Mais um conto para a conta. Dessa vez, envolvendo mistério, investigação e segredos enterrados.
Avisos de conteúdo: body horror, violência, perda gestacional, gravidez, infertilidade, morte.
Ainda não revisado, sujeito a erros de ortografia.
Aos trinta anos, Bráulio Lacerda já era um detetive falido. Em poucos anos de profissão conseguira um feito raro: conquistar uma reputação tão ruim que ninguém mais lhe confiava um caso. Havia começado bem; com a herança que recebeu do pai já falecido, abriu um pequeno escritório no centro da cidade e graças ao seu padrinho, um delegado de grande prestígio, ganhou clientes de maneira rápida, conseguindo pequenos casos que lhe rendiam dinheiro o suficiente para se manter e também investir na Bolsa. O frescor da juventude tornava tudo aquilo uma grande novidade que seria eterna, mas Bráulio cedeu às tentações dos que diziam ser seus amigos e caiu num poço de farras e bebedeiras, custando-lhe a confiança das pessoas quanto ao seu profissionalismo. Bêbado, sem nenhum centavo no bolso e com dívidas até o pescoço, Bráulio já não recebia mais nenhum caso para investigar. Tivera que vender o apartamento para não ser morto pelo agiota, sua carreira havia acabado sem antes ter chegado ao seu ápice. Agora, ele morava num barraco velho à beira da estrada, marginalizado e esquecido até pelo próprio padrinho, apenas a sombra do jovem investigador que havia chegado ali com muitos sonhos.
Mas naquela manhã, um envelope marrom e molhado pela neblina da madrugada estava transpassado pelas frestas enormes da porta do casebre. Desconfiado, ele tardou em pegá-lo. Não tinha pais, amigos ou qualquer laço com as pessoas da cidade. A única pessoa que poderia ter lhe mandado aquele envelope aparentemente havia esquecido de sua miserável existência, mas uma faísca de esperança surgiu no coração de Bráulio. Quem sabe o velho delegado se sentiu culpado por não exercer sua função de padrinho corretamente e decidiu retomar o tempo perdido? A cola já estava dissolvida pela umidade, não foi difícil abri-lo, mas sim de lê-lo. Bráulio usou de suas habilidades dedutivas para tornar aqueles garranchos em palavras legíveis e enfim formar a mensagem que o misterioso emissor queria lhe passar. Eram várias palavras. Não conversavam entre si, juntas não tinham sentido muito menos separadas. Claro, aos olhos de pessoas leigas. Mas sob o minucioso olhar de investigador — inativo, mas ainda investigador —, Bráulio apagou o cigarro, vestiu o sobretudo caramelo velho e saiu apressadamente do casebre em direção ao local citado.
Isolado em sua mediocridade, ele não sabia que pelas redondezas estava acontecendo algo brutal: mulheres grávidas estavam desaparecendo e, curiosamente, as mulheres que estavam no início da gestação eram encontradas sem o útero, e as que estavam em em estado avançado, tinham seus bebês retirados com perfeição cirúrgica, como numa cesárea. Uma vítima conseguiu sobreviver, mas estava tão traumatizada pelos horrores do que havia sofrido que não conseguia mais falar. O que quer que tenha acontecido, era bizarro e sem uma explicação plausível. Talvez um ritual de magia negra de alguma seita, ou apenas uma besta folclórica provando sua existência. Mas todas tinham algo em comum: um convite para uma tarde de chá na casa de uma senhora muito rica.
Bráulio finalmente entendeu o porquê de terem lhe dado aquele caso: algo monstruoso estava acontecendo para que alguém muito importante pudesse resolver e perder a vida no processo.
Antes de ir até o último local onde as mulheres ainda estavam vivas, Bráulio pediu para que fosse informado sobre qualquer coisa que a sobrevivente fizesse: desenhos, palavras, qualquer coisa. Ele se dirigiu até a casa da senhora. Casa era uma maneira humilde de descrever o palacete tão branco quanto mármore. O mordomo perfeitamente vestido, mas muito pálido e de membros longos e magros lhe pediu para entrar, pois a dona do palacete o estava aguardando. Seu alarme de perigo soou alto em seus ouvidos, afinal, ele nunca havia conhecido a mulher e achava difícil que alguém ainda notava sua presença. Da escadaria, o som de saltos batendo contra o piso chamou a atenção de Bráulio para uma mulher tão pálida e magra quanto o serviçal. Trajava um longo vestido obsidiano, e seus cabelos tão escuros quanto o vestido estavam presos num coque perfeitamente arrumado com laquê, deixando em evidência as elevações ósseas do rosto que provavelmente fora bonito algum dia. Ela não estava sozinha; vinha acompanhada de um velho que já deveria estar corcunda pela idade que seu rosto acusava ter, coberto por um jaleco branco e roupas também pretas. Provavelmente um médico, já que aquela senhora com toda certeza sofria de uma anemia profunda e incurável. Eram figuras deveras estranhas, não havia sequer um pingo de receptividade ou gentileza nos olhos de algum deles. Apesar do ar sufocante, Bráulio engoliu o medo e seguiu o protocolo investigativo. O porquê de uma senhora tão rica abrir os portões de seu palacete para gestantes de uma classe inferior num convite amigável de chá com biscoitos foi uma questão prontamente justificada como uma tentativa de formar laços de amizade por parte da anfitriã — que se apresentou tardiamente como Catarina —, há tantos anos solitária que gostaria de usar sua riqueza para financiar os custos de criação das crianças, o que foi muito atrativo para as pobres mulheres, em sua maioria, mães solteiras, também disponibilizando seu médico particular, Valentim, para auxiliar nos cuidados de saúde. Bráulio acharia uma atitude altruísta se não fosse pela mecanicidade da voz de Catarina, como se ela tivesse ensaiado diversas vezes aquela justificativa.
