Moonlight, melhor filme do Oscar 2017 Ontem no Oscar Moonlight fez história ao se tornar o primeiro filme LGBT e segundo filme protagonizado por negros a vencer na categoria de Melhor Filme.
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Moonlight, melhor filme do Oscar 2017 Ontem no Oscar Moonlight fez história ao se tornar o primeiro filme LGBT e segundo filme protagonizado por negros a vencer na categoria de Melhor Filme.
Sejamos Mais Humanos e Pensemos o Aborto Por Outro Viés Enquanto homem cis acredito que não tenho muito o que contribuir no debate sobre aborto durante a gestação.
Precisamos de Mais Zelitos Em “A Lei do Amor”, trama das 21h da Globo, até segunda-feira tinha um personagem ao mesmo tempo negro e homossexual, inteligente, feliz e de bem com a vida, o Zelito (Danilo Ferreira), que foi assassinado...
Nada É Tão Ruim Que Não Possa Piorar Como RuPaul é sábia, ela disse numa entrevista há uns anos que nossa sociedade vive ciclos. Neste momento vivemos um momento progressista, mas depois viria uma fase conservadora.
LGBTfobia mata e essa tragédia nos matou também Por que um homem se sente no direito de entrar numa boate LGBT e atirar em todos presentes, pois seu deus condena o amor entre pessoas do mesmo sexo?
Pegação também é resistência, é ato político!
Pegação também é resistência, é ato político!
Gostaria de saber quando ficamos tão caretas no que tange relações interpessoais. Caso não saibam a configuração de relação no Brasil era completamente diferente antes da invasão europeia em 1500. Nas tribos indígenas não havia o conceito de monogamia. As pessoas se amavam e ficavam entre si, livremente. Foi a igreja católica com sua catequização que impôs as relações monogâmicas aos indígenas,…
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Chi Chi Devayne e o Elitismo de Cada Dia
Durante as festas de lançamento da S8, Chi Chi DeVayne foi uma das queens mais criticadas pelos que acompanhavam o red carpet. Foi taxada de básica, primeira eliminada, feia e por aí vai.
O show começou e fomos bombardeados com o óbvio, Chi Chi é uma Queen pobre e por isso, diferentemente, de suas irmãs de RuPaul’s Drag Race, não tem condições de ostentar looks caros. Chi Chi cria suas montações com o que tem a mão, realmente transformando o lixo em luxo. Assim ela prova que é uma Queen talentosa cheia de recursos, que não deixa sua condição ser seu empecilho, pelo contrário, sua falta de cacife mostra o que ela tem de melhor: criatividade.
Porém isso não quer dizer nada para os fãs, recebemos relatos de pessoas que estiveram em bares que exibiram o primeiro episódio de Drag Race e era Chi Chi aparecer na tela para ser caçoada e menosprezada. E dai vemos mais uma vez o pior do ser humano vir à tona. O preconceito e intolerância escancarados diante daqueles que não tem as mesmas condições financeiras de abastados, portanto não se encaixando nos padrões tão almejados.
Nessas horas vemos como ainda temos muito que desconstruir em nossos comportamentos. Afinal somos condicionados a gostar de queens ricas, tipo Miss Fame e Violet, que sempre aparecem por aí com vestidos de grifes famosas, perucas impecáveis e maquiagens caras. Já queens pobres como Chi Chi merecem nada além de nosso desprezo e gozação, porque ela é culpada por ter a condição que tem, não deve ter trabalhado o suficiente para comprar os materiais necessários a sua montação arrasa quarteirão.
Não é isso que acreditamos, Chi Chi nada mais é que o reflexo da grande maioria de queens que temos por aí. Queens que batalham muito para ter seu espaço e como não tem grana, usam de sua criatividade para criar looks com qualquer material que dispõem.
E isso lembra quem? Muitas das queens nacionais que lutam cotidianamente por seu espaço e para terem seu talento reconhecido. E sabem por quê, infelizmente, não demos espaço a elas aqui como gostaríamos de dar? Porque falta apoio real de muito de vocês. Porque quando postamos uma Queen que não é badalada e com montação “digna” de Drag Race não faltam críticas ao estilo dela. Não falta gente “graduada” na arte Drag Queen ensinando como uma Drag deve melhorar sua montação.
