flashback - quatro dias depois do acidente
Dormir sempre fora uma muito apreciada atividade de sua parte, embora parecesse inevitável acordar mais cedo a cada ano que passava. Coisa de velho, alguma de suas filhas provavelmente apontaria. Não se lembrava o último final de semana em que conseguira se manter sob sono profundo para além das nove horas da manhã, quando muito, e portanto também já não lhe era mais familiar a característica moleza de quando o corpo exagera no descanso. Antes que as pálpebras reunissem força para se erguer, ele já sentia o cansaço nos músculos, exatamente como se sentiria se dormisse demais. Devagar e com muito esforço, conseguiu abrir os olhos, mas a visão parecia embaçada e demorava longos segundos para sequer começar a normalizar. E ele mal pôde focar nisso, já que tão logo os músculos outrora apenas cansados começavam também a latejar, o incômodo se fazendo presente e espalhando por todo o corpo. Quando enfim os olhos puderam ficar em algo, já encarava diretamente a parte mais dolorida, o braço direito. Parecia enfaixado, notou com lentidão, e mesmo que seu instinto quase o fizera mover o membro como quem buscava averiguar o fato, a fraqueza não permitiu. Era como se Titus voltasse a sentir aos poucos, e muito embora a tontura e moleza deixasse claro o resultado dos remédios, o dor começava a intensificar. O braço e os ombros direitos, o abdômen, o rosto. Tudo doía, ardia. A pequena agonia solitária devia ter durado alguns minutos, mas enfim uma face familiar se aproximava. “Fel…” Abriu a boca, tentando falar, mas a voz falhou e aquela atividade mínima pareceu tomar oxigenio demais de si. A garota falou alto, e só depois do terceiro chamado que Titus compreendeu o que ela dizia. Enfermeira. Ele estava no hospital. “Felicity. O que… o que aconteceu?” Enfim a voz saiu, ao mesmo tempo em que tentou se sentar - péssima ideia para o corpo completamente ferido.
@felicitywaller














