I’ve never been good at emotional stuff. Except anger. Anger, I’m good at.
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Obliquidade nunca o incomodou; de fato, Louis sempre pareceu extremamente caro à forma como tratava os outros: com frieza e grosseria. Nunca fora o típico príncipe, ainda que o pai tentasse enfiar sempre a honra em suas ações. Eventualmente, as lições de Sebastian foram aprendidas, e jamais poderiam ser esquecidas, nem que o próprio rei suíço assim o desejasse. Louis era uma criatura de hábitos, ligado demais aos processos que o acalmavam, fosse em uma saleta onde deceparia a cabeça dos algozes do reinado do pai, fosse dentro da própria cabeça sombria, negra de tão depravada. Esquecer-se de seus ensinamentos não parecia eficaz, e, ainda que precisasse se tornar uma pessoa melhor ao usá-los, algo sempre clamava por ele, nas partes mais ímpias de sua mente. Louis não era bom, isso estava mais do que claro, mas tampouco era o vilão de histórias de crianças. Era um mero homem que não sabia como lidar com os próprios demônios desde a morte de Marveille, desde que se despira de uma honra fajuta ao se deitar com a madrasta sob o nariz do pai. Partira para Illéa em busca de uma redenção que sabia não existir; em busca de um tipo de forma de conviver consigo mesmo.
Era sádico, completamente masoquista por fazer aquilo consigo mesmo, mas não era como se soubessem pelo que passara; o tenente sempre tentara se mostrar completamente acima de medíocres demonstrações de fraqueza. Era o que um governante deveria fazer, afinal e, apesar de Sebastian ser o governante mais humano com o qual já cruzara, não podia se esquecer de que o pai era fraco o suficiente para não deixar o filho ir quando soubesse o que tinha feito. Se havia algo com que Louis jamais poderia lidar, era com o tom de convalescência do rei, ou mesmo com as lágrimas de tristeza que Julia derramaria assim que soubesse o que o tinha afastado por tanto tempo. Fato era que Mair provavelmente iria para a masmorra caso o envolvimento dos dois se provasse verdadeiro; uma traição ao governante suíço, a pior das facadas nas costas do Wöfflin mais velho. Não, Louis não poderia permitir que fosse Sebastian ou mesmo Mair quem sofresse pelo rumo de suas ações. Ele deveria, para sempre, manter o segredo do pai, não para se proteger, mas para proteger o homem. Sebastian poderia saber que o filho não era comum, que se divertia com o sofrimento dos outros, mas Louis jamais se divertiria com o sofrimento do próprio progenitor. Parecia duro demais para que mesmo ele aguentasse, para que pudesse se olhar no espelho.
Fácil demais desmembrar rebeldes e traidores da coroa, ver a vida escorrer pelos olhos aquosos enquanto Louis preparava as injeções de adrenalina apenas para que acordassem e tivessem mais uma chance de sobreviverem ------ ao menos por mais algum tempo ------ para lhe darem as informações necessárias. Não tinha paciência para diplomacias, tampouco para trocas de palavras, ainda que pudesse fazê-lo, desde que a hora demandasse; era Julia a diplomata dentre os gêmeos, era ela quem conseguia fazer com que todos os súditos a amassem enquanto à Louis eram relegadas expressões cautelosas, até mesmo amedrontadas. Se Julia era o cérebro, Louis era o corpo, o executor, aquele que faria de tudo para manter a família no poder, para se certificar de que os rebeldes, apoiadores do maldito rei Viktor ------ o mesmo doente que estuprara a mãe e fizera com que o povo suíço passasse fome depois de inúmeras guerras sem sentido com os países vizinhos ------ jamais estivessem prontos para se erguerem contra o reinado do pai. Violência nem sempre era a resposta correta, mas, para Louis, parecia ser a única adequada para lidar com qualquer coisa que o intrigasse ou irritasse depois do episódio de Marveille. Não era sua culpa, era simplesmente a pessoa deturpada que viera a se tornar.
Olhando para os rebeldes de Illea, entretanto, ele conseguia ver exatamente o primeiro que encontrou e enfiara a faca repetidas vezes no estômago.
Lembrava-se de como o sangue pareceu se impregnar na pele e ensopar a blusa social branca que usava, manchando-a para sempre. Tudo acontecera tão rápido que o Wöfflin mal podia se lembrar; dezessete anos apenas, e já tinha destruído a vida de um homem ------ pouco lhe importara se era um na época; para si, o rebelde não passava de uma praga para o mundo. Fato era que o príncipe sorrira pela primeira vez desde a morte da pequena irmã, fato que não parecia corroborar com as últimas vezes em que sorriu desde que nasceu, de tão fracas e pequenas que eram as aparições de todos os dentes do príncipe, não fosse para vociferar algo. Tudo não passara de uma coincidência, entretanto; as investigações à época não pareciam dar os frutos verdadeiros de um trabalho árduo e penoso. Prestes a voltar para o palácio, o príncipe se manteve em um dos becos de Berna, espada enganchada no cinto especial a medida em que a adaga se amoldava na bota de cano longo. Havia dispensado os seguranças; não desejava chamar atenção para si naquele momento.
Uma sorte, muitos diriam; o grupo de bêbados se desvencilhara o suficiente do homem para que o príncipe pudesse escutar as troças dirigidas à família real. Louis apertou o punho da espada, trincando o maxilar a medida em que os olhos se estreitavam, unindo-se às sombras ------ aquelas que sempre o aceitariam, mesmo na época. O bêbado então mandara todos irem embora enquanto se aliviava, assobiando alguma melodia certamente imprópria para os ouvidos de qualquer dama, quando Louis finalmente se afastou das sombras, pondo-se atrás do homem, ainda segurando o punho da espada antes que começasse a falar. Não era o monstro furtivo que hoje se identificava, era fato, de forma que o homem, mesmo bêbado, percebeu a sua presença, virando-se com uma careta de poucos amigos até encarar o príncipe herdeiro. Xingou logo em seguida, mas Louis o encurralou contra a parede, escutando até mesmo o baque surdo da cabeça contra a parede de pedra. Incapaz de não franzir o cenho diante do cheiro pútrido de centenas de urina, todas misturadas aos seus pés, o moreno não conseguiu segurar o rebelde por muito tempo. “Mal posso esperar para contar isso para Frederick.” O homem meramente abriu um sorriso, respondido por um mero franzir de cenho por parte do príncipe antes do bêbado lhe acertar com uma cabeçada, fazendo com que Louis cambaleasse para trás. “Parece mesmo que o rei não tem os culhões para mandar um verdadeiro assassino fazer o trabalho dele, huh?” O homem estreitou os olhos para o príncipe, empurrando-o o suficiente para que ele caísse de costas para o chão.
Não era algo do qual se orgulhava, de fato; a lembrança da noite o lembrava de como era fraco há meros nove anos atrás ------ se não fossem tão estúpidos, não só ele, mas o pai também, Marveille teria quase dez hoje. Louis não aprendera a arte da furtividade, tampouco tinha a disciplina necessária ou sabia ler pessoas o suficiente para antever os próximos passos do rebelde. O homem parou perto de si, cada uma das pernas solidamente enganchada em um dos lados do corpo do Wöfflin e, por um momento, Louis sentiu como se fosse vomitar, pela primeira vez percebendo que não seriam pessoas com quem se importava que sofreriam pela posição, mas ele. A fraqueza o enojou.
A imagem se desfez assim que piscou uma única vez, escutando, então, as maledicências do rebelde illeano, ameaçando-o e o desafiando a fazer o seu pior. O tenente meramente encarou o outro, negritude tomando conta dos olhos azul escuros a medida em que se encaminhava para a sua mesa de utensílios especiais ------ chamava-os de brinquedos, mas não havia de se enganar; ainda que se divertisse como uma criança jamais se divertiria propriamente com os materiais, sabia quão letais eram. Essa parecia ser a verdadeira graça de lidar com eles. O tenente deixou escapar um mínimo sorriso, mostrando apenas a pequena elevação no canto dos lábios, mas não os dentes. Sentia como se, naquele momento, os caninos se acentuassem, como se mesmo os incisivos tomassem a forma de dentes afiados, prontos para rasgar a carne do rebelde que recuperara para suas próprias experiências. Jamais permitiu que vissem aquele seu lado; mesmo os soldados o deixaram em paz quando pedira por privacidade ao lidar com a tortura daquele homem para a obtenção de informações. Sabiam do que o tenente era capaz; não sabiam que gostava de efetuar cada uma das ações. Levantando o bisturi à altura dos olhos, analisou-o tranquilamente, mas ao se encarar, os olhos escuros de malícia fizeram com que se lembrasse da ocasião, anos antes, novamente. Malditos flashes.
De volta à noite escura de Berna, Louis só conseguia sentir a neve fria abaixo de si a medida em que o bêbado se sentava sobre o seu tronco, incapacitando as mãos do mais novo antes que pudesse fazer qualquer coisa. Medo parecia injetar em suas veias, e o Wöfflin não gostara nem sequer por um segundo da sensação de incapacidade ------ provavelmente fora o que Marveille e Mair sentiram; mas Mair chegara a sobreviver. Impotência não combinava consigo, então o príncipe sorriu de frente ao algoz, um sorriso quase lunático, insano. “Se eu fosse você, sairia de cima de mim.” Arqueou uma das sobrancelhas, trincando o maxilar. “Ele fala.” O homem meramente sorriu, exibindo os dentes putrefatos a medida em que aproximava o rosto de Louis. “Pensei que tinham tido o privilégio de cortar a língua do príncipe herdeiro antes de mim. Da mesma forma que tive o prazer de acabar com a vida da sua pequena irmã, a princesinha, filha daquela puta.” O sorriso jocoso fora suficientemente registrado pela mente de Louis, mas, no momento, o príncipe não pôde falar mais nada. A mente não correspondia mais às suas ações, tudo se tornara automático a medida em que a visão pareceu adquirir um tom sanguíneo de vermelho, o mais rubro que poderia imaginar.
Tudo aconteceu em questão de segundos, mas ali, Louis de alguma forma conseguira dar uma cabeçada no homem, que havia se aproximado o suficientemente de si para fazer o que bem entendesse ------ por mais desgostoso que aquilo pudesse parecer, Louis agradecera mentalmente, após o fato, por tê-lo feito, do contrário seu golpe de nada adiantaria. Empunhando a adaga, ele a cravou no estômago do homem, antes, entretanto, de olhar em seus olhos, quase podendo sentir a sua dor ------ e gostando daquilo mais do que qualquer príncipe digno poderia admitir. “Espero que arda no inferno.” Repetidas facadas foram o suficiente para que a vida escorresse do homem, sangue jorrando da boca negra a medida em que os olhos perdiam toda a vitalidade. Respingado de sangue, Louis permitiu-se sorrir, limpando a faca como se nada tivesse acontecido após se levantar. O corpo sofria espasmos, todavia, e ele sentia como se, enfim, todo o peso que carregara por anos a fio parecesse se dissipar a medida em que saía do beco, rumo ao palácio. Louis havia encontrado a vocação, e parecia sublime andar como se nada tivesse acontecido. Isto é, até Sebastian o encontrar completamente ensanguentado naquela noite.