Por isso optamos por preservar a imagem dessas queens. Pois é fácil usar hashtag “suport your local queens”, mas na hora do real apoio, estão as ridicularizando e jogando na cara delas que não são drags “suficiente”.
Portanto chega dessa hipocrisia, desse falso apoio que só serve quando convém. Chi Chi já mostrou, no pouco que vimos dela, que é uma Queen grandiosa, mesmo com poucos recursos financeiros, assim como várias drags que temos em solo nacional. O talento dela não tem que ser posto à prova por não ostentar um vestido Gucci, mas sim por conseguir sobreviver com aquilo que tem ao alcance de sua mão. Torcemos para que Senhorita Devayne vá longe na competição e nos ensine muito sobre humildade e trabalho duro e acima de tudo empatia, porque ainda é algo que falta muito entre nós.
Postado originalmente aqui.
Tchau 2015 e Leve Consigo Seus Péssimos Romances
Ah o amor… Porque se mostrou o maior vilão de minha vida nos últimos tempos?
Conheço alguém. Flui química e aí parece que vai dar tudo certo até a pessoa sumir e aparecer numa nova relação com outro, jurando que "te amou”. Mas que resolveu apostar nessa relação e está sendo muito feliz nela. Cansa. Brocha. Revolta. E deixa um buraco que custa a fechar. Os motivos da dispensa que passam pela cabeça são inúmeros: racismo, interesses, não estar nos padrões de beleza, não ter status social.
Contudo, o que me deixa mais chateado nisso tudo é o velho discurso de que sou incrível, que valeria muito a pena ficar comigo… Poxa, por que não fica então? Por que me dispensar se sou tão interessante?
Aí até rola aquele desejo da tal nova maravilhosa relação fracassar e o cara ver a burrada que fez, se rastejar de volta para mim e eu mandar aquele sonoro NÃO, PERDEU SUA CHANCE. Porém não sou disso. Essas coisas passam na minha cabeça no momento de fúria. No fim me resigno e deixo a vida fluir. Mas é triste perceber como todo preto tem um quê de Santo Antônio, o casamenteiro. Afinal ou sou cupido ou invisto numa relação com alguém que não quer nada sério, mas que após me dispensar com desculpas furadas, surge com uma relação séria com um não-negro qualquer. Em algum momento serei recompensado, acredito nisso, pois se não acreditar, pra quê viver? O que me consola, algumas vezes, é ver queridos amigos que tiveram suas decepções amorosas no passado, desfrutarem, hoje, duma relação amorosa linda.
A vantagem é que essas dores passam. Já sobrevivi a experiências parecidas no passado e estou aí forte. Permito-me viver essa foça quando sou dispensado para não acumular sentimentos negativos e, eventualmente, descontar em quem não deve, quando não deve. Depois do pé na bunda levado e superado, começo a vasculhar a memória e percebo que os sinais da falta de compromisso do outro sempre estiveram presentes. Mas como a paixão cega, não percebi e caso tenha percebido, preferi ignorar.
A lição que fica é que a vida não é injusta e sim as pessoas. A vida segue seu fluxo e temos que nos adaptar a ele para que nossa vivência seja plena e satisfatória. Daí vem o esforço constante em lidar com tais experiências que machucam, mas que no fim são importantes para nosso desenvolvimento e crescimento enquanto pessoa.
Portanto me despeço de 2015 torcendo para que leve consigo todos os infortúnios amorosos que me arrasaram e que me fizeram duvidar de que valho a pena para alguém se relacionar. Meu espírito segue forte e não permito mais que ninguém o destrua.
25 de Dezembro, Muitos Aniversários para Comparecer
Quanto aniversário importante vai rolar em 25 de Dezembro, nosso tradicional Natal, estou impressionado. E é por causa desse tanto de mitos sendo celebrados, que reparo com surpresa que Jesus é o único que não apresenta características físicas semelhantes ao povo de sua terra natal, no período que deveria ter vivido.
Como o cristianismo é engraçado. Afinal, mesmo tendo sido uma poderosa criação de dominação da Europa, seus protagonistas não viveram em terras européias. Jesus, Maria, Moisés, Abraão e companhia limitada nem naturais da Europa são. Chega a ser um conceito conflituoso, já que o ideal do homem é ser/parecer europeu (branco, olhos claros, cabelo liso), enquanto o protagonista principal da mitologia cristã sequer nasceu na Europa. Mas o o cristianismo nunca existiu pra fazer sentido mesmo, que nem o Papai Noel, que também é celebrado ao lado de Jesus no Natal.
