São 5:30 A.M. E a penumbra que agora entra por entre a vidraça do banheiro, casa-se perfeitamente com a água fria que cai sobre meu corpo. Acalma a irritante coceira em minha rosa recém tatuada na mão e uma frase qualquer no outro braço… Meus pensamentos a pouco tão caóticos e frenéticos, agora encontram-se praticamente estáticos. Viajo na melódica e calma música que toca ao fundo. Agora estou a conversar comigo mesmo sobre quão frágil as pessoas se tornam. O quão difícil pode ser dar o passo mais fácil, e óbvio. Vejamos um dos atos padrões que ocorre no decorrer da vida de todos. No longo voo chamado vida é inevitável que se caia inúmeras vezes. Também é comum que ao cair se venha o desânimo, o cansaço, a preguiça, a vontade de desistir e por muitas vezes cair no mais longo e profundo sono chamado morte. Quanto mais você voa, mais alto você quer ir, porém… a primeira queda que tiver, você busca desistir, mudar de rota. A física tenta nos explicar isto como a inércia. Esse lugar que é fétido, desagradável, vergonhoso, humilhante e desconfortável, parece ser aceitável, muitas das vezes, não se percebe o quão ruim e desagradável é esse lugar, acomoda-se e deixa o tempo passar. Ficar deitado no fundo do poço olhando aquela luz lá em cima no final desse buraco parece ser o mais sensato a fazer. Esse é o grande problema dos planos, você nunca planeja que irá fraquejar. E quando as coisas não acontecem de acordo com o plano, perde-se o controle. Uma vez que isto acontece, é trabalhoso demais fazer outro plano. Agora você está estagnado, tentando convencer a se mesmo que isto é o melhor a fazer. Pode-se dizer que está em um estágio morno: você não está morto, porém também não está vivendo de verdade. A grande anomalia da natureza é quando finalmente você consegue enxergar mais além do fundo do poço. Olha e enxerga o quão ruim e imundo é o local que você se encontra. Você se lembra do quão gratificante é voar ao ar livre. O cheiro bom do ar livre e puro. Sonhar mais uma vez em chegar as nuvens onde você costumava voar. Decide-se quebrar a inércia, agora não se quer mais ficar no fundo do poço. Finalmente decide-se que quer sair desse buraco. Mais uma vez voltasse a fazer planos, se assemelhando aos tempos de outrora quando tudo corria bem. Esquecendo-se de que o último plano não tinha passado de um devaneio, uma utopia. Não se recordas mais o mal que não prever as falhas e os desvios no seu plano infalível te fez, e volta a lutar e tentar voar nesse plano novo. Você cai, mais uma vez e todo o sofrimento volta a acontecer. Isso se repete, novamente, de novo, de novo… agora você já está bem mais velho e maduro. Hoje você já está calejado, mas para estar tão forte você se desgastou muito. Está cansado, não aguenta mais, quer desistir de tudo. A morte parece ser agora a única saída. Você sabe que diante de tantas quedas teve muitos acertos. Contudo, na matemática da sua consciência seus erros pesam mais. Você só quer acabar com toda essa culpa e esse sofrimento. Brincando inconscientemente de alquimia, você bate a maçã da branca de neve, o veneno do jovem Romeu e todos outros imbatíveis venenos que já ouvira em outras histórias por entre essas subidas e quedas da vida. É uma bebida linda, fluorescente que equalizava sua cor em tons de azuis variantes como os que ocorrem no céu do nascer ao pôr do sol. Diferente do que se contara em outras histórias, nada de fumacinha saindo daquela linda bebida, era geladinha e parecia ser muito refrescante, exalava um cheiro terno, era apetitoso. É isto, agora acabou tudo e todo o sofrimento. Quando encostou os lábios no veneno, escutou baixinho alguém, pedindo para esperar um pouco. Quando olhou para cima viu lá no finalzinho do poço um outro alguém, que se fez descer até o fundo para lhe falar:
__ eu já estive onde você está agora. Lhe garanto que essa não é a saída. Veja sou mais velho que você, mais maduro, mais sábio. Logo, já errei mais! Demorei muito até entender que o plano, não é fazer planos exatos. O plano é nunca parar, nunca desistir! Não se cansar de melhorar, de se aperfeiçoar, de evoluir. Planos sempre darão errados. São feitos para isto, por mais que este não seja o objetivo deles. Uma hora você entenderá que a graça da vida não está em ficar bem toda via, mas sim em subir e descer constantemente. Ter uma vida dinâmica, com bastante mudança e movimento. Crescer e evoluir sempre!
Aquele velho acendeu uma velha chama que você já não tinha mais esperança em ter. Fez você ter vontade novamente de viver, de sonhar, de consertar seus erros e crescer. Decidiu então jogar aquele belo veneno fora e voltar a tentar voar. Novamente no último segundo o velho resmungou:
__ O que você pensa que está fazendo? Você irá jogar esse perfeito remédio fora?
Logo você ficou confuso, não entendia o porquê de o velho chamar de remédio aquilo que iria lhe matar.
O velho logo entendeu sua expressão de dúvida e disse:
__ Entenda meu jovem, a diferença entre o remédio e o veneno está sempre na dosagem. Você necessita desse veneno para poder crescer. Ele foi feito dos teus erros, das tuas quedas. Por mais amargo que seja, você tomando a dose adequada, ele te servirá para te ensinar e alertá-lo para não cometer os mesmos erros. Utilize-o para voar cada vez mais alto, e a cada queda, acrescente os novos erros, misture bem e beba novamente.
O velho olha para o céu e continua:
__ Agora tenho que me ir, já é tarde e tenho que me apressar a cair novamente, espero que dessa vez a queda seja ainda maior!
Novamente você volta a ficar confuso. O velho logo nota que você quer indagar algo e diz:
__ Veja, já lhe disse que cair é inevitável. E quanto maior o voo, maior é a queda. São grandezas diretamente proporcionais! Agora tenho que ir, necessito cair um tombo gigantesco! Até breve!
Você sorriu para o velho em sinal de satisfação e gratidão. Vê aquele velho lentamente se tornar uma linda coruja branca como a neve e voar magnificamente. Agora, mais determinado do que nunca você decide que quer voar igual aquela velha coruja. Toma uma pequena dose do remédio que antes era veneno. Toma conhecimento dos seus erros e voa como nunca!
Cessa a música de fundo, me dou conta que já é hora de sair do banho. Seco-me, visto-me e me preparo para mais um dia qualquer, com sentido nenhum. Ansioso pelos próximos pensamentos aleatórios, sem se quer refletir sobre os últimos.