Piscou mais uma vez, e tudo o que conseguia ver era o bisturi, reluzente em meio à luz, pronto para o seu trabalho, então negou uma única vez, voltando o olhar para o rebelde que fizera como seu prisioneiro particular ------ aquilo, de fato, não era um privilégio. “Não sei se sabia no que estava se enfiando quando entrou no palácio...” O braço ainda fisgava, mesmo depois de semanas de repouso ------ gratificadas à selecionada que Louis lutava para deixar longe de seus pensamentos. “Mas certamente sabia onde encontrar as selecionadas, que estariam desprotegidas diante de um ataque e que pensou que poderia machucá-las. Pensou errado; toda ação tem uma reação, nem sempre proporcional à provocação. Especialmente quando sou eu quem está no comando e essa demonstração patética de falsa rebeldia faz com que eu pareça incapaz de manter o meu trabalho.” Arqueou uma das sobrancelhas, dedilhando os outros objetos a medida em que as palavras pareciam jorrar dos lábios bem constituídos do príncipe. Gregory estava insatisfeito, era verdade, mais especificamente porque o príncipe suíço se pusera em risco por meninas que, em último caso, seriam dispensáveis, mas Louis dividia a sua raiva em duas vertentes: ele prometera à ela que a manteria a salvo; prometera à todas elas que nada de ruim as aconteceria enquanto estivesse de guarda, enquanto fosse o tenente e enquanto todos respondessem a ele. Raiva parecia borbulhar no interior de Louis, mas não era como se fosse deixar se levar por conta de sentimentalismos baratos. Haviam mexido com Whilhelmina, e por mais que não desejasse se lembrar dos episódios em que a encontrara após o ocorrido, eles sempre vinham à sua mente quando prestes a fazer um maníaco sangrar pelas mãos de outro. Louis não era bom; nunca acreditara que um dia seria algo parecido com alguém bom, mas ninguém necessitava saber disso.
Viam nele o que desejava transparecer, com a exceção de duas mulheres. Significavam mais do que poderia admitir, mas tampouco queria fazê-lo. Demonstrar era sinal de fraqueza segundo seus comandantes. Faça com que sofram por fazerem-nas sofrer, mas jamais deixe que elas saibam o que fez para deixa-las seguras. As palavras dos generais do pai pareciam incorrer em sua mente naquele momento, e Louis só voltou a atenção ao rebelde assim que começou a falar. “Bem, talvez fosse a hora de pedir demissão. Ou a aposentadoria.” O sorriso desafiador não continuaria ali por muito tempo, e Louis se certificaria daquilo, mas, naquele momento, permitiu-se sorrir, começando uma risada oca para corresponder à do homem antes de se aproximar sorrateiramente, socando-o antes que pudesse imaginar de onde aquilo tinha vindo. “Ou talvez seja a hora de fazer com que pare de falar merda e me diga o que quero saber.” O olhar de Louis parecia ter escurecido cada vez mais, e sabia que não havia mais volta para o rebelde.
Ele sairia daquela sala ensacado; restava saber se sofreria muito ou não.
Demorou um pouco de tempo para que Louis conseguisse as informações que desejava ------ arrancar unhas, cortar fora com o alicate cada um dos dedos do homem após isso, técnicas de sufocamento dignas de militares próprios do esquadrão da morte, remoção de pele por cera quente, as técnicas mais variadas pareciam entreter o Wöfflin enquanto via nos olhos do rebelde ------ Eckhart, como dissera se chamar após algumas unhas retiradas ------ a mais profunda dor. Ao fim e ao cabo, ele lhe dera tudo o que desejava, e Mina estava tecnicamente vingada por um arranhão no rosto. O sofrimento extremo de um rebelde em troca de um leve ferimento na selecionada que parecia habitar seus sonhos e pesadelos das formas mais distintas possíveis. Injusto era o que a maior parte das pessoas pensaria, mas na balança de Louis, que há muito não se livrava de seus instintos mais animalescos, aquilo não passava de um quid pro quo.
Não se tratava de Whilhelmina, no fim das contas, mas de sua incapacidade de lidar com a perda; e, por conta disso, dezenas já pagaram. Louis simplesmente não conseguia se controlar. Era uma máquina de matar, descontrolada, um tanto quanto volátil e certamente perigosa para se ter dentro do mesmo teto. Uma verdadeira pena que Gregory não sabia quem era verdadeiramente o filho do honrado rei Sebastian Wöfflin. Limpando os dedos ensanguentados, Louis sentia o humor melhorar consideravelmente a medida em que saía da saleta, revertendo ordens para os soldados.
Havia de ter uma reunião privada com Spencer e atualizá-lo das novidades. Aparentemente estava na hora de vossa alteza sofrer o que já deveria ter sofrido há muito.
When enemies are at your door I'll carry you away from war || Louis & Mina
A família real não me importava. Nenhum de seus membros significava absolutamente nada para mim. Sequer temi por eles durante o ataque e, não fosse a brutalidade com que os rebeles se portavam, talvez até os apoiasse. Então por que Louis parecia se importar tanto com a segurança dos Illéa e esquecer da própria? O tenente levava seu senso de responsabilidade a outro nível, um que beirava ao suicida, apenas para manter-se firme em sua posição, sem mostrar o quão debilitado estava. E daí que era seu trabalho? Ele deveria ficar de repouso; as funções poderiam esperar. Deveria haver substitutos, talvez não tão competentes e fissurados quanto ele próprio, mas qualquer um serviria nessas circunstâncias. Não rebati suas palavras, preferindo assentir sem muito ânimo, como se estivesse de acordo. Na verdade, eu só estava evitando cansá-lo ainda mais. Independente da vontade do tenente, eu falaria com o Dr. Austin no dia seguinte, para que ele, que era a pessoa mais próxima de autoridade médica que eu conhecia no palácio, tomasse as providências necessárias em relação a Louis. Ele ficará ainda mais debilitado se não repousar, diria ao médico. E todos sabemos como o rei odiaria o responsável pela guarda nessa situação por tempo indeterminado, não é mesmo? Talvez eu estivesse superestimando o quanto Louis representava para a Coroa, mas tinha de usar dos artifícios que tinha em mãos. Em meio a isso, eu gostava de pensar que estava fazendo tudo em razão de meu compromisso com a saúde, e não por minha preocupação pessoal com o guarda.
Algo mudou no rosto de Louis quando me encarou, como se estivesse enojado pelo que via. Tentei afastar meu queixo de seu aperto, sentindo minhas bochechas arderem pela primeira vez em muito tempo. O fato de ser analisada tão cuidadosamente por ele fazia com que uma sensação de instabilidade se apoderasse de meu corpo; me sentia exposta e envergonhada pela possibilidade de não estar correspondendo às expectativas daquele homem. De novo: eu estava nos colocando numa situação que de fato não existia, especulando a possibilidade de ele se dignar a olhar na minha direção, em busca de uma eventual beleza. Sempre me preocupei em não ser esse tipo de garota, que fica insegura frente a rapazes que sequer ligam para elas, mas era impossível não sentir-se dessa forma frente ao olhar perscrutador de Louis. Eu queria ter um rosto que o agradasse, por mais que isso fosse irrelevante agora, ou em qualquer momento. Mas tive medo quando vi a fúria em seus olhos, contrariando todos os pensamentos tolos que estivesse tecendo naquele momento. Ele não estava me olhando. Estava olhando para os machucados; provavelmente se punindo internamente por não ser um guarda tão bom ao ponto de proteger tudo e todos vinte e quatro horas por dia. Não se dava conta de que isso era humanamente impossível. “Não foi isso que eu quis dizer, soldado”, retruquei, um tanto rispidamente, decepcionada por ele não ter sentido minha dor. Logo em seguida, no entanto, suavizei o olhar, ignorando aquilo de uma vez. Não havia por que feri-lo ainda mais. Era doentio da minha parte, e eu jamais fora uma pessoa vingativa. Talvez Louis nem soubesse que me machucava; talvez nem sonhasse que… Que eu estava apaixonada por ele.
Qualquer pressão que a mão do tenente exercia sobre minha pele não se mostrava dolorosa. Pelo contrário: uma espécie de calor se instalava nos pontos em que ele tocava, e meu corpo clamava por mais. Não me importava que aquele aperto no pulso fosse deixar hematomas. Eu sabia que Louis era uma alma atormentada; desesperada; não sabia como dizer que se preocupava comigo ao mesmo tempo em que me mandava embora, então eu continuava e continuava e continuava com minha indulgência infinita. Masoquista. Quem diria? A palavra ficava retornando para minha mente a cada centímetro que eu chegava mais próxima do guarda. “Precisava o quê?”, perguntei, sentindo a raiva retornar. Ele estava prestes a dizer alguma coisa que parecia importante, até se interromper, não sei se por orgulho ou dor física. Louis parecia ter piorado naqueles minutos, e eu não pude deixar de pensar que talvez isso fosse minha culpa. Ainda assim, eu queria saber o que ele tinha pra falar, e me aproveitaria justamente desse momento de fraqueza. “Por que não fala de uma vez? Por que insiste em dar voltas, engolir as palavras, fingir que não era isso ou aquilo que queria dizer de verdade?”, perguntei exasperada, me afastando o suficiente para que os gestos que fazia enquanto falava não o atingissem. “Estou exausta, soldado” ––– e nesse ponto eu me referia não só à maratona do dia, mas à situação em que nos encontrávamos. Eu estava cansada dele. Ou melhor: da forma com que se comportava.
Um sorriso débil foi tudo o que recebi, como se o tenente estivesse em outro lugar, e não conversando comigo. Parecia ter ignorado meus protestos. Parecia além das próprias forças. Ele também estava exausto; mais que isso. Tive vontade de socá-lo; destruir seus dentes perfeitos, seu sorriso idiota. Isso com certeza faria com que eu me sentisse mais aliviada. Sabia, entretanto, que ele já havia batido e apanhado o suficiente por um dia ––– seu estado físico deixava bem evidente. “E de quem seria essa decisão? Do país de Illéa, visto que agora sou sua propriedade? Acho que o príncipe não ficaria tão ansioso por manter você na minha guarda se eu lhe contasse que me beijou à força”. Mantive a postura o mais arrogante que conseguia, cruzando os braços sobre o peito. Quem eu estava querendo enganar? Era óbvio que não acusaria Louis de traição. Ele seria morto. Ou pior. O remorso me atingiu em cheio somente com a possibilidade. Louis devia me odiar. “De-desculpe. Isso jamais aconteceria, soldado. Eu não seria tã—-”, porém, antes que concluísse qualquer pensamento, eu estava sendo envolvida pelos braços do tenente, mergulhando na escuridão de minhas pálpebras fechadas, enquanto sentia os lábios sendo comprimidos pela boca dele. Não havia gentileza em seus lábios, mas era exatamente da forma que imaginei que seria quando ele me beijasse pela primeira vez, de verdade.