Dai há de se entender porque os protagonistas, heróis e mocinhos da Bíblia, que ilustram o cristianismo, mesmo não sendo europeus, foram embranquecidos. Quem vai reverenciar um não-europeu, ainda mais se ele for negro, cabelo crespo e de nariz largo? Nesse mundo idealizado pelos colonos europeus não há espaço de poder a quem não seja europeu, com suas características bem evidentes, por isso a dominação se dar por todos os lados e formas, principalmente pela religião.
Agradeço muito por ter me desatado desses laços religiosos que me sufocavam e oprimiam. Hoje me sinto livre para identificar as inconsistências e incoerências no discurso cristão e, acima de tudo, acreditar ou não no que eu bem entender. Hoje sou dono de mim e isso que importa.
Vamos falar de Meritocracia
Na nossa sociedade a tal meritocracia, conquistar as coisas com muito trabalho duro e esforço próprio, é tido como o ápice da realização pessoal e social. Todos celebram, todos adoram, todos buscam. E se você não conquistou nada e tampouco ascendeu socialmente a culpa é somente sua, afinal não se esforçou o suficiente.
Contudo uma coisa engraçada tem acontecido recentemente no Brasil, que tem me feito perceber como a idolatrada meritocracia não passa de uma lenda, principalmente entre os abastados, tão aclamados por chegarem onde chegaram sozinhos. Homens que vieram do nada, mas que com muita garra conquistaram fortunas e sucesso empresarial. Homens que viraram capas de revistas devido ao jeito arrojado de trabalharem, de fazerem negócio e enriquecerem. Eram o exemplo do sonho de todo brasileiro: sair do nada, criar o próprio negócio e se tornar bem sucedido nele.
Recentemente, todo discurso sobre meritocracia foi posto em xeque. Dentre as inúmeras prisões que tem ocorrido no Brasil, várias delas são de empresários e CEOs envolvidos com corrupção política, esses que foram tidos como a nova cara da economia nacional. Empresários poderosos que graças a meritocracia chegaram onde chegaram.
Pois bem, foi graças a meritocracia mesmo? Pelo visto a tal meritocracia não passa de fachada. Chegaram tão alto na pirâmide social por meio de esquemas sujos, de envolvimentos sinistros com pessoas mal intencionadas visando somente o próprio bem estar financeiro. É muito trágico constatar como os grandes nomes da economia nacional não são tão grandes assim. No fim são pessoas inescrupulosas, verdadeiros bandidos, que não mediram esforços para enriquecer. Assim é fácil se tornar milionário, quando o real esforço feito foi se aliar com outros homens tão corruptos quanto, muitos dos quais são políticos que desviam dinheiro público sem peso na consciência.
Tudo isso prova que não há nada a se celebrar do discurso meritocrático, não o discurso batido e desgastado que muitos encham a boca para se orgulhar dele. Porque não é possível se chegar tão longe em tão pouco tempo sendo honesto nesse país. Isso se comprova diariamente com muitos negócios sendo encerrados após poucos meses de sua abertura, por não aguentarem a carga tributária, a burocracia, despesas ordinárias e demais intempéries que os negócios nacionais estão sujeitos. Aqui para se ir longe, é preciso se submeter e entrar no jogo sujo dos bastidores da corrupção.
Por exemplo, sou uma pessoa muito inteligente. Sempre estudei muito e tive boas notas. Graças a tal esforço ganhei bolsas de estudos em colégios e entrei na faculdade pelo ProUni, cotas para negros ainda. Mesmo assim a tal meritocracia não me agraciou, independentemente do tanto que me esforcei e corri atrás, e estou há quase dois anos a procura de oportunidade nesse mercado racista e intolerante que estou inserido.
Então parem de usar o papo de meritocracia como bengala para impedir que as minorias tenham acesso a melhores oportunidades de ensino e de emprego. Pois a cada dia comprovamos que esse discurso só é válido quando convém e que as chances para ser bem sucedido estão mais relacionadas ao quanto cada um está disposto a se corromper do que com o tanto de trabalho duro e honesto que está disposto a fazer.
Chega de Clichês
Já passou da hora das pessoas perceberem que frases bonitinhas de efeito não passam de distrações furadas. Essa constante negação do ser humano, de não aceitar que as coisas podem piorar ou não há solução nos aliena cada vez mais. O amanhã pode ser ainda pior que hoje e isso não é o fim do mundo.
