossos amigos caíam naquela sessão de bebidas, naquele carnaval.
Meu amor por mim começou a crescer no momento em que você tocou seus olhos escuros no meu rosto e eu consegui me ver, pela primeira vez, refletida com amor nos olhos de outra pessoa.