Antes que eu pudesse sequer beijá-lo o suficiente para sanar qualquer vontade que sentisse dele, o beijo se desfez abruptamente, me tirando de meu transe ––– que mais parecia um sonho estranho ––– e me puxando de volta para a realidade. “Meu Deus! Louis? Louis!”, gritei, enquanto me abaixava, chacoalhando o corpo do tenente para que reagisse. Com as mãos trêmulas, chequei a pulsação do moreno, respirando aliviada quando constatei que estava vivo. “Socorro! Será que alguém pode me ajudar?”, comecei a gritar outra vez, saindo do corredor mal iluminado para uma área mais aberta, próxima de onde estavam os funcionários do palácio. Permaneci gritando até que criados surgissem, assustados, tanto com minha aparência ––– eu ainda vestia as roupas do ataque, estava ferida e com sangue em vários pontos das vestes, além de estar com o rosto coberto de lágrimas ––– quanto com meu nervosismo. “Estou bem! É ele quem precisa de ajuda”, completei, correndo de volta para junto do corpo do guarda, esperando que os criados me seguissem. Parecia haver respeito da parte deles para com o tenente, como se também reconhecessem sua autoridade, mesmo sendo de um setor completamente diferente. Tudo se deu de forma muito rápida: surgiram enfermeiros, macas, mais guardas… Todos empenhados em levar o tenente para a ala médica e restaurar sua saúde. Eu já estava mais ou menos calma quando acabou ––– com Louis devidamente instalado em um leito da ala hospitalar, um tubo de soro ligado diretamente a uma de suas veias. Não pude me manter tão perto quanto desejava ––– e eu desejava permanecer ao seu lado até que ele acordasse; até que se recuperasse ––– pois isso só levantaria suspeitas.
“Como foi mesmo que você o encontrou, senhorita Mina?”, perguntou o Dr. Austin no fim da noite, enquanto preenchia alguns formulários. Ele não me encarava diretamente; sua atenção estava voltada aos papéis. “Eu… Ouvi ele caindo”, menti, engolindo em seco. Austin estava longe de ser um homem que eu pudesse considerar burro, então não foi surpresa quando ele ironizou; a frase seguida de um riso curto: “Ótima audição… Vamos torcer para que nosso amado príncipe acredite nos seus superpoderes”.
ENCERRADO
Hey, little girl Look what you’ve done You’ve gone and stole my heart and made it your own
◥◣ an Wöfflin’s early life point of view ◥◣
O coração de Bridget batia forte como no dia que dera a luz à Veridiana. De fato, era como se ela própria estivesse sentindo as ansiedades, dores e angústias da amiga que já estava há algumas horas dentro do quarto. Descendo alguns lances de escada, a morena encontrava membros da grande família da quais ela e Mina agora faziam parte. Louis estava num canto, com uma carranca que ninguém ousava contrariar, e vários parentes tentavam ignorar a situação, aproveitando o uísque que era servido por empregados especializados, obviamente contratados por Sebastian. Bridget sorriu para si mesma, só então se dirigindo ao futuro papai, colocando o copo cheio pela metade com scotch legítimo na frente do moreno. “Eu sei, soldado. Você não bebe, mas são ordens da Mina. Ela sabia que você estaria aqui, com exatamente essa cara e me mandou te dizer que está tudo bem.” Louis meramente assentiu às palavras da morena —— o alemão, tão diferente inicialmente, ainda parecia estranho se pronunciado pelos lábios da americana ——, mas não antes de dirigir um olhar que, Bridget sabia, poderia ser interpretado como cansado por alguém que olhasse com mais cuidado para a linguagem corporal do então capitão Wöfflin. Haviam sido dias difíceis, e o trabalho de parto demorara para realmente acontecer —— ainda àquela hora, Mina não apresentava o grau de dilatação desejável. Com sorte, o próximo Wöfflin nasceria em poucas horas, quando a nevasca cessasse. O nascimento de um novo integrante na família tinha sido capaz de reunir grande parte dos parentes mais próximos —— o que não significava pouco, se Bridget fosse completamente sincera. Olhando de um lado para o outro do grande hall da mansão de seu marido, e, curiosamente, pai de Louis, não conseguiu conter o sorriso quando o olhar carinhoso foi parar justamente na própria filha, que mais parecia uma princesinha no colo de Sebastian, dirigindo-se a eles dois tão logo pôde tomar um copo de scotch para si mesma, já que não podia fazer mais nada pelo papai em questão; o objetivo que Mina a impusera já havia sido cumprido, e agora bastava esperar, e, ainda que fosse impaciente com aquele tipo de situação, uma vez que tudo ao seu redor inspirava cuidados, simplesmente sabia que a amiga passaria por aquilo tudo, e depois riria —— típico de Whilhelmina, se o moreno que se casara com a médica pudesse concluir o pensamento da Darcy.
Se Bridget fosse capaz de ignorar seus anseios e nervosismo pela amiga, ela acharia engraçada a situação em que as duas se encontravam. Viera de um lugar relativamente simples, e tanto ela quanto Whilhelmina participaram de uma seleção maluca pela mão do herdeiro de um magnata em especial nos Estados Unidos, surpreendentemente acabando casadas com membros de algo parecido com uma família real suíça, ainda que o país não ousasse usar aquela nomenclatura nobiliárquica para com os Wöfflin —— o povo suíço jamais admitiria que aquela família era uma das mais importantes dentre o rol de riquezas e poder político que possuíam —, da qual agora elas orgulhosamente proviam os herdeiros. Elas haviam passado por tantas coisas juntas e sabiam que passariam por tantas coisas mais, seja lá o que a vida lhes trouxesse; sabiam que tinham uma a outra, e, ao olhar para toda aquela gente espalhada pela sala, a morena sabia que as duas agora contavam com todas aquelas pessoas que, apesar de serem completamente diferente entre si, eram agora uma família. Não demorou muito para que o choro alto e esganiçado enchesse as paredes dos quartos e todos os olhares do salão se voltaram para o, então, capitão, ao mesmo tempo em que sorriam aliviados.
Todos pararam o que estavam fazendo naquele mesmo instante. Rabastan, um garotinho de pouco mais de sessenta centímetros, cessou a implicância com o primo mais novo —— Chewie, como o apelidara por não conseguir pronunciar o nome corretamente —— assim que o pai desatou a dar passos largos e decididos em direção à escada. Os olhos escuros do moreno se arregalaram enquanto Kile tornara a chorar, agarrando-se nas roupas no primo para que ele não perseguisse o pai. Por alguns segundos, Rabastan ensaiou um choro, como se estivesse desafiando o ser alienígena que passara a chorar onde a mãe deveria estar a uma pequena disputa, mas parou tão logo a tia viera ao seu resgate, tomando tanto Kile quanto Rabas no colo assim que deixou Frederika —— um bebê de pouco mais de um ano —— com seu mais novo pretendente, que a aninhou da melhor forma que conseguia com toda a falta de jeito. Sebastian manteve tanto Veridiana quanto Bridget sob controle, pedindo por algum tipo de calma, mas era impossível que uma família tão dispersa e pouco dada a ordens —— Louis era um caso à parte, especialmente quando era ele quem as dava, na maior parte do tempo —— seguisse as diretrizes que o patriarca tão calmamente tentava impor, uma vez em que o imperativo dos Wöfflin parecia estar dado a uma pilha de nervos. Não seria Sebastian quem acalmaria todos ali presentes, e sabia muito bem disso. Mais um berro e uma risada gutural, e o moreno não foi capaz de se conter por mais tempo. Era controlado, sim, disciplinado rigorosamente, mas uma onda de satisfação e euforia o tomou, diferente de qualquer outro tipo de experiência que já tivesse passado. Nem mesmo as sessões de torturas contra os inimigos de sua pátria tiveram tanto sucesso em acalentar o coração gélido de Louis Wöfflin antes; nem mesmo o garotinho que agora tentava bater no próprio primo por conta de um chocalho. Se o moreno fosse se concentrar verdadeiramente nos sons que faziam parte da sinfonia da cacofonia na qual a mansão dos Wöfflin se tornara, poderia praticamente adivinhar que Kile e Rabastan já não estavam mais no colo de Julia, e provavelmente estariam tropeçando naquele exato momento em direção à escada, não fosse Bridget, que gritava para que tomassem cuidado.
Ignorou os próprios pensamentos, subindo as escadas com mais agilidade do que achava necessário, mas incapaz de fazer algo a respeito. Por um momento, assim que chegou à porta onde Whilhelmina deveria estar, segurando o mais novo filho deles, Louis pôde sentir o coração falhar, a garganta secar e as mãos, sempre tão decididas e ágeis, suarem de nervoso. Negou tão logo teve a oportunidade, revirando os olhos para si mesmo. Não era como se fosse um grande passo; ele sempre estivera dois à frente de qualquer um no tabuleiro. Não era como se a sua vida agora dependesse de não só uma, mais duas criaturas que poderiam feri-lo sem sequer tomarem ciência disso. Não, não era. Estava sendo um maldito emotivo, coisa que ele detestava, que não lhe trazia sequer um mísero benefício na guerra ou para proteger sua pátria —— ou, mais importante, para suprir suas necessidades básicas para com a morte de certas pessoas. Portanto, sem mais delongas, pressionou uma das mãos sobre a maçaneta, girando-a com decisão para abrir a porta e, pela primeira vez desde que Marveille, sua irmã mais nova, morrera, o Wöfflin se viu sem palavras. Os olhos arregalados tomaram conta de uma expressão antes comedida e séria. À sua frente, junto a um grupo de elite dos melhores enfermeiros e médicos que o dinheiro poderia pagar, estava a mulher que tornara tudo possível para ele; até mesmo a própria redenção, por mais piegas e dramático que aquilo lhe soasse.
Ainda que estivesse exausta, Whilhelmina se recusara a descansar antes de poder tomar a filha —— não um menino, como estavam esperando por conta dos exames, que pareciam falhar incessantemente, a propósito —— nos braços, e ainda se recusava a deixar que qualquer um tomasse aquele bebê diminuto, cuja mão agora apertava seu dedo mindinho com alguma força. Um choro esganiçado, dessa vez pertencente à mais velha, tomou conta do ambiente, transmutando-se em uma risada enquanto fitava a filha, com lágrimas nos olhos. Por segundos que mais pareciam horas, Louis manteve-se no portal do quarto, incapaz de esboçar qualquer reação inteligível. Não sabia como, em questão de segundos, já estava ao lado da mulher, sem jeito de chama-la, de tirá-la do transe que o bebê parecia tê-la refém. Foi só quando a criança passou a encará-lo —— os grandes olhos azuis gélidos, que refletiam os seus em muitos níveis ——, que a morena enfim levantou o olhar, só percebendo a presença do marido naquele momento. Ele tentou esboçar um sorriso para a morena, mas há muito já desistira de expressar qualquer ato de satisfação que não fosse um aceno de cabeça; sorrisos nunca fizeram parte das coisas que figuravam no rol de manias de Louis, e não seria agora que… “Soldado, gostaria de segurar a sua filha?” As palavras pouco cansadas e brincalhonas de Whilhelmina, sempre utilizando do apelido nada lisonjeiro que ela o dera desde o dia em que se conheceram, ancoraram-no ao chão, e, antes que o moreno pudesse perceber, ele já sentia os dedos, braços e todas as fibras de seu ser implorarem para que ele tomasse a filha nos braços —— uma parte de seu cérebro perguntou a si mesma sobre a origem do sexo do bebê, uma vez que, como os exames diziam, deveria ser um menino.