Muita das vezes o outro só precisa saber que você o compreende, que sente sua dor, entende sua decepção e reconhece que tal empreitada não tem mais jeito. Contudo, quando se cai nos velhos clichês "tudo vai melhorar", "o amanhã será melhor", a impressão que se passa é que no fundo você não dá a mínima para o que o outro está passando e recorre a subterfúgios baratos para fugir de uma obrigação que nem é sua.
Afinal ninguém tem obrigação de ajudar o outro, mas se propõe a fazê-lo, entregue-se a isso, não tome como missão melhorar a vida de alguém só para estar bem consigo, para se sentir alguém superior que se importa com os dilemas alheios, mas sempre o faz de forma superficial. O fato de se importar vale muito mais que tentar forçar alguém a sair duma situação problemática com clichês baratos.
É preciso aceitar que muitas coisas estão além de nossa capacidade de resolver, entender. E quando se aceita isso, um grande fardo é descarregado. Assim conseguimos focar nossos esforços em outras questões e situações.
Então é hora de aprender a sair do óbvio, do lugar comum. E reconhecer que clichês, somente, são legais na ficção. Pois a vida real é muito mais complexa e exige um imenso esforço diário de cada um para lidar com os próprios problemas, que não há clichê que alivie.
Tempo de Resistência
Quando algumas páginas que propagavam intolerância e discurso de ódio caíram, nós, minorias, celebramos muito. Contudo, os reaças em toda sua soberba e arrogância contra atacaram, conseguindo derrubar páginas que sempre lutaram pelas minorias, como Tirinhas e Cartazes LGBT, Feminismo Sem Demagogia, entre outras. Esse tipo de atitude prova como tentam nos levar de volta a era das trevas. Os opressores não aguentam ver que hoje temos voz e não nos rebaixamos mais. Não se deixem abalar. Continuem denunciando e mobilizando seus amigos para derrubar páginas e perfis que só propagam ódio e intolerância. Sabemos que tanto embate ocorre, pois nós causamos medo. Nossa liberdade e coragem em ser quem somos intimida e vai continuar intimidando. Os tempos mudaram e hoje somos uma poderosa resistência, afinal arte Drag também é transgressão. Aqui não nos calarão ou intimidarão, pois nossa dignidade humana não está mais posta à prova. A revolução esta aí, mesmo que lenta. Aceitem logo, pois não vão nos parar!
Postado originalmente aqui.
Meu Amor Por Ele Não Morreu e Nem Vai
Há um ano mais ou menos chegava ao fim meu segundo namoro. Como sofri, como me senti no fundo do poço. Mas aos poucos fui me reerguendo e sem música para me acalentar, certeza que teria sofrido bem mais. Tudo passou e o amor e carinho ficaram.
Meu preto conheci, num aplicativo de encontros, durante as festividades de fim de ano. Nosso papo fluiu graciosamente. Por mais diferente que fossemos, havia rolado uma forte ligação entre nós. Após quase um mês de muita conversa nos conhecemos pessoalmente. A conexão foi imediata. Passamos um fim de semana inteiro juntos, nos permitimos e foi lindo. Desd'essa ocasião em diante não nos separamos mais. Vivemos um amor simples e puro, em que só importava a companhia um do outro, e isso era tudo que queríamos.
Porém a vida é repleta de dessabores e após alguns meses todo nosso amor foi abalado e nossa relação chegou a um fim inesperado e doloroso. Foi uma época muito confusa e sofrida para mim. Só queria estar com meu preto, me jogar em seus braços e sentir seu calor, seus batimentos cardíacos, seu cheiro, seus beijos, mas nada disso era mais possível. Descobri-me solteiro num mundo que eu não queria estar sozinho.
Eram tantos sentimentos que sentia que não conseguia escondê-los e não teria porque fazê-lo. Decidi abraçar a foça e deixar todas as dores virem a superfície. Entretanto o fiz ao meu modo, me jogando no mundo da música. Passei a apreciar sons que antes não tinham significado algum para mim. Mas que nessa altura da vida passaram a fazer todo sentido. Músicas que ilustravam o que eu sentia: a dor do término, o desejo do reencontro, a dura aceitação do fim da relação. Músicas que se ligavam ao meu íntimo. Foram semanas extirpando, pouquinho por pouquinho, as feridas no coração, com a ajuda de Sia e seu álbum 1000 Forms Of Fear (Mil Formas de Medo).
