eu beijei sua boca entre às nove e dez horas da manhã e minha boca tinha gosto de cerveja. a sua tinha gosto de felicidade, timidez e nervosismo. eu sempre fui a mais cara de pau, é o que você me diz. eu sei. não sei em que momento eu pulei de estar sentada no carro indo pra sua casa, pra estar sentada na sua cama lendo o livro da clarice com você. tanta coisa você marcou. tanta coisa eu deixei de marcar. tanta coisa nova passa pelos meus olhos. tanta coisa passaram pelos teus, e seus olhos parecem uma galáxia em sua infinitude e eu nunca tinha visto uma de tão perto. não assim.. tão real. intensa. intocável. quis tanto te assistir. te descobrir. te conhecer. te tocar. eu gosto de andar com você pelas ruas, porque você caminha dançando e você tem um jeito só seu de falar sobre coisas bonitas e você balança a cabeça em sintonia. eu te paro porque sua maquiagem tá borrada bem no seu nariz, e você diz alguma coisa tira o óculos e sorri. daí a gente continua. eu tô tão animada em te escutar, porque você e sua galáxia sempre em expansão e descoberta, sabem me conduzir, me ganhar. eu gosto de sentar com você e te ouvir. gosto de sentar com você e conhecer, e não só coisas que você tem pra contar sobre o mundo, mas coisas que você tem pra contar sobre você que é um universo particular. gosto das coisas como são e quando são com você porque você é real, sabe? de verdade.
a gente conhece o outro pela convivência, né? agora eu sei quando você tá sorrindo do outro lado do telefone. quando cê tá brava com alguma coisa que eu fiz que eu nem lembro e você não me diz. é uma coisa que a gente tende a esquecer, talvez. a gente conhece o outro todo dia. porque a gente expande e absorve conhecimentos todos os dias. eu sim, e você também. eu gosto de te assistir mudar, porque você também me muda. o amor talvez seja essa troca de mudanças que a gente causa um no outro sem nem perceber e quando a gente percebe já foi. tá aí você falando com um sotaque nordestino carioquês e tô aqui eu falando algumas palavras com um chiado estranho, mas bonito.
eu me apaixonei pela sua voz porque ela é só sua e eu não me lembro de ter ouvido alguma assim antes. eu me apaixonei pelos efeitos que ela causa em mim. pelas coisas que você diz. pelo jeito que você diz.
“fica aí pra mim tirar uma foto sua segurando o mundo”, você me disse. ei, eu abracei o mundo que importa pra mim três dias antes da foto, sabe? ei, você se lembra de quando sentíamos tanto medo? eu não me lembro em que momento eu pulei de sentir tanto medo do que seria a gente se tocando, se olhando e se abraçando pela primeira vez para o momento em que eu te fazia cocegas e ríamos de madrugada no colchão do teu quarto. eu deveria ter te dito, eu tava tão feliz, eu tava onde eu gosto de estar. assim como o momento deitadas no chão do museu do amanhã, sabe? qualquer lugar com você é bom. têm muita coisa que eu sempre penso em dizer e nunca digo, sabe? acho que é por isso que escrevo. eu tô bem aqui te dizendo porque eu não esqueço coisas gigantes, eu sento, coloco uma música pra tocar, e eu escrevo.
e sabe, talvez, amar seja essa coisa sem definição: diferente-pra-cada-tipo-de-pessoa. talvez pra mim amar seja o ato de escrever. e a gente tem que sacudir a poeira, os farelos do passado. crescer. começar a enxergar o amor além de uma bolha romântica e ideológica. é diferente. pra-cada-tipo-de-pessoa. é diferente pra mim. é diferente pra você.
mas a gente se encontra bem no meio. porque se o amor é essa ponte, eu tô no meio do caminho e você também. mas se você não estiver, eu corro até você ou, eu te espero chegar. porque amar você, mulher - é um ato revolucionário e gigante. eu não me importo com os outros. com o que falam os outros e as ideias deles sobre isso. porque amar você não cabe aqui. eu tô enrolando, mas eu não esqueço coisas gigantes, eu escrevo sobre elas e é o que esse dia é pra mim.