O temido capitão Wöfflin, sempre tão astuto, sempre tão exigente e calculista, tão frio e sádico, tremeu naquele momento, tomando o pequeno embrulho entre os braços, já isenta de qualquer sangue em sua tez —— longe de ser como ele, ele esperava —— e qualquer resquício que pudesse indicar ter acabado de nascer. Uma breve olhadela para a criança, um pequeno olhar de satisfação dela por estar nos braços do pai e Louis quebrou. Simplesmente quebrou, incapaz de conter o meio sorriso ou as poucas lágrimas que escaparam de seus olhos, umedecendo os lábios enquanto tentava não apertar muito a criança. A garganta parecia ter secado novamente, e ele estranhamente não se incomodou com aquele mísero detalhe. Ela, aquela garotinha, parecia ser a única coisa que importava no mundo para ele, e o Wöfflin não a deixaria sair de seu campo de visão tão cedo, obcecado com a segurança dela, com as pessoas à sua volta e incapaz de conter o breve ciúmes paternal que lhe tomou conta. Não sabia por quanto tempo ficara parado ali, incapaz de se mover por um centímetro sequer enquanto aninhava a menina que ainda não possuía um nome no colo. Talvez estivesse ali por horas, mas não parecia ter sido o suficiente para si quando outras pessoas passaram a encher o quarto onde Whilhelmina —— sua Whilhelmina —— se instalara.
O andar de baixo, aonde os familiares e amigos estavam, absorveu a animação e euforia no instante que os potentes pulmões da mais nova Wöfflin encheram a sala com seu choro fino, porém exigente. Os familiares não podiam ser definidos como aconchegantes ou carinhosos, mas todos sorriram quando Louis abandonou os convidados e seguiu o choro da filha ignorando a tudo e a todos em seu redor. Todos sabiam que, apesar da postura rígida do capitão —— ou ex-tenente ——, ele era completamente devoto à esposa e à sua família. Todos estavam verdadeiramente felizes pelo acréscimo. Sebastian e Bridget esperaram algum tempo, dando espaço para que os dois conhecessem a própria filha, e então seguiram os passos de Louis, com o pequeno Rabastan no colo da morena. Assim que alcançaram o aposento, Bridget perdeu o fôlego com a cena a sua frente, porém, ao invés de soltar um dos seus gritinhos eufóricos, ela apenas agachou, colando o menino no chão, e indicou com os dedos a figura dos pais. “Rabastan, olha só a mamãe e o papai!” Ela introduziu, porém o menino parecia um tanto intimidado, mesmo que os dois à sua frente lhe fossem muito conhecidos. Foi Mina, com uma voz pesada de cansaço que preencheu o vazio, estendendo o braço para o filho. “Vem conhecer seu irmãzinha, querido.” E assim, com passos vacilantes o primogênito do casal alcançou a cama, e se a escalou com certa dificuldade até alcançar os pais e o pequeno pacotinho que seria sua irmã. “Rapha? Cadê o Raphael?” O moreno testou, sem ter muita certeza do que fazer, enquanto vasculhava os panos à procura do seu boneco de ação preferido —— isso é, quando o Chewbacca ou o Han Solo não estavam disponíveis ——, Raphael, a tartaruga ninja. Os olhos de Whilhelmina brilharam parcamente, sabendo que Rabastan, em sua inocência, tinha escolhido o nome por eles. A cena não podia ser mais tocante, e Sebastian tomou a esposa pela cintura, os dois se sentindo privilegiados por simplesmente poderem observar a felicidade dos dois que lhes eram tão queridos. Bridget sorriu, e então logo tratou de checar a amiga, acariciando-lhe a testa, mas sabendo que tudo o que a amiga precisava era da sua família e de uma longa noite de sono. No entanto, nada importava de fato agora. Estavam unidos, presos naquela atmosfera mágica que acarretava a chegada de um bebê, e por mais que houvesse tanto a se fazer, naquele momento tudo era absolutamente perfeito.
☆ ☆ ☆ Out of character: ☆ ☆ ☆
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Just one chance, justo ne breath . Just in case there’s just one left Cause you know. you know. Y O U K N O W
Os raios de sol adentravam as enormes janelas do palácio, dando ao ambiente aquela luz dourada de fim de tarde, deixando o clima ainda mais mágico do que já era. Não que fosse necessário, afinal um casamento, em um palácio, com membros de uma família real já era bastante surreal, principalmente para Mina e Bridget, duas jovens que vinham famílias humildes e berços nada nobres. O engraçado, é que apesar das duas terem participado de uma seleção aonde elas competiriam para se casar com um príncipe e quem sabe se tornarem rainhas, elas nunca imaginariam que esse destino era uma realidade. Bridget, terminara de se arrumar horas antes e agora auxiliava a melhor amiga em cada detalhe do grande dia de Mina. Maquiagem, cabelo, unhas… Era como voltar ao primeiro dia da seleção só que melhor, porque dessa vez ela sabia muito bem quem a esperaria no outro lado do salão e não era o príncipe pela qual a médica nutria tanto desgosto. Não… Apesar de Louis *ser* um príncipe, ele era um tenente, ou soldado como Mina gostava de chama-lo. Louis preferia os títulos militares que aos de nobreza e até nisso eles pareciam combinar perfeitamente.
Mina era decidida, firme e seria uma ótima rainha quando chegasse o dia, mas se Bridget pudesse apostar ela diria que Mina nunca quisera carregar uma coroa e ser adorada por súditos. Ela era mais do tipo que prefere mudar o mundo nos bastidores, arregaçar as mangas e arrumar o que precisava ser arrumado com as próprias mãos e não meio a jantares e politicagem. Já Louis era disciplinado e queria servir a seu pais nos campos de batalha e eles se completavam de uma maneira que parecia quase impossível, como se fossem feitos literalmente um para o outro. Assim como Louis, Mina não queria ser amada por muitos, ela queria ser amada por uma pessoa só, e ela conseguiu, já que apesar do jeito frio e distante do tenente, Louis a amava incondicionalmente e todos podiam ver isso em cada pequeno gesto do suíço, já que ele não era dado a muitas demonstrações de afeto.
Bridget e Mina riam de bobagens, trocavam confidencias e enchiam o quarto como se estivessem na festa do pijama de anos atrás e não a horas de se tornar uma sra. Wofflin. Era a forma um tanto peculiar de assegurar que o matrimonio não mudaria em nada a relação entre as duas, na verdade nada seria capaz de mudar o estranho laço que as uniu desde o primeiro dia que se conheceram, em um castelo tão diferente daquele do outro lado do oceano. Disputar pelo menos homem não havia as sepado, mas sim as unido ainda mais e hoje o fato era apenas algo que as fazia rir, a diferença politica das duas nunca as separou, na verdade ambas cresciam muito trocando pontos de vistas que só as faziam crescer e amadurecer de maneira que poucas pessoas conseguem, a distancia não fora capaz de separá-las, já que depois que Mina fugira com Louis para Suiça, Bridget e ela sempre se correspondiam por cartas até que por fim Bridget se mudara para perto da amiga, e agora com o casamento isso continuar não interferindo, porque elas eram amigas, quase irmãs e assim seria até o final dos dias.
Quando chegou a hora de vestir o vestido de noiva, Bridget precisou morder os lábios para conter o soluço de ver sua amiga em um vestido alvo e elegante, que a transformara da selecionada desbocada para uma respeitosa princesa da Suiça… Mas não durou muito, já que a amiga em segundos soltou algum comentário cheio de ironia o que fez a morena sorrir, agradecida de que algumas coisas nunca mudariam. Elas se abraçaram, e logo depois Laurel, a cerimonialista bateu a porta, indicando que estava na hora. Elas trocaram um sorriso que dispensava qualquer explicação, e então Bridget pegou um buquê e saiu em direção a porta do palácio, aonde um carro as levaria a uma igreja bem tradicional.
O estilo antigo da capela seguia o padrão barroco da época em que fora construída e apesar das pinturas extremamente realistas, Bridget que sempre adorou arte, pode reconhecer pinturas detalhadas do anjo Miguel em uma parede e do anjo rebelado em outra parede, como dois opostos, e a dançarina foi incapaz de conter o pensamento de que a capela era o lugar perfeito para que os dois trocassem seus votos, afinal a história dos dois tinha passado pelos dois extremos, do céu ao inferno até que por fim eles conseguissem estar aqui hoje, fazendo seus votos de amor eterno. A caminhada para a dama de honra foi curta, afinal não era ela que todos estavam ávidos para ver, mas fora cumprida o suficiente para ver rostos conhecidos de amigos, como Peter e Irina com seu bebê de colo, Brienne, Phillip, Killian, Lizzie, Ciprian, Alais, Kol, Odessa, Vlad e Morgana… Pessoas que fazem parte da vida de Mina e assim como eu estavam emocionados de poder compartilhar esse momento com a morena. Quando a marcha nupcial começou a tocar, quando todos se viraram para ver o quão linda Mina estava, Bridget olhou para Louis a tempo de ver seus olhos brilhantes deitar sobre a noiva e sorrir, sentindo o coração inchar de alegria pela amiga.
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(( Angeel sua linda, feliz aniversário!! Eu sei que a gente tinha prometido turnar isso, mas é que eu essa cena precisava existir e achei que seria uma boa forma de dizer o quanto eu te admiro, quanto acho nossa amizade especial e como eu quero que nossa amizade dure pra sempre!! Mas os presentes não param por aqui então segura a emoção que tem mais <333 ))
chris wood in a new containment trailer.
Only together can we defeat our demons and save our family.
I know I’m not what you expected.
minat-sheet:
Era estranhamente doloroso dizer-lhe aquelas palavras, quase como se eu estivesse ferindo a mim mesma; arranhando a pele aos poucos, machucando-a devagar com instrumentos contundentes. Louis não deveria significar muito para mim — sequer sabia seu sobrenome, se fosse completamente sincera — mas era como se tivéssemos desenvolvido um estranho laço; sentia-me presa a ele — ligada — um tipo de vínculo que não havia compartilhado com ninguém até então. Mas por que justamente com o guarda? Por que nestas circunstâncias? — Às vezes acho que você subestima minha capacidade intelectual — falei, infeliz justamente por ter entendido o ponto central da conversa. Ainda que não quisesse ser rude com o tenente, essa era a única alternativa que ele me deixava, uma vez que suas palavras evidenciavam que qualquer coisa que eu estivesse nutrindo em relação a ele não encontrava correspondência nele.
Em minha tolice, cheguei até mesmo a acreditar que o moreno poderia se voltar contra minhas ordens. Esperava desesperadamente que o fizesse. Francamente, eu queria que ele me dissesse que eu estava louca — porque eu sentia como se estivesse — e que dizia coisas sem sentido. No entanto, como o bom soldado que era, Louis simplesmente acatou. Senti as lágrimas mais uma vez brotando em meus olhos, o que fez com que eu desviasse o rosto em direção à cama — antes tão perfeitamente ajustada, agora desfeita pela minha passagem — para que o guarda não visse que ele tinha poder sobre as minhas lágrimas; isso com apenas três palavras. — Ótimo — retorqui, não podendo deixar de pensar que a vida de Louis seria como aquela cama se eu continuasse a perturbá-lo, e eu não tinha o direito de fazer aquilo com ele.
