Oak sabia muito bem que seu comentário inflamaria a sobrinha, o senso de proteção da garota em relação ao irmão era admirável e, mesmo que más línguas gostassem de assumir que isso se dava por motivos inapropriados, ele sabia que aquilo vinha de um lugar de puro amor entre irmãos. O tipo de amor feroz que ele próprio compartilhava com os sobrinhos — a maioria em idade mais próxima dele do que seus próprios irmãos —, especialmente os de Jardim de Cima, com quem ele cresceu, foi criado e ensinado como se fossem irmãos. — Eu não tinha dúvidas de que você, mais que qualquer um, estava incomodada com isso desde que vi a maneira como seu pai o anunciou para os sete reinos como mercadoria a venda. — a desaprovação agora escorria livremente pela voz que ele havia abaixado consideravelmente para entrar no assunto, não querendo que mais ninguém o ouvisse criticando o rei.
Abriu um sorriso apologético quando foi criticado por sua ausência nos últimos anos. Sabia que Aleera entenderia, pelo menos em partes, o sentimento de não suportar a presença do próprio pai no mesmo território que ele por mais um segundo sequer, mas não queria falar sobre isso. Especialmente porque sua ausência ainda causava uma culpa pesada e extrema no peito de Oak, principalmente depois do que aconteceu a Elowyn. Na época, estava passando uma temporada nas masmorras de Lançassolar, tão perto da Campina que era doloroso. Porém, só recebeu as notícias quando voltou a Braavos, e então já tinha se passado um ano desde que ela havia tentado fugir. Não havia nada mais que ele pudesse fazer e, talvez, poderia até mesmo piorar as coisas se tentasse. Então continuou longe, até a notícia da morte do pai.
Por isso, não se desculpou, mas também não tentou se justificar pelo quase abandono à família, prestando-se apenas a ouvi-la listar os pretendentes que seu pai tinha em mente para ela, o sorriso zombeteiro crescendo a cada nome. — Pelos deuses. Aemond é um idiota. — era uma constatação óbvia, ainda que houvesse surpresa em sua voz. Nunca tinha gostado do rei, sua encenação de bom homem o irritava, achava-o falso e sentia que ele tinha algo escondido por trás daquela máscara. Mas não sabia que esse algo era burrice. — Bom, não acho que eu tenha algo a falar sobre Dickon. Ele já faz tudo a luzes claras e, mesmo se eu soubesse de algum podre secreto, seria um péssimo amigo por revelá-lo. — deu-lhe uma piscadela, pois é claro que a contaria se o Baratheon tivesse algum corpo escondido debaixo de sua cama, mas o amigo tinha o péssimo hábito de fazer as coisas que manchavam sua reputação sem sequer tentar ser discreto. — Luthor Stark... Confesso que sei pouco dos nortenhos, eles me deixam nervoso e não sou muito apreciador de todo aquele gelo. Mas todos sabem que, com ou sem maldição, o garoto não vai durar muito. É só olhar para ele para constatar isso. — estava, em grandes partes, brincando. Mas não podia negar que o rapaz tinha o ar de alguém que morreria acertado por uma espada de madeira durante um treinamento. — E Sor Desmond é um homem honrado, não há como negar. Ele viveu um tempo conosco em Jardim de Cima e era muito sério, mas um ótimo lutador, nunca consegui vencê-lo em um duelo. Gostava dele, mesmo que seu primo parecesse ter feito dele seu pior inimigo. Mas hoje em dia tem uma reputação deveras... Interessante nos bordéis. — não elaborou mais sobre isso porque aquele tipo de segredo era capaz de arruinar a vida de um homem, mesmo sabendo que Lyra não faria nada com a informação, então continuou rapidamente: — Entretanto, nada que a prejudicaria diretamente, imagino. Dentre essas opções, talvez fosse a melhor opção. Não fosse, é claro, a noiva. Por isso, concluo que seu pai está sofrendo de sérios delírios. Não há outra explicação.
Não disse isso a ele, mas a bem da verdade, a insatisfação da princesa já a vinha consumindo – corroendo suas entranhas com tamanha irritação que nem mesmo suas damas de companhia mereciam aguentá-la nesse estado – desde que ouviu sobre os preparativos para o torneio e as intenções de seu pai com o evento durante uma das reuniões do pequeno conselho. Seu tio, é claro, não precisava saber de tais aborrecimentos, afinal, não desejava estragar sua noite fazendo-o ouvir sobre como estava incomodada e insatisfeita. Contentou-se em saber que Oak estava igualmente indignado e em murmurar sobre isso em sua boa companhia enquanto bem debaixo do nariz de seu pai.
Bom, isso e em compartilhar com ele mais um de seus sorrisos, agora um alegre e totalmente colorido em cumplicidade enquanto o ouvia constatar a idiotice do rei. — Venho tentando fazê-lo entender isso há anos, mas sabe como ele adora me dar ouvidos. — A princesa combinou o rolar os olhos com uma pirueta elegante. — Pelo que diz, Dickon parece ser melhor como amigo do que como herdeiro. Ao menos algo ele parece fazer bem, além de, é claro, manchar sua reputação com tanto gosto. — Apesar de suas palavras, não havia maldade, tampouco a acidez característica da princesa, em sua voz. Conhecia pouca coisa dos Baratheon, mas já tinha ouvido dizer que tanto Lorde Cedrik quanto sua esposa eram igualmente rígidos na criação de seus filhos e, tendo visto em primeira mão a dura educação aplicada em seu irmão, ela imaginava o quanto deveria ser sufocante. A brincadeira do tio, porém, sobre Luthor e sua fragilidade foi o suficiente para tirar sua mente do pensamento desagradável, e ela sorriu brevemente antes de respondê-lo. — Além disso, não quero tirar de Lady Francesca o raro título de herdeira. E não consigo me imaginar vivendo lá, tampouco Caraxes ou qualquer outro dragão. Acho que são tão adeptos do frio quanto nós dois. — Uma pequena risada. As sobrancelhas, contudo, ergueram-se interessadas ao saber de um possível segredo sobre o herdeiro da casa Royce, apenas para franzirem-se em frustração evidente ao que o tio não elaborou sobre. Talvez Kaeth, que detestava Desmond a ponto de valer uma menção honrosa na conversa, soubesse de algo. — É crueldade contar algo assim e não dizer o que é, sabia disso?! Especialmente para sua segunda sobrinha favorita. — Pois sabia que jamais ocuparia o lugar da prima, Elowyn, com quem ele tinha sido criado.