Eventualmente aceitei minha sina e comecei a me recompor, e aí reapareceu Stromae no processo e seu recente álbum, Racine Caree, foi fundamental para minha superação. Suas músicas animadas, celebrando a vida eram a motivação que eu precisava para enxergar minha situação com novos olhos. Stromae não só me fez querer dançar e espantar meus demônios, mas também aprender francês, para apreciar sua arte na essência, já que não sei francês.
Desde então me meti em várias situações amorosas, quando não cômicas, trágicas, que me ensinaram bastante. Tive uma infinidade de homens, desde os indiferentes aos muito apegados. Uns que me faziam sentir amado e outros que me fizeram de bobo. Homens que me deram infinitas chances e outros que me descartaram num piscar de olhos. Também não fui um exímio parceiro para todos, tive minhas falhas, desesperos, indiferenças, paixonites. Ao menos fui sincero comigo e com eles, sempre sendo o mais sincero e honesto possível, mesmo que não fosse algo recíproco em vários casos.
O que aprendi com tudo isso que vivi, foi que o ser humano por mais transparente que pareça é muito complexo, muitas vezes fútil, muitas vezes intenso, muitas vezes inacessível. Contudo são as variedades de cada um que os tornam tão únicos e encantadores. Aprendi a não tentar reconstruir com alguém novo o que vivi com meu ex no passado. Cada qual terá sua peculiaridade que tornará a relação única e linda. E por isso é preciso se permitir. É preciso dar chances, pois nem toda relação funciona como um conto de fadas, em que o amor acontece num piscar de olhos. Relações se constroem, se enfraquecem e fortalecem com o tempo, sendo imprescindível o esforço conjunto do casal.
Meu preto me fez muito feliz, com ele eu aprendi o que é ser amado, respeitado, valorizado. Infelizmente no fim a relação acabou, mas não guardo mágoa alguma. Sou muito grato a ele e ao que vivemos juntos, por isso desejo que ele seja muito feliz, onde quer que esteja. Afinal o amor por ele não morreu e nem vai.
Porém a vida segue. E a minha está seguindo, aberto a todas possibilidades possíveis, deixando as relações fluírem naturalmente. Chega de me auto-sabotar por relações que não deram certo e me deixaram duras marcas, que me fazem desconfiar de toda pessoa nova que entra em minha vida. Pois eventualmente, e antes que eu espere, um novo preto pode aparecer em minha vida e me fazer sentir a pessoa mais amada da humanidade. E com ele construirei novas histórias, novos caminhos... Um novo amor!
O Que Diferencia um Negro dos Demais São As Oportunidades
Essa é a maior verdade para negros na nossa sociedade atual: nos faltam oportunidades para quase tudo, seja na vida profissional, acadêmica ou amorosa. Somos a base da hierarquia social. Servimos só para servir, qualquer ascendência é impedida ou inviabilizada porque não somos aptos para tal. E assim quem detém privilégios sociais os mantêm indefinidamente.
O discurso alheio de igualdade é muito lindo: "não vejo cor, vejo pessoa"; "acho negro lindo, meu sonho era ter nascido com sua cor". Muitos desejam ser pretos, mas só com a parte linda da nossa existência. E em seus devaneios de serem o que não são, simplesmente ignoram nossas vivências e lutas, o que torna seus discursos vazios e muita das vezes silenciador. Afinal ser preto não é para qualquer um.
Não estamos a procura de falsos negros e pseudo-aliados para legitimar nossa luta, estamos a procura de oportunidades, de reparações históricas. Chega de sermos preteridos, ignorados, desrespeitados, abusados, violentados.
Ao longo da existência da humanidade, meu povo provou ser tão forte e competente quanto qualquer outro. Até mais, já que resistiu à séculos de escravidão e Diáspora mantendo alguns traços culturais vivos em uma terra estrangeira e perversa. Prova dessa grandiosidade é o Antigo Egito que era, predominantemente, negro. Essas versões pasteurizadas, de perucas chanel nada mais são que a eterna tentativa de nossos opressores em apagar o nosso legado histórico. Toda nossa contribuição intelectual, tecnológica, filosófica que tiveram berço no Antigo Egito, feitas por um povo preto.