Contudo, a expressão de desespero foi rapidamente substituída por uma de descrença assim que Louis mostrou seu lado mais cínico. Ele acaso estava zombando de mim? Não se importava com meus conflitos internos, sequer entendia minhas motivações. Jamais saberia, pois não podia revelar-lhe o que estava acontecendo, tampouco o que estava sentindo; primeiro, porque não confiava em ninguém para compartilhar meus planos — nem mesmo Bridget, que era a pessoa mais próxima naquele palácio — e, segundo, porque não precisava que me dissesse com todas as letras que não se importava comigo daquela forma. Ou melhor: que não se importava comigo. Ponto. Outra resposta atravessada seria o suficiente para que meus pensamentos permanecessem seguros, assim eu pensava. — Estou um tanto cansada do seu jeito prático, soldado. Então, se não se importa, eu pediria que, só por um instante, parasse de encarar os fatos tão friamente. — A verdade era que eu implorava internamente que ele se mostrasse mais humano para mim; eu precisava disso. No entanto, cada frase sua só reafirmava sua personalidade gélida. — E já que não entende de metáforas — que dirá de sentimentos — vou lhe clarear as coisas: estou pronta para me apaixonar pelo príncipe, e, se assim ele quiser, me casar com ele. Irei amá-lo, não apenas como sua súdita, mas como sua esposa. Não me ocorreu que possivelmente Louis não se importava com meus planos futuros, que não faria a mínima diferença em sua vida o que eu havia acabado de lhe dizer, mas lhe dizer fazia com que eu me sentisse mais firme em meus propósitos; parecia a única forma de fazer com que aquilo desse certo.
— E se fosse? — Tive vontade de revelar-lhe absolutamente tudo. O porquê de eu estar ali, as motivações para que quisesse me tornar rainha, as razões — além das óbvias — pelas quais não podia continuar com o que quer que estivéssemos fazendo. Sim, tudo por Illéa. Absolutamente tudo. Eu estava pronta para sacrificar minha felicidade a fim de tentar mudar aquele país desgraçado pelo déspota que ocupava o poder — nenhuma das outras selecionadas o faria, faria? A causa era maior do que qualquer paixonite que eu pudesse cultivar. Abrir mão de Joshua era o mesmo que abrir mão de Illéa, e muita gente já havia feito este último. Eu não precisava ser mais uma. Porém, tinha de encarar a possibilidade de que o príncipe poderia não me escolher, e então de nada valeriam meus sacrifícios.
A duras penas estava eu aprendendo que a teimosia do tenente se equiparava à minha própria — e eu que pensava que jamais me depararia com alguém assim. Não importava por quanto tempo permanecêssemos discutindo, nenhum dos dois daria o braço a torcer. Sua pose de indiferença só tornava tudo pior, e era mais do que eu podia suportar. Não importava o quão forte tentava ser, minhas estruturas estavam mais que abaladas pela presença do moreno. A porta parecia, literalmente, a única saída, não fosse seus braços ágeis me impedindo de atravessá-la. O baque foi o único som que reverberou no espaço por algum tempo e antes que eu meus protestos iniciassem a mão do guarda cobriu minha boca, tornando difícil até mesmo a respiração. Irritada com a situação como um todo, fiz a coisa mais primitiva e irracional que poderia fazer numa situação como aquela: mordi a mão de meu algoz — sim, algoz, haja vista que ele havia acabado de me trancar no quarto; eu já podia falar que havia sido sequestrada. — Você é doente — falei tão logo a mão foi afastada, ainda que, para meu crédito, tenha sussurrado. Estava esperando que o tenente engolisse a chave do quarto depois de toda aquela cena, mas ele simplesmente a depositou no bolso traseiro.
A súbita aproximação tornou mais difícil respirar do que quando sua mão estava impedindo a passagem do ar. Senti o ar quente de sua boca acariciar minha orelha, não dando atenção às palavras em si, mas à sensação, incapaz de fazer qualquer coisa que não fosse fechar os olhos e fingir que estava dizendo qualquer coisa que não envolvesse Joshua. No entanto, ele não permaneceu ali por muito tempo, se afastando propositalmente, eu supunha; ele também tinha dificuldades de respirar quando estava muito próximo. — Tenho que voltar aos meus aposentos, soldado. Eu ordeno que abra essa porta. Agora. — disse, no melhor tom autoritário que consegui. — Você me deve obediência, não? Posso ser, hm, sua futura rainha. — Era estranho falar isso para Louis. Não, estranho não, era ridículo. E era o meu melhor argumento no momento. — Suponho que não vá querer uma rainha como inimiga. — esta última frase soou exatamente como eu queria que soasse: como uma ameaça. E foi por isso que suas palavras só me deixaram mais desconcertada. Ele queria me proteger enquanto eu o ameaçava — ameaças vazias, obviamente, mas ainda assim ameaças — o que era perfeitamente normal vindo dele.
Fiquei em silêncio enquanto arrumava a cama, colocando no lugar o que eu havia bagunçado. Cheguei quase a achar graça de sua mania de limpeza; qual era a necessidade de arrumar aquilo imediatamente? Ele acaso era portador de Transtorno Obsessivo Compulsivo? Estava prestes a perguntar quando Louis disse que eu podia dormir na cama. Na sua cama. — Ah, não, não, não… Não acho uma boa ideia dormirmos na mesma cama… — comecei, até perceber que ele sentava no chão, numa pilha de roupas de cama que serviriam como leito. — Oh. Claro. Você vai dormir no chão. — completei, evidenciando minha decepção. O que eu estava pensando? Que ele, o Sr. Correto, dividiria a cama comigo? — Ouça, soldado: seria muito mais simples — e lógico — se você abrisse a porta e me deixasse voltar para o meu quarto e para a minha cama. — argumentei, andando de um lado a outro, sem nem cogitar chegar perto do leito. — Assim você pode dormir confortavelmente como todas as noites… — Ocorre que eu sabia que ele não me permitiria sair antes de ter certeza que os corredores estavam desertos. Eu sabia porque isso era o que eu, em minha teimosia, faria.
À contragosto — e para fugir de seu olhar de censura — caminhei cuidadosamente até a cama de Louis, me deitando e virando a cabeça na direção oposta a que ele estava, permanecendo em silêncio por um longo tempo. — Vamos dormir com as luzes acesas? — foi a primeira pergunta que me veio à mente. Me parecia irracional não dormir no escuro; na verdade eu nem conseguia, mas talvez fosse mais confortável para ambos permanecer na claridade. Eu ainda estava com as roupas da apresentação do Jornal Oficial, e com os saltos também. Chutei os sapatos desconfortáveis, ouvindo-os colidirem com o chão — o que provavelmente só irritava mais Louis ao lembrá-lo de minha presença. Até o som da minha respiração devia estar o perturbando. — Quem é ela? — perguntei de repente, encarando o retrato da morena à cabeceira da cama pela segunda vez naquela noite. — É sua namorada ou… Noiva? — engoli em seco, incomodada com a fotografia; era como se ela estivesse nos vigiando. Eu nunca tive um namorado, mas se tivesse não gostaria de vê-lo trancado no mesmo quarto com outra garota. — Ela é muito bonita. — observei, incapaz de dizer qualquer outra coisa mais.
Louis não gostaria de escutar a voz de Whilhelmina, parecia que, a cada nota que entoava, a sanidade do moreno se aproximava um pouco mais do vácuo, e ele não saberia como voltar a si, caso se jogasse daquele penhasco. Sabia extremamente bem de que seu autocontrole não era invejável, mas tentava, ao máximo, ser alguém melhor, esconder a besta que habitava dentro de si e todas as implicações que vinham com ela, como, essencialmente, a necessidade de matar e fazer com que outrem sofressem. Por vezes, Louis saciava sua vontade voluntariamente; em outras, entretanto, ele acabava por machucar as pessoas que mais lhe importavam inocentemente. Fora assim com Julia; fora assim com Sebastian e com Candice. Ele realmente não desejava acrescentar mais uma pessoa ao rol de feridos por conta de sua personalidade pouco afável. Bufou, levando uma das mãos à ponte do nariz enquanto o massageava, francamente cansado com todo aquele teatro. “Acredito que até a superestimo, senhorita. Não me dá muito com o que trabalhar.” Murmurou seriamente, sentado de forma rígida no chão do quarto enquanto encarava a mulher, os olhos vigiando cada ação que pudesse ter; a mente, calculando probabilidades que teria de pegar a chave de seu bolso e fazer um escândalo. Não, Louis não permitiria que aquilo acontecesse. Sua honra estava em jogo, mas não só isso. A vida dela também entrava em pauta, e ele simplesmente não queria machuca-la, ao menos fisicamente.
Assim que Whilhelmina o fez outra ordem, entretanto, Louis meramente deu de ombros, assentindo uma única vez enquanto tornava a se levantar para pegar o livro e pô-lo no devido lugar. Seu quarto jamais poderia deixar a completa e extensa ordem; já era realmente enlouquecedor que a morena estivesse ali, bagunçando não só o ambiente, mas seus próprios pensamentos, ele simplesmente não podia se dar ao luxo de perder mais território para ela; o enlouqueceria, e Louis não era a pessoa mais afável quando irritado. “Como quiser, senhorita.” Respondeu friamente, repondo o objeto em seu devido lugar e retirando a poeira do móvel em questão com um dos dedos. Qualquer coisa seria o suficiente para transladar a atenção de Louis; não desejava pensar no outro corpo quente naquele quarto, no que poderia fazer e no quão extasiante o perfume que usava parecia ser. Franziu o cenho, cerrando os olhos e os punhos forçosamente para que se obrigasse a pensar em qualquer coisa, mas tão logo Whilhelmina tornou a falar, ele sabia que não poderia ignorá-la --- ao menos aquela tentativa em especial tinha sido falha. Antes que pudesse se controlar, Louis já havia virado o rosto na direção da morena, o esforço evidente para não demonstrar reações inadequadas para um tenente exemplar como ele. Ela desejava Damon, correto? Então ela o teria. Engoliu, levantando uma das sobrancelhas de forma sarcástica, mas não se deu ao trabalho de responde-la da forma adequada, dizendo para si mesmo que não valeria a pena arguir com uma reles selecionada, quando, em seu subconsciente, sabia que, se abrisse a boca para falar algo, ele acabaria por rir histericamente de toda aquela situação. Todavia, antes que tomasse ciência de suas ações, já estava falando, novamente. “Um belo casamento para vossas altezas. Torço pela felicidade de ambos.” Levantou uma das sobrancelhas, não dando muita importância ao assunto enquanto voltava ao seu lugar de direito, sentando-se desleixadamente no chão, o que o dava uma visão periférica quase total para o quarto, em especial para a cama onde Whilhelmina deveria estar sentada, cumprindo com as suas ordens para o próprio bem.
