Quando Titus repetiu o nome que havia entregue, Athena imaginou que sentiria borboletas no estômago por finalmente estar conversando com ele outra vez frente a frente, mas sentiu o exato oposto: um vazio tremendo, um embrulhar. Ele repetia o nome para lembrá-lo, porque era a primeira vez que o ouvia. Athena sempre se orgulhou de ser uma mulher detalhista, pois era isso que acreditava que a tornava não só uma boa rainha, mas uma boa mãe e amiga acima de tudo. Agora até mesmo sua melhor qualidade era virada contra si, porque eram os malditos detalhes que a puxariam para baixo. Como também o fato que Titus estava claramente cansado e sequer poderia oferecê-lo apoio emocional de qualquer maneira, ou até mesmo o profissional. Os olhos se arregalaram de leve quando ele indicou que sua ficha poderia ser passada para outra pessoa que não ele – e aí sim suas chances de conseguir um emprego ali estariam arruinadas, se fosse depender de seu currículo sozinho! –, e chegou a dar um passo e balbuciar o começo de um pedido forçado, até o mais velho se virar e anunciar que ele poderia cuidar de uma entrevista para a vaga aberta. Sorriu mais do que devia, animada com a grande sorte do dia! Caminhou animada atrás do moreno, olhando maravilhada para o escritório que um dia ela havia ajudado a mobiliar. Agora estava tão diferente! Havia alguns desenhos que reconhecia ser de Kyra, e aquelas pastas organizadas alfabeticamente e por cor com certeza deviam ser obra de Aethra. Queria até mais tempo para fisgar pequenas recordações das filhas, como se aqueles poucos segundos fossem seu respiro para conseguir ganhar de volta os anos perdidos, tanto em Storybrooke como em Atlântica; infelizmente, não conseguiu muito mais que uma breve olhada até ser indicada para se sentar. ❛❛ —- Sem problemas. Quando vi a vaga aberta, vim o mais rápido possível porque sei o quão difícil é essa época de fiscalização– ❜❜ mordeu a língua. Sabia como, dona Maribel? ❛❛ —- Porque… Eu… Já tive de participar de algumas delas… Como médica. Socorrista. Que eu sou. ❜❜ assentiu roboticamente com a cabeça, pontuando cada frase. Por Merlin, era difícil aquela coisa de fingir ser outra pessoa! Athena nunca precisou fingir, e aquela posição para uma rainha era deprimente. Como se não bastasse, a próxima pergunta a fez suar frio e se desesperar um pouco mais. ❛❛ —- Referências…? ❜❜ repetiu, a voz lenta, enquanto se recordava de sua equipe médica mal conseguindo reconhecê-la em seu próprio trabalho – mas a maioria julgando serem efeitos colaterais do coma, ainda bem. Dentro do hospital, sabia que não ganharia nenhuma recomendação nem de longe. É, de longe, não tinha quaisquer referências da área da saúde, não mesmo. Porém recomendações poderiam ser conseguidas por qualquer pessoa que pudesse atestar pela sua boa fé, não? Não necessariamente alguém que trabalhasse consigo. Então por que não alguém que eles dois conheciam– no caso, ela mesma? Facilitaria o trabalho, talvez Titus até fizesse vista-grossa se perguntasse de seu nome no hospital. E se havia alguém ali que sabia de seu bom caratismo, ela era a pessoa! ❛❛ —- Olha… Não é lá uma referência muito profissional, mas sempre fui muito amiga da Abigail, sua esposa. ❜❜ interrompeu-se no instante que Titus esboçou uma reação de dor à menção do nome da mulher morta. Ai, golpe baixo havia dado, reconheceu isso no instante que as palavras deixaram sua boca. A culpa de ter mencionado ela mesma misturou-se também à confusão, soando esquisito estar recomendando a si mesma para um trabalho que não a pertencia. ❛❛ —- … Quero dizer… Perdão pela menção. De maneira alguma quero desrespeitar a memória dela a usando para conseguir qualquer vantagem. Eu e ela éramos bem próximas na época da faculdade e da minha residência, então… Imaginei que valesse o voto de confiança. ❜❜