Por isso hoje em dia a onda de empoderamento do povo negro tem sido cada vez mais forte. Não estamos mais nos calando diante das injustiças que sofremos. Estamos reivindicando com todo direito, nenhum tipo de tratamento especial, mas mais oportunidades, mais chances de atuarmos, cantarmos, trabalharmos e amarmos, pois já provamos que somos capazes de qualquer coisa assim como outras etnias. A grande diferença é que um negro para se destacar precisa ser excepcional, surpreendendo a todos por sua incrível capacidade de realizar algo. Já um branco pode ser medíocre no que faz, que ainda assim será considerado alguém relevante e ter seu talento reconhecido.
Nossa luta é constante e quanto mais negros despertam do domínio dessa sociedade racista e opressora, mais nos fortalecemos. E como a união faz a força, quanto mais unidos ficamos, mais criamos cenários propícios a gerarem oportunidades a nós negros.
Não Sou Bibelô De Ninguém, Muito Menos De Branco
Por anos tive que aceitar ser preterido nas relações que construía, afinal preto só serve para satisfazer os desejos sexuais e carnais dos outros. Basicamente, somos objetos de prazer, a serem descartados ao bel prazer do cliente. E isso foi algo que passei a reparar até mesmo nas amizades que desenvolvi com várias pessoas. Era a bicha preta engraçada, que os fazia rir, só servia para isso, nem para visitar a casa prestava. Bem, o jogo mudou e agora eu que mando em minhas relações e não servirei de bobo da corte para branco nenhum.
Demorei a perceber como essas relações opressoras me rodeavam. Achava que o problema era em mim. Não era digno de me relacionar com os outros, nem de visitar a casa de ninguém, certamente, por ter algum problema. As vezes até podia visitar a casa, fazer programas sociais, desde que minha presença não chamasse muita atenção, para não envergonhar os meus caríssimos amigos ou paqueras. Mas aí eles não faziam ressalva ao comportamento de outras pessoas, coincidentemente, não-negras e heterossexuais, que eram muito mais expressivas que eu.
A vida continuou acontecendo, eventualmente, passei a conhecer mais pessoas LGBTs e, até então, parecia que eu tinha me encontrado no mundo. Mas com o tempo as ressalvas começaram a surgir e de forma ainda mais dolorosa, pois vinham daqueles que deveriam me apoiar e proteger, já que somos da mesma parcela da população tão perseguida pelos defensores dos bons modos e costumes.
Percebi que o meio LGBT consegue ser tão opressor quanto aqueles que o oprime. Ser negro gay nesse meio é sentença para viver sozinho. A solidão da bicha preta é real. E dói... Dói muito! Pois se eu não for sarado, ativo, com pênis enorme, não tenho razão para pertencer à comunidade, já que somos objetificados e hipersexualizados ao extremo. Dessa forma até os romances não passam de uma noitada de diversão. As paqueras depois somem, sempre com desculpas medíocres, isso quando muito. Logo não nos dão segundas chances nem nada, nos descartam porque não passamos de uma raça inferior de ser humano. E a maioria desses romances fracassados se deram com brancos e não-negros. Então passei a não perder tempo com brancos, porém quem manda no coração? Insisti e continuei quebrando a cara no quesito amor.
Aí pensei que ao menos amizades com LGBTs não-negros seriam menos dolorosas. Ledo engano. Tornei-me a bicha preta lacradora na pista de dança. Arrasava na balada, sempre linda e extrovertida, mas ficava só nisso mesmo, não prestando para expandir a amizade para além desse espaço social superficial. Tentei por um tempo achar que era só impressão equivocada minha, mas não era.
Então decidi mudar de vez minha postura. De agora em diante me taxem do que bem entenderem, como já deixei evidente em A Voz Que Me Salvou, não ligo. Eu, finalmente, estou no comando da minha vida e das relações que escolho cultivar. Não-negros, entendam, não me iludo mais com suas amizades efêmeras rodeadas de preconceitos e observações e, tão pouco com seus falsos interesses amorosos, que não passam de um desejo passageiro de se deitarem comigo. Sou muito grato aos brancos que fazem parte da minha vida há anos, pois eles se esforçam em entender seus privilégios nessa sociedade e não reproduzirem preconceitos comigo e meus semelhantes. Já para os falsos aliados do movimento negro, principalmente os LGBTs (não importa de qual sigla sejam), não percam mais tempo comigo. Vocês, dificilmente, serão bem-vindos em meu círculo social.