Deixou uma bufada de ar escapar uma última vez, levantou a mão apenas o suficiente para que pudesse enxergar a mordida em formato de meia lua. Não doera tanto quanto Whilhelmina provavelmente desejaria, mas era uma marca que o lembrava dela, portanto desejava que logo se dissipasse, assim como aquela maldita Seleção, como seu maldito estágio em Illea. Logo, poderia voltar para a Suíça e assumir as forças militares do país natal, esquecendo-se de tudo o que o mantivera longe da retidão que o pai almejava para o futuro governante suíço. Antes que pudesse pensar uma segunda vez sobre o assunto, enquanto traçava os dedos da mão que não fora mordida na outra, sentindo o relevo pulsar sofregamente, Louis levantou os olhos para a morena, uma expressão pétrea na face ao levantar a mão à altura do rosto. “Me parece que a canibal aqui é vossa senhoria, Whilhelmina.” Arqueou uma das sobrancelhas, empregando o tom mais jocoso que conseguia, apesar de não ser muito efetivo --- boa parte das falas de Louis careciam de um sentimento que as transmutassem, então a literalidade era a sua melhor amiga em horas como aquela. “Antes que me responda atravessadamente, eu já lhe informei: você não sai daqui até que eu tenha certeza de que é seguro. É a única ordem que não pretendo corresponder à altura, senhorita.” Engoliu, assentindo uma única vez enquanto cruzava os braços, a mão que fora mordida perigosamente próxima do coração por conta do cruzar. “Nunca seria a minha rainha.” Ponderou, por fim, negando lentamente de maneira contundente. Talvez Whilhelmina chegasse à Elite, fosse escolhida como companheira de Joshua --- o que, francamente, Louis realmente não desejava pensar sobre ---, mas jamais seria a sua rainha. Ele não era illeano, tampouco tinha intenções de se firmar como um. A lealdade que devia à Gregory era passageira, unicamente para que sua honra se mantivesse intacta, mas não duraria mais de dois anos, e então ele poderia voltar para a Suíça, reatar os laços com a irmã e, com sorte, ignorar toda a história com a madrasta. “De fato, senhorita. Mas, ao meu ver, estou lhe fazendo um favor ao proteger a sua reputação.” Ergueu uma das sobrancelhas, cruzando os braços mais fortemente enquanto os punhos se cerravam com mais força do que o habitual e o maxilar trincava. Louis, entretanto, desejava passar uma expressão tranquila, uma atmosfera tranquila --- o que não lhe apetecia muito, mas precisava acalmá-la, do contrário não conseguiria ficar no mesmo quarto da morena durante o restante da noite e tudo, exatamente tudo, pelo que tinha batalhado, assim como a vida dela, seriam desconsiderados.
Negou brevemente quando Whilhelmina passou a arrumar a sua cama --- nunca a ajeitaria da forma padronizada de Louis; o militarismo tinha várias vantagens, o asseio era uma delas. “Evidente.” Retrucou, franzindo o cenho levemente enquanto se encostava na parede, tentando relaxar um pouco os músculos em uma situação que, claramente, não inspirava sequer um pingo de relaxamento. “Esperava que eu a ninasse, Whilhelmina?” Deixou a pergunta escapar, franzindo o cenho, a seriedade implícita em todas as suas palavras, ainda que, à primeira vista, elas soassem irônicas, se lhe retirasse o contexto. “Não tenho tempo para isso. No momento preciso que você siga as minhas diretrizes, e então não só eu, como você, nunca mais nos veremos --- e poderá guardar seu primeiro parceiro de cama para seu futuro marido, o rei de Illea.” Terminou, respirando fundo o suficiente ao final da sentença para que ela não notasse o mísero tom do que quer que o tivesse deixado daquela forma. Aquele simplesmente não era Louis, e Whilhelmina o estava conseguindo tirar da normalidade. Ele era um ser calculista, frio, que calculava todas as variáveis antes e todos os riscos também. Não contava, entretanto, com o fator humano, e a morena o representava de forma latente. Ignorou a última pergunta da morena, bufando ao se levantar para buscar uma peça de roupa de cama, que lhe serviria de edredom --- por mais que duvidasse de que Whilhelmina fosse usá-lo, realmente. Ele só precisava que cobrisse o corpo --- era disciplinado, mas ainda sim um homem, e não poderia ignorar as curvas da mulher por muito mais tempo.
Deixou as roupas de cama cuidadosamente empilhadas ao pé da cama, ignorando qualquer reação de Whilhelmina --- se fosse completamente sincero consigo mesmo, ele precisava ignorar, já bastava de farpas e de qualquer coisa que o ligasse à morena. Precisava de paz. Liberdade daquele encarceramento forçado. Precisava que o horário da patrulha se dissipasse, e então poderia leva-la, sã e salva, para o próprio quarto, onde deixaria com que todas essas lembranças parassem de atormentá-lo. “Acesas. Ainda que me garanta no escuro, não quero que derrube meus livros em uma tentativa de sair daqui sem que eu deixe.” Afirmou, calmamente, mas antes que pudesse fechar os olhos para que ao menos pudesse fingir descansar, a menção a uma outra mulher em sua vida fez com que Louis abrisse os olhos e se levantasse, tomando a fotografia entre as mãos para esconder de Whilhelmina. Não, ela jamais poderia saber que Louis tinha uma irmã --- assim que percebesse que era Julia, os pontos seriam ligados extremamente rápido, e ele simplesmente não desejava lidar com alguém sabendo de todo o seu passado, mesmo que esse todo pouco representasse aos olhos de muitos.
“Ela é.” Deixou escapar, monossilabicamente, guardando a fotografia em uma das gavetas da escrivaninha que havia dentro do recinto. “Também não é de sua alçada saber o que ela significa ou é para mim.” Terminou, ríspido, mas logo em seguida respirou fundo, massageando a ponte do nariz enquanto cerrava os olhos, arrependendo-se no mesmo instante. Whilhelmina conseguia tirá-lo do sério de todas as formas possíveis, aquilo era incrível, até mesmo para os padrões de boa parte dos illeanos para consigo. Umedecendo os lábios, Louis por fim se virou diretamente para a illeana, engolindo com alguma dificuldade enquanto ponderava o que fazer com toda aquela situação. “Desculpe, senhorita. É um assunto particular. Não me vê perguntando sobre seus interesses, vê?” Franziu o cenho, cínico. Por fim, simplesmente assentiu uma única vez, voltando à sua cama improvisada e se deitando próximo à porta, para que, nem que obtivesse a chave, Whilhelmina conseguisse passar por ele. “Tente dormir um pouco, Whilhelmina. Foi um longo dia.” Murmurou, mais para si do que para ela, já que era certo que Louis não conseguiria dormir enquanto ela estivesse ali, especialmente porque o travesseiro parecia ter irritantemente escolhido justo aquele momento para absorver o perfume da morena.
Seria uma longa noite, mas, assim que o horário bateu, não teve a verdadeira coragem de acordá-la. Whilhelmina parecia tão diferente da mulher esquentada e raivosa que era quando dormindo. Parecia até mesmo pacífica, por mais que Louis não visse como um dia a morena pudesse se apresentar daquela forma. De toda forma, tentou carrega-la sem muitos solavancos --- não era tão pesada quanto parecia, e ele também era capaz de carregar muito mais do que aquilo. Esquivando-se de todas as rondas, finalmente conseguiu leva-la ao seu quarto, depositando-a na cama sem muita cerimônia. Não era seu príncipe, tampouco gostava dela, mas não foi capaz de deixar de sorrir --- a própria versão de sorriso, nada encantador para os leigos, ao notar Whilhelmina se encolher um pouco mais assim que a depositou em seu lugar de direito. Ali, até parecia que aquela menina não pusera todo o reino de Illea de cabeça para baixo; que não o tirara do sério mais vezes do que deixaria escapar. Parecia inocente de todos os problemas que havia causado e, justamente, para Louis, era mais perigosa do que nunca. Sem esperar que acordasse, simplesmente saiu de seu quarto, o coração batendo forte por conta da situação em que se pusera, enquanto caminhava, uma mão segurando a outra, ainda pulsando devido à mordida.
Turno Encerrado
HAPPY BDAY, BIBS!
Louina / Older!Louis Birthday - aesthetic
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“You’re right. I am a liar. I’m the black sheep. The defective twin. That nobody wanted.” - Kai Parker
When enemies are at your door I'll carry you away from war || Louis & Mina
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— Ótimo. Então deveria estar descansando. — soltei, assim que ele falou que já havia passado na enfermaria, levemente irritada por não me sentir mais útil. Era doentio da minha parte pensar assim, mas sentia como se Louis dissesse que não precisava de minha ajuda. Que não precisava de mim. Mas poderia ao menos repreendê-lo, como fazia com os pacientes de Hondurágua que se mostravam resistentes ao tratamento. — E não vai adiantar se você continuar se movimentando e mexendo com a ferida. — ri um pouco de sua teimosia. Se eu fosse seu médico ele certamente já estaria amarrado em uma maca. — O recomendado seria que não desempenhasse suas atividades por uma quinzena, pelo menos — frisei, revirando os olhos em seguida — mas sabemos que isso não vai acontecer. — Deixei o ferimento de lado assim que o ouvi puxar o ar, como se algo o estivesse machucando. Ele havia se sacrificado por muitos naquele dia e não iria torturá-lo com minhas inspeções. — Ela em breve começará a cicatrizar. Se você permitir, é claro. — Será que as pessoas só queria o seu bem? Talvez não todas, claro, mas eu queria. Era quase como se os machucados do guarda estivessem em minha própria carne. Eu tinha de me afastar para que a dor não se intensificasse. — Fizeram um bom trabalho na enfermaria, mas os médicos – digo com segurança – contam com a colaboração de seus pacientes. — Deixei de acrescentar que ele era um péssimo paciente; ele devia saber.
Não pude deixar de me surpreender com o sorriso de Louis; era como se eu estivesse vendo-o pela primeira vez, como se ele tivesse deixado cair sua armadura impenetrável. Uma pena que o momento tenha passado tão rápido que quase duvidei se, de fato, havia acontecido, pois ele logo abandonou o sorriso, o substituindo por sua expressão usual. Percebi que queria ver mais vezes aquele sorriso, e me esforçaria para obtê-lo, por mais que fosse errado permanecer por mais tempo na presença do guarda. Eu não podia sequer ser sua amiga, já que nunca o veria como tal. Seria uma relação fadada ao fracasso, então, tinha de me contentar apenas em ser sua conhecida. Mas até mesmo isso estava me custando muito, pois eu tendia a interpretar de maneira errônea cada palavra que saía de sua boca.
“Eles te machucaram?”, perguntou o moreno, de repente, o que me obrigou a encarar seus olhos, apenas para me certificar que a preocupação era genuína; que ele se importava com o meu bem estar — e não do jeito que um guarda qualquer do palácio se importaria, mas de uma forma real —, contudo seu olhar não deixava transparecer qualquer resquício de sentimento. Era o melhor. Seria doloroso se eu percebesse que ele estava fazendo aquela pergunta porque esteve preocupado comigo durante o ataque. Não queria pensar na possibilidade de que, enquanto lutava contra rebeldes, Louis se perguntava se eu estava segura. Ao mesmo tempo, era exatamente isso que eu desejava, à minha maneira masoquista de ver o mundo. Talvez por constatar que ele não queria saber aquilo só porque era responsável por minha segurança, respondi da maneira mais sincera que pude. — Não tanto quanto você. — meu tom era baixo, mas era como se eu estivesse gritando as palavras, e não precisava de maiores explicações para que ele entendesse, eu esperava. Muito mais que os ferimentos superficiais causados pelos rebeldes, as palavras de Louis ditas naquela noite em seu quarto me faziam agonizar por dentro. E, não sabia por que, mas eu tinha de dizer para alguém, e só ele poderia ser essa pessoa. Nem mesmo Bridget sabia sobre isso ainda, por mais que ela fosse seguramente a pessoa que eu mais confiava em Angeles.
