O período da noite era seu favorito, onde ele poderia andar livremente pelas ruas com as mares a solta para que invadissem as casas e destruíssem os sonhos. Ele mal dormisse caía bem com seu horário, dormir era sempre complicado com o barulho ensurdecedor em sua mente. Porém, alguns sussurros dos piratas dos sonhos lhe chamaram a atenção aquela noite para uma pessoa em especial, uma wonderlander com pesadelos que não pareciam adequados para ela… Sonhos poderiam não ter significado ou sentido, mas pesadelos sempre tinham. Se movendo pelas sombras não foi difícil adentrar o quarto de Maribel, agora estava de pé ao lado da cama dela. Em um gesto com as mãos afastou as Mares, para que pudesse visualizar o pesadelo alheio, onde curiosamente a visão que a mulher tinha de si mesma era bem divergente da realidade, o que não seria anormal, se ele não tivesse reconhecido o lugar do sonho como o reino de Tritão. Fazendo uso dos poderes, mudou a cena que ela tinha a sua frente, tentando fazer o pesadelo avançar para a pior parte. Claro, ela poderia acordar aquilo, mas ele não teria problemas em a fazer dormir de novo caso ela acordasse, ainda precisava estudar mais a fundo, queria se certificar de quem era ela.
O corpo de Maribel se remexia na cama conforme sua mente estava aceleradíssima, abraçando um travesseiro enquanto a mandíbula travava, as fileiras de dentes se apertando firmes umas nas outras, a ponto de provavelmente a dar dor no dia seguinte: estava, sem dúvidas, tendo um pesadelo horrível. No início, parecia ser apenas a bênção de um sonho bom, onde estava de volta como Athena, nadando junto de suas filhas pequenas, brincando em um dia de folga que ela e Tritão haviam conseguido. Parou na frente de um espelho para arrumar a coroa de forma orgulhosa na cabeça, e quando se voltou para a família... Inexplicavelmente, só conseguiu ver um enorme navio vindo em sua direção, as filhas e o marido nadando há quilômetros de distância na frente. Ela tentou nadar para longe, mas sentiu a cauda presa, sendo que há segundos atrás estava tão livre e leve. Tentou como podia, o som do barco se aproximando fazendo seu coração se acelerar enquanto estava tão incapaz e sozinha. Gritou pela família, implorou, esticou uma das mãos para eles e sentiu a garganta arder mas sem exatamente sair voz alguma. Olhou de volta na direção do barco que não se desacelerava, e só teve tempo de cruzar os braços na frente do rosto antes de sentir o impacto. Não doeu daquela vez, mas sentiu uma tontura horrível enquanto seu corpo rodopiava e caía. Não sabia para onde caía, mas estava envolta por água, ela sentia. Quando voltou a luz, percebeu estar no mesmo cenário anterior, do palácio de Atlântida, mas tudo estava destruído, tremendamente vazio, e escuro. Chamou pelo nome das filhas, do nome do marido, mas eles não estavam ali. Percorreu tudo, chamou pelos amigos que tinha na corte, pelos súditos mais próximos, por qualquer um antes de desistir e se sentar na sala do trono que parecia ter sofrido a força do empuxo de um maremoto, as cortinas rasgadas, janelas quebradas, pedras rachadas, quebradas, seu trono destruído. Chorou no colo do trono que ainda restava, como se ele pudesse lhe dar respostas para o que procurava, tirar a dor do peito que sentia todos os dias. E, no meio disso, parou, se ergueu, e olhou ao redor. Havia alguém ali. Athena sentia, em seu coração, que não era ninguém pelo qual havia chamado, alguém que teria a possibilidade de arruinar ainda mais aquele cenário tão catastrófico. ❛❛ —- ... Se revele. ❜❜ ela pediu ao nada, arrumando as últimas forças da voz que ainda era permitido naquele sonho fervoroso.