Jorge Amado - Tocaia Grande, su cara oscura #jorgeamado #tocaiagrande #literaturabrasileña #literaturabrasilera #librosusados #librosantiguos #loslibrosdefede https://www.instagram.com/p/CnmdbfKLo7M/?igshid=NGJjMDIxMWI=
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A cachorra acordou com medo
A cachorra acordou com muito medo, sentada na cama, bufando. Era possível sentir seu corpo enrijecido enquanto tremia, com a língua de fora. A tensão começa a tomar conta de quem está perto. O medo é o sentimento mais contagioso, porque se apodera de nós sem que nos demos conta. Começa como preocupação natural que cresce com o resultado desconhecido dos próximos minutos. O que devo ou posso fazer?
Nem todas as decisões parecem ser mais tão naturais e o cálculo passa a chegar antes da ação. Esse é o medo do possível, diferente daquele outro, imediato, que nos faz sair correndo. No medo do possível corremos dos próprios pensamentos e essa pode se tornar a regra da vida, quando passamos a operar dessa forma como se fosse o modo mais natural do mundo. Medo do que eles vão pensar, medo do que pode acontecer, medo de tudo ficar diferente, medo de não ter mais vontade, medo de não saber o que é verdade, medo dos próprios pensamentos, medo de não dormir mais, medo de nada ser como antes.
O pior de viver assim é interpretar com a nossa mente qual é o significado das coisas antes mesmo delas acontecerem. Definir um tom pra determinado acontecimento que nos coloca em um estado de resposta do qual fica difícil fugir. É como a sensação de que algo ruim pode nos acontecer quando começa a se aproximar a tempestade. Essa mesma tempestade que assustou a minha cachorra que está agora tremendo em cima da cama. Nesse momento o coração dela palpita. Ela treme. A chuva ainda é fina, mas as nuvens preparam um cenário tenebroso. A minha cachorra deve escutar melhor do que eu, as nuvens se movimentando.
No fim, a coragem não necessariamente traz mais sabedoria para enfrentar o processo. Sabedoria nem sempre é um antídoto eficaz para o medo. Ela pode acabar sendo importante no momento depois da tempestade, para que o estrago não se faça permanente. Avaliando o que vale a pena reconstruir. A coragem traz uma parte de nós que não conhecemos, por isso não é ainda uma sapiência com conteúdo narrativo. É uma disposição para o desconhecido em nós que quer encontrar com o desconhecido lá de fora. Ai de quem não se deixa invadir e fica presa às respostas que já conhece.
tá na época
as cascas são parte da fruta. sabe quem tenta ouvir ou rasgar a manhã com a força dos dedos. também não é qualquer notícia que se dá em qualquer época do ano. é preciso estar perto sentir o cheiro olhar as texturas pra lembrar dos sonhos sem medo. não lembra. quase ninguém se lembra da última vez que aconteceu tanto que aconteceu mais uma vez. nem toda casca é boa de mastigar. nem toda casca é um teste de paciência. a fruta no galho mais alto. as outras caídas no chão. não dá pra carregar tudo e aquilo que vem atrás de nós não é mais um sonho como naquele em que o fascismo dá um puxão na gola da sua camiseta amarela. mais um dia sorrindo pra quem não se lembra que as memórias são uma casca às vezes tão fininhas que ainda tem gosto de sangue. do galho mais alto se deliciam o sonho a asa o comichão e brotam no momento em que a terra se lembra.
A gente pode
Ele ouviu o discurso do coach tocando na sala e jogou no liquidificador junto com a cenoura. Lembrou de umas coisas que a mãe dizia, nas indiretas. A gente pode e não fica sabendo. Meses atrás, a benzedeira também trouxe umas palavras parecidas, mas com uma intenção diferente. A gente pode decidir como viver e sem esperar resultados. Sentia a diferença entre quem vende uma esperança engomadinha e quem fala de ser livre pra valer. A gente pode demorar um pouco mais. Pode não mexer os músculos quando mandam. O professor contou o que era possível ou não. E depois esticar-se, respirar e assoar o nariz. Arrancar o catarro da garganta. Coçar os pelos embaixo do braço e a bunda. E desistir um pouco. O Roberto falou que dava, viu. Largar o que parecia obrigação. Desprender-se. Só que ninguém conta pra gente, que a gente pode.
Pode mesmo falar mais ou silenciar. Não dizer nada. Ficar quieto por um tempo. A Joana falou que não podia, deixar de dizer o que se sente. Olhar mais pros pés e pra dentro. Sem esperar resultados ou glória. Gritar bem alto. Ele ia inventando coisas que podia a partir dali. Deixar de cortar as unhas por dois meses, resolver dormir um pouco mais e não cumprir todas as tarefas da lista. Depois resolver fazer alguma coisa. Dar um gás. O tio Jonas incentivava, porque à tarde dá mó preguiça. A gente pode esperar que tudo se ajeite. A gente pode, de uma hora pra outra, não poder mais esperar.
A gente pode querer mais e até arriscar boa parte. Dos planos, do jogo, da partida. A gente pode arriscar tudo e não fica sabendo. É nosso o pouco que temos. Ou o nada que nos completa. É tudo nosso, nada nosso. A gente pode ficar de boa e não arriscar quase nada. Guardar com carinho. Mais um pouco pra não estragar. Escovar o pouco que temos. Não deixar o pó comer a pele das coisas. Jogar tudo fora. Os excessos e o que achavam que era essencial também. Não contam que a gente pode conseguir o que quer. Sem esperar resultados. Vivendo. O senhor teria um minuto para ouvir a palavra? Jogar as cartilhas fora. As cartilhas das amenidades, dos jeitos de dizer, da maneira de olhar e do momento certo de fazer as coisas. As cartilhas das coisas que fingem um poder bonito no papel. Ainda assim vai ter gente que não larga as cartilhas. Gente que manda imprimir mais. No fim, tem gente que acredita nos outros e fica podendo só o que disseram.
entre
Mesmo os que tinham os olhos da cor das montanhas e a voz da altura dos trovões e as íris com o fogo dos juízos desejaram não sentir mais. e salivaram pela pausa encravada no riso.
entre o banho e a refeição que nem sempre.
entre o cuidado e a responsabilidade que quase nunca.
desejaram poder rir de si mesmos e lutar em paz.
E é inútil procurar encurtar caminho e querer começar já sabendo que a voz diz pouco, já começando por ser despessoal. Pois existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes.
Clarice Lispector, em: ‘A Paixão Segundo G.H.’
Exigimos o eterno do perecível, loucos.
Caio Fernando Abreu, em: ‘Pequenas Epifanias’.
Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida.
Clarice Lispector, em: 'Um Sopro de Vida'.