Constatei que Louis não afastara sua mão, mesmo tendo todos os motivos para fazê-lo. Assim como eu, ele queria mantê-la ali, seus dedos quase que entrelaçados aos meus — mais um pensamento masoquista de minha parte, mas eu os tinha com frequência em sua presença. — Então do que precisava, exatamente? — perguntei, reproduzindo suas palavras. Realmente estava intrigada; necessitava saber quais eram seus motivos antes que enlouquecesse. Era como se o moreno me afastasse, para então puxar novamente sem maiores justificativas; e eu estava vivendo por estes momentos. Concordei com a cabeça quando ele disse que aquele não seria o último tiro que levaria, cerrando os lábios antes que dissesse que não era esse o meu desejo. Louis não era tão mais velho que eu, se se considerasse sua aparência, mas parecia ter um senso de responsabilidade que exigia uma maturidade que eu não tinha. Ainda assim, não me sentia confortável ao pensar que em algum momento ele poderia ser atingido por um tiro e… Nunca mais se levantar. No entanto, não podia dizer a ele que não queria que fizesse aquilo; não dizia respeito a mim. Minha opinião era irrelevante; ele mesmo ressaltaria se eu ousasse fazer qualquer observação acerca disto.
Não estava preparada para suas palavras seguintes. Era mais um daqueles momentos em que ele puxava, me fazendo crer que tudo o que dizia de forma rude não passava de fingimento. Fiquei boquiaberta por um momento, até que ele colocasse sua mão debaixo de meu queixo, exigindo que o encarasse. Pela primeira vez naquele dia me preocupei com os machucados que cobriam meu rosto, em parte por vaidade, porque ele estava olhando fixamente para eles e eu não podia fazer nada para escondê-los; noutro tanto, porque eles estavam dando motivos para que Louis se preocupasse comigo, e esse não era o objetivo. A culpa era inteiramente minha se os rebeldes haviam provocado aqueles ferimentos. Eu havia escolhido por aquilo momento em que decidi afrontá-los. — Não cabe a você essa responsabilidade. — falei séria, encarando-o de baixo, já que sua altura era muito superior a minha. Ocorre que eu não me importava realmente com o fato de ele parecer superior, por mais estranho que isso pudesse parecer. — Eu te libero da sua promessa. — respirava com dificuldade, em razão da proximidade. Era como se Louis subtraísse todo o ar para ele mesmo, o que chegava a ser doloroso, se não fosse tão bom. — Já disse, mas posso relembrá-lo: não preciso de nada da sua parte. — Juntei todos os resquícios de forças que me restavam para proferir estas palavras. Conversar com o guarda me esgotava mais do que lutar contra uma turba de rebeldes.
Louis tentara, até então, não ser rude com a selecionada; não se portar como o monstro que sabia que poderia ser, mas, ao escutar as palavras dela, o antes calculista, frio e esquemático tenente, tornou-se em algo completamente diferente. Parecia que sua maturidade decrescia a cada momento que compartilhava com a morena, todavia não via aquilo como algo completamente ruim --- era ruim, tinha que admitir, uma vez que ele parecia perder toda a racionalidade quando com a selecionada, mas havia momentos em que, se ela não estivesse por perto, talvez cederia ao seu monstro interior, clamando por sangue e sofrimento de seus algozes. Ela o impulsionava, mas o distraía, e aquilo tinha que acabar justamente ali, mas Louis não conseguia obrigar-se a falar qualquer coisa que fosse. Talvez desejasse aproveitar aqueles últimos segundos para então jogá-la em um limbo pessoal em sua cabeça, acabar com qualquer segundo pensamento ou intenção que pudesse ter tido em relação a ela durante aqueles meses. Sim, ele deveria extirpar Whilhelmina de sua vida, mas se convenceu de que poderia fazer aquilo tão logo checasse se ela estava verdadeiramente bem, além dos machucados físicos --- sabia, entretanto, que apenas estava postergando o inevitável, mas não havia outra maneira de lidar com aquilo. Vê-la sorrir parecia ser um bálsamo depois de tudo o que passou naquele dia, e Louis gostaria de manter aquele sorriso exatamente onde pertencia, mas simplesmente não podia continuar a agir como se estivesse interessado nela, portanto limpou a garganta, fazendo com que Whilhelmina se afastasse e retirasse as mãos de sua ferida, palpitante a cada pulsação de seu coração. Devia estar alucinando, e tinha quase certeza de que as recomendações de Whilhelmina seriam as mesmas de sua própria consciência; uma voz irritante que insistia em avisá-lo das implicações de suas ações; que toda ação tinha em retorno uma reação.
Não parecia se importar com aquilo, todavia, enquanto encarava a morena. Poderia simplesmente pedir desculpas, sair andando pelo corredor e deixa-la sozinha, mas simplesmente era incapaz de se obrigar àquilo, a deixa-la só depois de algo tão traumático quanto o que acabara de passar. Ele estava acostumado com aquele tipo de situação --- diabo, quantas vezes o palácio em Berna já não fora atingido? ---; ela, tinha certeza que não, precisava pensar que nunca passara por aquilo, que não estava habituada àquele tipo de corja; precisava pensar que estava segura, e se asseguraria de que estivesse, daquele momento em diante, mesmo que jamais fosse ter qualquer tipo de contato com a menina. “Eles precisam de mim antes disso, Whilhelmina.” Constatou minimamente, tentado a retribuir seu olhar, mas foi forçado a desviá-lo, afastar-se, xingando a si mesmo por tamanha impulsividade, falta de tato e compostura. Ele não era nada mais do que um tenente em Illéa, e ela era a prometida de Joshua; era errado, e não poderia ignorar a voz em sua cabeça, dessa vez; mesmo a besta interior concordava com ela, com argumentos tão contundentes e retóricos que Louis teve que concordar. ”Acredito que os médicos concordariam que devemos reforçar a segurança nesse momento, e não deixa-la à mercê de futuros ataques infelizes como esses. E eu tenho trabalho a ser feito.” Murmurou, levantando uma das sobrancelhas enquanto a morena se afastava dele ao se lembrar dos rebeldes cativos que ele e seus ajudantes haviam conseguido capturar. Não disse nada, umedecendo os lábios lentamente enquanto suspirava, muito provavelmente por conta da fadiga. Louis tinha um metabolismo forte, uma mente astuta, mas nem mesmo ele conseguiria manter-se de pé por muito tempo mais se não descansasse por alguns segundos e a verdade era que qualquer tipo de interação com a morena o exauria, tirava qualquer pingo de paciência e altivez que pudesse ter. Precisava acabar com aquilo de uma vez por todas.
Assim que a morena devolveu seu olhar, ele soube simplesmente o que havia acontecido. Haviam machucado a selecionada, podia praticamente ver os rebeldes tornando seu rosto em um saco de pancadas, e, sem que pudesse se controlar, Louis rangeu os dentes, o olhar de preocupação transmutando-se em um de fúria enquanto o punho se cerrava e o aperto no queixo de Whilhelmina se intensificava. O impulso se foi tão logo ela começou a falar, entretanto, e o tenente meramente desviou o olhar do dela, fechando os olhos por alguns segundos para apartar as imagens que vinham à sua mente, mas já sabia o que faria com os cativos; se antes iriam sofrer tanto quanto Jesus sofrera na cruz, segundo a mãe; agora, ele mesmo faria questão de se tornar o diabo de seus pesadelos, soltar sua besta interior como quando matou pela primeira vez. As palavras correram até si, mas Louis não as entendeu devidamente, franzindo o cenho com alguma falta de ciência da situação. “Whilhelmina, eu estou bem. Esses machucados em você me dizem exatamente o contrário.” Levantou uma das sobrancelhas, sentindo o curativo da última ida à enfermaria pinicar onde ele ganhara alguns pontos; onde ela os aplicara. Negou, depois de algum tempo, suspirando com alguma dificuldade enquanto tomava consciência de que estava apertando mais forte do que poderia a mão da selecionada, e ela não reclamara durante todo o percurso, portanto a soltou com alguma dificuldade --- mais psicológica do que física, se fosse completamente sincero consigo mesmo ---, sem saber como lidar com aquilo. Sabia que devia um pedido de desculpas à selecionada, mas se obrigar a dizer quase formou um nó em sua garganta, portanto ficou quieto, esperando que ela entendesse que sentia pela dor que causara à ela. Soltou todo o ar que detinha nos pulmões, sentindo a visão se turvar cada vez mais. Precisava ser rápido, se não quisesse acabar desmaiando na frente da selecionada --- que tipo de tenente respeitável ele seria se o fizesse? “Precisava...” Franziu o cenho, parando de falar antes de terminar a frase, certo de que não deveria continuar com aquela conversa sem sentido. “Não importa.” Negou com alguma fadiga, apoiando-se um pouco mais na parede do que deveria, jogando logo em seguida a cabeça para trás.
Estava sentindo como se algum tipo de rolo compressor tivesse passado por si, mas se recusava a passar a imagem de fraco, principalmente confrontando Whilhelmina; principalmente quando seu olhar repleto de expectativa buscava respostas. Soltou um sorriso pela última vez naquela noite, certo de que iria se odiar assim que se levantasse, no dia seguinte, já completamente restaurado de tudo o que passara, mas não havia outra forma de responder à mulher. Estava exausto, e falar não parecia a tarefa mais simples que poderia pensar no momento --- sua mente, aliás, começava a se fechar pela perda de sangue, pela falta de alimentação e pelo cansaço. Talvez não estivesse pensando bem --- diabo, com certeza não estava pensando corretamente ---, mas ele quis sorrir para a morena, quis mantê-la consigo por aqueles míseros minutos; tê-la para si, assegurar-se de que estava bem, mesmo que pudesse ocasionar em alguma consequência negativa para a Tearsheet. “Aí que se engana, Whilhelmina. É uma responsabilidade, mesmo que diga que não, mesmo que tente me afastar.” Franziu o cenho, respirando com alguma dificuldade quando ela completou. Não tinha visto aquele tipo de resposta vindo, mas simplesmente era incapaz de fazer o que a morena estava ordenando: primeiramente por conta de seu orgulho, jamais aceitaria receber ordens de alguém que não seus superiores e, mesmo assim, de algum mau grado que parecia habitá-lo constantemente; em segundo lugar, porque não podia deixar de se preocupar. Tentara, diversas vezes, alienar a mulher de sua mente, de suas preocupações, mas era incapaz, e aquilo o irritava mais do que qualquer coisa. “Não é sua a decisão pra tomar.” Murmurou, simplesmente, encarando-a com alguma intensidade, mas provavelmente não tão latente quanto a sua normal, então revirou os olhos. “Claramente precisa de proteção. Senão a minha, a de outro guarda.” Completou, sentindo o nó em sua garganta se agigantar a cada palavra. Outro guarda? Nenhum era digno ou melhor capacitado do que ele. Não, ninguém chegaria perto de Whilhelmina.
