ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA | José Saramago, 1995
[...] "Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que vendo, não veem".
Sobre o enredo:
"E se todo mundo ficasse cego?" A partir dessa premissa, Saramago desenvolve sobre a nossa realidade e condição humana, enquanto sociedade. Nessa história, os nomes pouco importam perto das atitudes tomadas pelas vozes que participam da trama. Ensaio sobre a cegueira nos localiza num cenário epidêmico, em crise, e nos faz encontrar com nossa face primitiva.
O médico oftalmologista e todas as pessoas que entraram em contato com seu consultório de alguma forma estavam perdendo a visão para uma brancura terrível. Exceto pela mulher do próprio médico, que se torna a incógnita da história.
As pessoas são encaminhadas pelo governo para a internação dentro de um manicômio que estava abandonado a medida que vão cegando, sendo empurradas para as camaratas e vivendo a mercê das orientações repassadas quase que pontualmente pelo altifalante. A comida é racionada e os militares guardam as portas, pois abandonar o edifício sem autorização significa morte imediata.
Os cegos, sem direção, sem pudor, sem consciência do real, se expõem da forma mais obscura e absurda possível. O homem se animaliza e vive em meio a imundice, impulsos sexuais e o ego em querer ter aquilo que não lhe pertence. Às mulheres, já não resta nenhuma dignidade, mas tem a sorte de ainda terem união entre suas semelhantes. E mais importante, um só par de olhos funcionais para todas essas vozes sofredoras.
Sobre a leitura:
Para mim, uma leitura marcante. De fixarem-se na mente muitos dos acontecimentos, cenários e mesmo os próprios elementos textuais. Saramago escreve em blocos de texto enormes, com diálogos separados exclusivamente por singelas vírgulas, sem te deixar respirar durante a crise que acompanha o livro. O que não nos impede de parar para digerir aquilo que está sendo exposto.
Outro elemento interessante é a repetição, do discurso do altifalante, das falas de alguns personagens, tudo isso colabora para uma ambientação incrível!
Tirei algumas pausas grandes lendo ele, falando nisso. Esse livro foi um presente que pedi no "amigo secreto" do meu trabalho em meio a outras opções e tive a sorte de poder ser contemplada com ele. Estou com ele desde dezembro, mas só consegui finalizá-lo agora na metade de fevereiro.
O tema pode até parecer inofensivo a primeira vista, mas ler torna tudo mais interessante e, de certa forma, pesado. Tem muitos cenários apavorantes, sendo preciso estômago para encarar o que para mim considero a mais pura realidade...
Considerações:
Se em terra de cego, quem tem olho é rei, a protagonista é a rainha da vez. A única que não perde a visão do início ao fim, uma mulher que se abnega e que acaba se responsabilizando por todos que fazem parte de seu núcleo, construído durante a internação. Os demais personagens, cada qual com sua personalidade, vão traçar pouco a pouco seus destinos por meio de suas atitudes e de como a sociedade passa a se (des)organizar num momento como esse.
O livro introduz os personagens, contextualiza o ambiente e nos leva às camaratas com os cegos, para enfim nos tirar as vendas dos olhos e então enxergarmos o mal-branco retratado como os obstáculos que criamos na nossa mente, e que não nos permitem compreender a realidade e a empatia necessária para viver em comunidade.
É extremamente interessante como o governo, mesmo desestabilizado, consegue oprimir uma quantidade imensa de pessoas, forçando-as a viver como animais, sem prestar nenhum apoio adequado e como toda a ordem social não tarda em se autodestruir em situações de crise. É mesmo para mim, ASSUSTADOR. Não sei nem pensar o que poderia, de terrível, ter acontecido na pandemia, que já foi um dos piores cenários que vivi.
Eu fiquei horrorizada, com as cenas de traição e de violência sexual, mesmo a protagonista tendo vingado — ainda bem — todas as mulheres. Uma querida. Lutou muito, uma das melhores protagonistas que já li. Mas fica a pergunta, e se ela não tivesse escolhido ajudar? O que seria deles?
Apesar disso, o desfecho é otimista, preservando a visão de que há esperança, mas não sei bem se consigo desfrutar dessa parte, depois de tudo que li... É um entendimento cíclico que temos da coisa, porém não sei se continuará dessa forma por muito tempo. Na minha visão, esse desfecho tem prazo de validade para a humanidade.
Estou numa fase mais leitora esse ano, cheia de problemas, mas trying to cope de alguma forma, né? porque não tenho tempo para endoidar ainda. Em breve estarei me debruçando sobre a literatura russa e pretendo também comprar o "Ensaio Sobre a Lucidez" que faz par com o dito cujo do post de hoje.
Até !
