Talvez se estivesse em um dia menos caótico, teria estranhado que a mulher aparentasse saber bem os detalhes da fiscalização do aquário — até porque pouco tinham a ver com a sua suposta área de formação, no caso, a enfermagem. Ainda sim, apenas um ‘uhum’ baixo foi dito em uma tentativa de soar educado enquanto não absorvia nenhuma palavra do pequeno desespero e enrolação alheia. Correu os olhos pelo currículo da moça enquanto esperava as referências, ainda que se fosse honesto, pouco saberia reconhecer qualquer tipo de referência de peso naquele âmbito. É, ele definitivamente não deveria estar cuidando daquilo. Haviam pessoas que saberiam o que fazer, ao contrário dele, que não conseguia colocar os pensamentos para funcionarem no mesmo pace daquele dia. Estava pronto para desistir daquilo e enviar a moça embora, pedindo que retornasse outro dia, quando a menção do nome de sua esposa o fez franzir o cenho de imediato e erguer o olhar finalmente. Os olhos estavam ligeiramente arregalados, já que era a última coisa que esperava ouvir. Ela estava brincando? Era algum tipo de piada sem graça? Aguardou qualquer sinal de que fosse, mas a moça parecia falar sério. Parecia até piada que após tantos anos, ele ainda parecesse sofrer daquele modo com a mera menção do nome de Abigail, mas lá estava ele; tenso, incomodado, chateado. E curioso, também. Titus abriu a boca para dizer algo, mas Maribel prosseguiu, agora pedindo desculpas pela indelicadeza, e o mais velho se manteve quieto, encarando a figura alheia. Era a primeira vez naqueles minutos em que realmente a olhava com mais atenção, inclusive. O homem não havia se incomodado pela menção da esposa, tampouco pelo teor em que ela era aplicada. Na verdade, apesar do estranhamento e do desconforto, ele não estava irritado. Estava curioso. Tantos anos ao lado de Abigail, quando poderia imaginar que haveria algo sobre ela que não sabia? Ele analisou os papéis em mãos outra vez, pensativo. “Maribel Piña” Repetiu, com provavelmente o pior sotaque do mundo. “Amiga da Abby? Da faculdade?” Não poderiam culpá-lo por desconfiar ao menos um pouco, claro, mas se pegara desejando que fosse verdade. Porque, bem, de algum modo estranho descobrir algo novo sobre a esposa fazia com que ele sentisse que ela ainda estava ali. E não devia — sabia que não era prudente ou saudável, mas queria continuar sentindo aquilo. Da mesma forma… e se não fosse? E se, sim, fosse alguém desrespeitando a memória da mulher? Afinal, Titus a conhecera a vida toda. Como nunca havia ouvido falar sobre a amiga enfermeira? Seu rosto trocava de expressões conforme os pensamentos ocupavam a sua cabeça, e sendo Maribel quem realmente era, certamente entenderia o que cada traço de sua expressão demonstrava ali. Ainda era ele, mesmo que com algumas rugas a mais; que não a impediriam de compreender a forma que ele primeiro pareceu incomodado, depois triste, então desconfiado, em seguida esperançoso. Agora, era a desconfiança que se estabilizava, em um misto com o interesse. “Desculpe, senhorita Piña. Eu… não quero ser indelicado, não me entenda mal. Mas não sei se consigo acreditar nisso. Minha esposa nunca falou de você, e… bom… nós sabíamos tudo um do outro. É até inevitável, depois de tanto tempo juntos” Divagou por uns instantes, a melancolia presente no tom de voz como de costume quando aquele era o assunto tratado. Mas ao menos - e Athena não poderia saber -, a sua situação ali era infinitamente melhor que o Titus aos pedaços de anos antes. Este provavelmente quebraria alguma mobília no cômodo pela simples menção atrevida. Não sabia bem como prosseguir, já que não sabia uma forma delicada de dizer ‘me prove’. Ele encolheu os ombros, antes de coçar a nuca, mania sua quando ficava nervoso. “Tem certeza?” É, ainda era uma pergunta estupida, mas a única que conseguira fazer.