Bráulio anotou tudo num pedaço de papel sujo que estava no bolso do sobretudo, e pediu a autorização de Catarina para que ele tivesse total liberdade para verificar cada canto do palacete como bem entendesse, e seu pedido foi concedido apesar do olhar fulminante do médico de aparência doentia. Semanas de investigação se arrastaram, e sob constante vigilância dos olhos arregalados de Valentim, Bráulio observou com atenção minuciosa os cômodos, buscando migalhas, marcas de sapato, fluidos corporais, digitais ou qualquer evidência. Nada. As louças usadas no dia foram descartadas pelo investigador precedente. Não havia nenhuma digital tão óbvia sem a ajuda de equipamentos forenses, as marcas superficiais desapareceram pela umidade. Até mesmo o laboratório sombrio do Dr. Valentim foi inspecionado, mas nada encontrou de suspeito, somente algumas dezenas de seringas descartadas que ele afirmou serem para a aplicação de remédios na paciente.
Restava apenas investigar o que estava por trás da porta de madeira pintada de marsala que Catarina sempre abria e sumia por horas, às vezes retornando somente à noite. Como estava completamente autorizado a fazer o que bem entendesse pelo bem da investigação, Bráulio abriu a porta, que dava acesso ao quintal dos fundos do palacete. ele se surpreendeu pela beleza e vivacidade que achava ser impossível naquela residência. a grama era do tom de verde mais belo que ele já viu, muito bem cuidada e aparada.Pequenos cogumelos espalhavam-se pelo solo, algumas joaninhas eram visíveis nas hastes mais longas do gramado. Mais à frente, se encontrava uma linda roseira. Bráulio, curioso, se aproximou para vê-la. Era ainda mais bonita de perto: de um tom carmesim tão puro que parecia ter sido pintada artificialmente, os cabos eram tão negros e grossos que mais pareciam cordões enfeitados de espinhos pontiagudos, longos e encurvados, prontos para ferir impiedosamente quem ousasse macular a formosura dos botões que ainda iriam se abrir. Também exalava um cheiro forte de terra misturado com algo metálico. Nada errado, apenas o símbolo de orgulho e solidão de uma mulher rica.
A presença de uma grande quantidade de Caligo Atreus, uma espécie de borboleta que se alimentam de sangue denunciava que Bráulio havia chegado exatamente onde queria. As aulas de biologia foram realmente úteis. Ele ajeitou o sobretudo nas mangas e puxou a gola para cobrir o pescoço para evitar ser picado pelas borboletas, e então observou que, embora o resto do gramado verdejante estivesse perfeitamente normal, o espaço onde se encontrava a roseira não estava plano. Estava cheio de ondulações irregulares, como se tivesse sido remexido várias vezes. Bráulio se ajoelhou e com as mãos começou a escavar como um cão policial que encontrou drogas ilícitas. Na parte mais superficial, algumas minhocas e tatus de jardim apareceram, e então, com as unhas já sujas de terra, ele cavou fundo o suficiente para encontrar uma maleta com várias urnas dentro. Ele esperava encontrar documentos, jóias, cinzas ou qualquer outra coisa. Ao abrir a primeira urna, um grito horrendo saiu de sua garganta: ali estava um feto inteiro. Na segunda, um pouco maior, se encontrava outro feto em estado avançado de formação, provavelmente foi retirado com 16 semanas de gestação. Bráulio não sentiu necessidade de abrir as outras urnas, sua intuição gritava com toda certeza que os conteúdos não seriam diferentes das duas primeiras. Ele sabia que o médico estava envolvido nisso, e que Catarina tinha ciência do que estava debaixo de sua roseira. Antes que pudesse se levantar e ir direto para a delegacia, Bráulio foi atingido na cabeça por um objeto pesado, e sua última visão antes de desmaiar foram os saltos vermelhos da senhora e o cabo de vassoura quebrado nas mãos de Valentim.
