Eu preciso conversar com alguém
Eu preciso conversar com alguém. E eu sei que você já está me ouvindo.
Olha pra um lado, olha pro outro.
É que preciso conversar com alguém que vai me ouvir de outro jeito. Deve ter outro jeito de ouvir. Se eu tivesse algo a contar mesmo, você diz que eu estaria desesperado. Você está desesperado?
O meu silêncio respondeu que está escrito na testa do vizinho que sim. O desespero existe. Sempre na testa dos outros, que não precisam de ajuda.
“Se você precisa mesmo conversar com alguém, eu posso indicar.”
Eu preciso. Deve ter uma conversa me esperando. Você também fala com você mesmo? Quem eu seria se eu conversasse com outro alguém, eu fico pensando. Se você indicasse. Eu poderia ser feito de uma palavra já colocada pra fora.
Uma palavra produzida pra alguém que não mais eu mesmo. Irritante, homem, violento, autoritário, bem pra dentro. Às vezes doce, por fora. Facilmente impressionável. Com medo nas fronteiras.
Eu falei pra ele bem rápido isso. Eu preciso. Ele deve ter entendido porque passou um papel. Eu disse é preciso escrever a razão. Explique aí porque eu preciso falar com alguém, doutor. O meu pedido será que saiu da mesma maneira que eu planejei? Por favor.
A moça da clínica falou que você precisa dizer no encaminhamento o porquê eu tenho que conversar com alguém. E ele apontou para as letrinhas na linha de cima do meu nome. O meu nome de quem precisa conversar com alguém.
Ele deve precisar falar com mais alguém também. Com alguém que não esteja pensando em si mesmo enquanto escuta. Com quem você fala, doutor? Essa pessoa existe? E a moça da clínica que pediu o encaminhamento? Fala com quem?
Agora eu já tenho as letrinhas que me levarão para as conversas.
Eu contei cinquenta respirações desde que estou com os pés na calçada, com o papel na mão. Vou conversar com alguém toda semana? Uma hora devo sair daqui e parar de pensar nisso. Ainda bem que eu consegui dizer. Eu nunca pedi pra falar com ninguém antes.
Quando cansar de respirar nessa calçada, ficarei ofegante em outra. Nunca pedi pra ninguém. Não nessa calçada que fica na frente da sua casa. Respiro sozinho. A conversa não pode ser com você. Nunca, ninguém.
A conversa deve ser no vazio de uma sala. Nunca. Com alguém que me deixe contar as respirações. Ninguém. Pra eu ter liberdade de fingir menos. Pra eu sair correndo assim, como nunca. Não mais com raiva de mim, nem de ninguém.