Sou bicha preta sim e não bibelô de não-negros. Arrumem outro para serem seus bichinhos de estimação. Toda minha alegria de viver e energia serão dedicadas a quem me merece. Irmãos negros gays de luta, aqui estou por vocês e para vocês!
Yo soy reggaetonero
Desde os dezesseis anos de idade que sou apreciador ardoroso de música reggaeton. Embora algumas letras sejam problemáticas, várias com teor machista, os artistas desse estilo são maravilhosos. Com o tempo passei a admirá-los não só pelo trabalho musical, mas pelo que evocam em suas obras, sempre enaltecendo suas origens latinas e demonstrando o imenso orgulho de serem quem são.
Ao ouvir reggaeton sempre me sinto poderoso e não consigo ficar quieto. Há um certo magnetismo na batida desse estilo que me faz querer dançar, me impor, sensualizar e estravazar minhas vibrações através desse som. E por isso minha biblioteca musical de reggaeton é imensa. Pois não paro de buscar coisa nova.
Reggaetoneros me inspiram bastante. Os cantores e as cantoras são muito empoderados. Acho incrível latinos com essa postura que rompem com o conceito de hegemonia de realeza européia. São reis, líderes, chefes, imperadores, porque se intitulam assim. Não precisam de nenhuma herança sangüínea para se tornarem relevantes, são relevantes, porque acreditam nisso.
E isso basta e fortalece. Afinal, por anos os europeus e norte-americanos foram o exemplo do ideal humano a ser atingido, ao ouvir um cantor que saiu do "nada" declarar que é realeza simplesmente por ser, quebra todo esse paradigma de dominação estrangeira que nos é imposto. E deixa claro que para ser alguém "importante", basta ser. Nem é tanto pelo que se faz, ou pelo que se tem. Mas pelo que se acredita, fazendo cair por terra o conceito arcaico e opressor de meritocracia, você é o que você produz ou herdou.
Portanto vou continuar ouvindo muito reggaeton e sendo reggaetonero com orgulho e consciência.
Quando a Vida Sorri!
A vida as vezes é injusta, as vezes é amarga e quando quer, é muito cruel. Nos faz perder esperança de que as coisas podem melhorar. Mas quando ela nos premia com algo bom, nos arrebata e renova nossa fé.
Há meses perdi contato com um querido amigo. Negro gay e rejeitado pela família, que o expulsou de casa. Uma pessoa incrível, honesta, justa, que virou pária, dentro do seu próprio núcleo familiar. Uma tradicional família (evangélica) brasileira que não deu muitas opções ao rapaz: ou volta para o armário e seja um infeliz fiel da congregação iludindo pobres mulheres ou rua. Ele escolheu a rua, mas como a rua não é tão encantadora como a ficção faz crer, meu amigo optou por viver uma vida de aparências com outros familiares menos intolerantes.
A vida o castigou de forma pesada pelo erro de quem deveria amá-lo. A solidão e a descrença o abateram. Mas eis que em tempos de modernidade foi uma rede social que mostrou a ele que não deve temer ser quem é e se esconder atrás de subterfúgios baratos. O reencontrei por acaso e nosso contato renovou nele a velha crença de que nós gays podemos escolher nossa família.
Pude presenciar a alegria genuína desse amigo ao perceber que não tinha sido abandonado por todos, pelo contrário, seus queridos amigos sempre o tiveram na memória e continuaram em sua busca. Hoje estou mais feliz do que nunca. Sempre acreditei que amigos são a família que escolhemos. E poder me reconectar a esse elo perdido da família que escolhi me fez muito bem.
A vida pode não estar completamente satisfatória para ele ainda, mas só dele saber que tem com quem contar, já o fortalece e dá boas esperanças. Eu estou aqui para apoiá-lo e amá-lo, afinal é só isso que nós gays precisamos: amor incondicional. Pois somos o que somos e isso não está errado, isso é belo e revolucionário. Mas enquanto a sociedade continuar a nos marginalizar, vários continuarão solitários e se sentindo desamparados. A esses quero que saibam que vocês não estão sozinhos, vocês podem escolher suas famílias e ela sim lhe salvará. Mantenham-se fortes, pois a vida quando sorri é maravilhosa.