Quando acordou, estava num cômodo desconhecido já que havia investigado todos. Bom, quase todos. Mas sabia que ainda estava na propriedade de Catarina pelo piso de madeira único que ele vira somente lá. Ainda com a visão embaçada, Bráulio olhou ao redor para buscar uma maneira de sair dali o mais rápido possível. Aquela roseira tão linda guardava um segredo obscuro, e ele havia descoberto e com certeza queriam silenciá-lo. O cômodo era um quartinho pequeno iluminado por um abajur de luz amarela, dando um aspecto aconchegante ao ambiente junto às paredes pintadas de um amarelo pastel. Haviam um berço e uma cômoda brancos com detalhes de nuvem talhados na madeira. Também havia uma poltrona branca no canto da parede, e vários bichinhos de pelúcia estavam dispostos em pequenas prateleiras e dentro do berço. Era um ambiente bastante confortável para um recém-nascido, mas Bráulio estranhou a existência daquele quarto, já que Catarina não tinha filhos. Levantando-se, ele viu que em cima da cômoda, havia um caderno de capa marrom incrustado com esmeraldas. Era lindo, provavelmente decorado por uma mulher, quem sabe pertencesse à própria Catarina. Sem mais nada a perder, Bráulio folheou o caderno e no topo de cada folha era possível ler “Querido Diário” com uma letra perfeitamente desenhada. Curioso, deu-se a ler desde o início.
Não sei o que aconteceu comigo naquela noite, só sei que estou sentindo sede pelo sangue dos meus irmãos.
Era uma folha rasgada, cortando palavras ao meio. A folha seguinte estava inteira e dizia:
Sou uma criatura horrível. O sangue tem cheiro de ferro, mas o sabor é magnífico. Mas o de meu irmão mais novo era mais doce, talvez por ele ser apenas uma criancinha.
Encontrei-me com um médico e ele não me condenou como o monstro horrível que sou, na verdade, ele me ajudou a esconder os corpos pois ele era igual à mim. Me explicou com grande paciência sobre minha nova condição e que minha vida jamais voltaria a ser normal. O Dr. Valentim é o seu nome, sou muito grata a ele. Disse-me também que eu não poderia deixar mais ninguém saber sobre isso, era um segredo só nosso e que eu deveria me mudar dali para não levantar suspeitas. Acolhi as suas preocupações e também mudei meu nome. É o início de uma nova vida!
Na folha seguinte, também inteira, continham relatos curtos de datas diferentes que captou totalmente a atenção de Bráulio:
Muitos anos se passaram. A nova dieta baseada em sangue de animais não me é tão atraente, mas o Dr. Valentim disse que era mais seguro para nós. Também me casei com um humano muito bonito e rico, uma pena que ele morrerá tão cedo e não terei um filho dele para continuar seu legado. Não levei essa questão para o doutor, afinal, meus órgãos ainda funcionam normalmente. Talvez o problema esteja no meu marido.
Sou infértil. O problema nunca foram meus maridos, eu quem sou uma árvore velha e seca por dentro. Mas o Dr. Valentim disse que tem uma solução, espero que ele esteja certo. Se o coração é o centro das emoções, por que eu, que não tenho um, sinto tanta dor ao ver outras mulheres com seus filhos?
Nós mudamos da nossa cidade. Os experimentos de Dr. Valentim tiveram consequências que nos forçaram a sair com pressa. Eu não estava à par dos experimentos, e quando o perguntei, ele se mostrou bastante nervoso mas me contou. Já que meu útero e todo o meu sistema reprodutor estava morto, seria interessante realizar um transplante com os órgãos de uma “doadora” saudável. Achei uma brilhante ideia, mas o Dr. Valentim encontrou tantas doadoras que a polícia local foi acionada.
Os experimentos continuam a me atormentar pelo fracasso. Eu quero ser mãe! As mulheres dessa região não possuem uma boa alimentação, o que prejudica seus órgãos reprodutores. Humanas fracas e sem vida não geram filhos saudáveis.
O Dr. Valentim conseguiu! Mas dessa vez, para aumentar as chances de sucesso, ele transplantou em mim um útero com um embrião. Não é magnífico?
Mais uma vez não fui abençoada. Perdi meu precioso bebê. Eu já havia escolhido seu nome, suas roupinhas e todas as canções que eu cantaria quando estivesse em meus braços. Meu sonho agora era uma poça de sangue nos meus lençóis. Mas não iremos desistir, foi por um triz que quase conseguimos. Pelo lado bom, as doadoras nos serviram de alimento. O medo deixa o sangue humano com um sabor irresistível. Eu o enterrei debaixo da minha roseira. Farei isso com cada bebê que passar por mim, pois independente de tudo, eu ainda sou a mãe deles.
E por todo o diário, seguia-se mais e mais relatos desses experimentos macabros de Valentim e da obsessão de Catarina pela maternidade a qualquer custo. Bráulio estava horrorizado, quantas vidas não foram ceifadas cruelmente por esses monstros? Estava tão envolvido naquele diário de horrores que percebeu tarde demais a fumaça espessa que penetrava em seus pulmões como arames farpados. O quarto estava em chamas, o fogo ardia como se estivesse castigando o detetive por sua curiosidade e insistência naquele caso que nenhum investigador renomado ousou pegar.
Bráulio abraçou o diário. Quando fosse consumido pelas chamas, queria ser encontrado com ele, uma prova de que seus dias como detetive se encerraram gloriosamente.