Estava enlouquecendo, e pensando mais bobagens do que acharia saudável, portanto simplesmente bufou ao final da frase da morena, esperando que aceitasse aquilo da melhor forma possível, que lidasse com uma clara rejeição aos seus serviços de forma madura e saudável, mas estava cansado de ser maduro, de fazer tudo calculadamente, calcular as probabilidades e implicações práticas de suas ações. Por esse motivo, Louis não pensou. Naquele momento, farto de tudo do que desistira para estar ali, de todas as coisas das quais ele teve que deixar em suspenso por conta da culpa, do asco por si mesmo, ele tomou Whilhelmina em um beijo quase tão predatório quanto a sua própria natureza; quase tão predatório quanto ele e seu desejo por sangue. Ele a desejava, admitiu, por fim. Sua preocupação com a mulher estava longe de ser apenas por conta de se importar consigo, e sabia aquilo desde o início, mas negara sempre que os instintos o chamavam; sempre que estavam no mesmo recinto. Daquela vez, entretanto, ele não pôde negar. Não a pôde rechaçar. Tonto, sem muitas forças, Louis depositou o restante de suas forças, já esvaziadas, naquela demonstração --- e ele tinha plena consciência de que se arrependeria, de que estava agindo erroneamente com ela e com Illea, mas naquele instante, não se importou ---, sentindo a pele macia de Whilhelmina em seus dedos, sugando seus lábios com uma necessidade mais do que desenfreada. Precisava daquilo; dela.
Logo depois, entretanto, sentiu a visão turvar uma única vez, e então não pôde fazer mais nada para apartar aquele assunto, aquela situação.
Funny how the heart can be deceiving More than just a couple times Why do we fall in love so easy Even when it's not right? --- Try, P!nk
Never back down || Q. & Louis + Mina [fb]
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Estava certa de que Dr. Austin finalmente cedera aos meus encantos. Agora ele permitia que eu passasse mais tempo na enfermaria, auxiliando-o nos atendimentos, vistoriando remédios, bem como pesquisando sobre os mais adequados, tudo o que jurou que jamais permitiria que eu fizesse, na primeira semana da competição. Eu não havia entendido na época, quando ele disse, de maneira cuidadosa: “a senhorita agora é praticamente parte da realeza. Não deve se importar tanto com seu ofício”. Austin, afinal, era um Três muito bem educado — provavelmente proveniente de uma família tão rica que poderia comprar um passe para a Dois — e até mesmo na hora de me dispensar ele fora gentil. No entanto, eu não podia desistir. O que mais faria em minhas horas livres no palácio? Que eram muitas, por sinal, tendo em vista que meus encontros com Damon estavam longe de ser numerosos — e eu estava grata por isso.
Ao longo de todo o mês, decidi que escaparia do salão das mulheres e ficaria na enfermaria, seguindo Dr. Austin de um lado para o outro, lhe importunando com meus questionamentos infindáveis. Depois de um tempo, o médico se acostumou à minha presença, percebendo que eu poderia ser tão competente quanto seus outros ajudantes. Era um alívio me sentir útil. A verdade era que eu não servia como princesa e não me via como princesa. Princesas estavam constantemente envolvidas em futilidades que não eram de meu interesse e não me proporcionavam a metade do prazer que o trabalho na enfermaria me dava.
Naquela tarde, pensei que as coisas seguiriam seu curso normal: uma queimadura na cozinha; um guarda que se machucou na área de treinamento; um paciente com enxaqueca ou dor de estômago; coisas que estávamos habituados a lidar, e que tornavam o trabalho levemente tedioso, dada a quantidade de vezes que se repetia no dia. A enfermaria acabava se tornando um bom lugar para se isolar do restante da realeza e das selecionas, também; era uma espécie de refúgio para mim. Mas descobri que ele não era tão seguro quanto eu pensava, nem livre das coisas que eu queria evitar, quando Louis atravessou a porta. Tentei agir como se aquilo não me afetasse — os ferimentos, recém abertos, estavam por todo o rosto; sangue escorria do supercílio e do nariz, e por mais que eu não vislumbrasse nada grave, aquilo me perturbava — já que não éramos os únicos naquela sala.
Dr. Austin e os enfermeiros imediatamente correram em auxílio do príncipe Quentin, que parecia estar tão machucado quanto o guarda. Me aproximei do príncipe, ignorando a presença de Louis. Por mim, ele podia definhar ali mesmo. — Eu posso cuidar do príncipe Quentin, doutor. — pesquei um par de luvas de látex dentro de uma gaveta e já estava pronta para pegar o algodão, quando o médico disse: “O príncipe precisa de cuidados especiais, Mina. Mas você pode atender o guarda”, e então tomou meu lugar junto ao francês, não me deixando alternativa que não me encaminhar até a única pessoa que eu queria evitar, caso contrário, perceberiam minha hesitação, e fariam perguntas; tudo o que eu não precisava. Esperava que Louis tivesse ouvido Dr. Austin se referir a ele como guarda, talvez parasse de ser tão irritante com aquela história de tenente.
Me posicionei à frente do moreno sem dizer palavra, pegando seu maxilar e movendo-o para ambos os lados, a fim de diferenciar que tipos de ferimentos ele tinha conseguido. As lesões não eram profundas, e bastaria uma limpeza superficial para que não infeccionasse, no entanto, o guarda merecia sofrer um pouquinho. Eu não havia esquecido — e estava certa de que não esqueceria tão cedo — a maneira como me tratara naquela noite em seu quarto. E eu teria minha pequena vingança. — Não se mova — falei simplesmente, encharcando o algodão com álcool. Tinha plena consciência de que não se podia verter a substância sobre uma ferida aberta, pois isso poderia danificar o tecido e o processo de regeneração, mas ignorei essa informação quando me virei para limpar os ferimentos de Louis, fazendo questão de forçar o algodão no supercílio, para que ele sentisse a dor em dobro. — Parece que está ficando tão estúpido quanto eu — falei finalmente, tão baixo que duvidava que o próprio Louis estivesse ouvindo. Me foquei nos ferimentos, e não em seus olhos, certa de que iria vacilar se o fizesse. — Eu apenas xingo príncipes. Ainda não bati em nenhum. — Não sabia o que havia acontecido entre o príncipe e Louis e, por mais que a curiosidade estivesse me matando, não perguntaria. Porque, sim, estava óbvio que eles haviam brigado. — Deveria aprender comigo, soldado.
Sua vontade verdadeira era a de dar a meia volta e se afastar o mais rápido possível da enfermaria, mesmo que estivesse começando a sentir as dores que despontavam onde o francês o fizera o favor de socar ou jogar contra o vidro da estante. Desde o episódio em seu quarto, fizera o possível para se afastar de qualquer possibilidade que acaso viesse a ter de esbarrar com Whilhelmina pelos corredores do palácio; o possível para afastar os próprios pensamentos e vontades nada ortodoxas – nada deveria acontecer, e ele estava certo de que, caso não se encontrasse com ela, ele conseguiria se controlar, acalmar a besta que habitava dentro de si, buscando destruição e caos. Desviou o olhar do da morena infimamente, fazendo uma careta que provavelmente seria confundida com outra coisa ao virar o pescoço, pretendendo não continuar com aquela idiotice. Estava prestes a resmungar uma ordem a um de seus soldados – que o soltasse, evidentemente, e o liberasse daquele tormento; poderia muito bem cuidar de seus ferimentos por si só, mas não era um médico e o trabalho de um era requerido – quando escutou pela primeira vez em semanas a voz de Whilhelmina. Foi fácil se esquecer da presença de Quentin até que a ouvisse chama-lo pelo seu título nobiliárquico, mas, por alguns meros segundos, o moreno não se recordou de que Whilhelmina não sabia quem ele era, o que gerou uma expectativa nada lisonjeira para si. Expectativa essa que foi posta água abaixo quando percebeu que não estava falando dele, mas sim do francês, e Louis desejou bater sua cabeça na parede tão logo voltou a si. Não devia esperar nada de Whilhelmina, tampouco ela dele, então tentou matar toda e qualquer reação naquele local.
Bufou, dirigindo-se a uma das macas depois de dar ao Boucher um último olhar ameaçador. Ainda não tinham acabado a pequena peleja que travaram poucos minutos atrás, e sentia realmente que seu oponente compartilhava do mesmo sentimento de asco – talvez devesse se perguntar o motivo de tudo aquilo, mas Louis estava com a cabeça mais quente do que acharia saudável. Foi apenas quando percebeu que a selecionada estava vindo em sua direção, entretanto, que Louis soube da gravidade da situação na qual estava se pondo. Por um momento, cogitou a possibilidade de se levantar da maca e sair do lugar, mas esquadrinhou o ambiente tão logo conseguiu e, pelo que estava vendo, seria suspeito se tratasse a selecionada da forma que ele realmente desejava. Respirou fundo, tentando se acalmar enquanto analisava cada movimento da outra com alguma frieza – afinal, ele mesmo disse que nada aconteceria entre os dois, que aquilo jamais daria certo. O nariz latejava em seu rosto, e o guarda se segurou o máximo que conseguia para não grunhir quando a morena tocou nele de forma bruta, virando sua cabeça de um lado para o outro no intento de analisar se havia algo de errado com ele, apesar dos evidentes sinais de que ele precisava de alguma ajuda médica – esse pensamento quase trouxe um riso debochado aos seus lábios, mas se impediu em tempo hábil de franzir o cenho, certo de que não seria apropriado que demonstrasse qualquer sinal de reconhecimento para com os dedos de Whilhelmina em sua pele. Ele lembrava, mas realmente não queria continuar a pensar sobre aquilo.
Seguiu as diretrizes da morena, cerrando os lábios em uma linha fina quando apertou um algodão empapado de álcool em seu supercílio. Tinha plena consciência de que deveria fechar os olhos como estava cerrando os punhos para impedir que qualquer protesto saísse por entre seus lábios – recusava-se a passar uma imagem de fraco, especialmente perante seus subalternos --, mas simplesmente não conseguiu, em uma tentativa de demonstrar a Whilhelmina que nada do que fizesse poderia machuca-lo. Os únicos que tiveram a capacidade de fazê-lo jaziam sob a terra suíça, naquele momento, empilhados ordenadamente em sacos de plástico e, obviamente, desmembrados para que a decomposição fosse mais rápida. A ardência do álcool contra os machucados o forçaram a transportar sua mente para um lugar divertido sob as suas concepções – uma das suas sessões de tortura. Louis sabia que aquilo em nada se comparava ao que o suíço submetia suas vítimas, mas, de certa forma, aquela memória o confortou. Voltou a si, entretanto, quando escutou o murmúrio da morena à sua frente, ocupada demais em limpar seus ferimentos que talvez tenha deixado as palavras escaparem de seus lábios. Os olhos de Louis voltaram-se imediatamente para o rosto da morena, mas se obrigou a olhar ao redor discretamente buscando algum sinal de reconhecimento do restante das pessoas no recinto. Quando não avistou reconhecimento algum, Louis apenas os revirou, certo de que a responder da forma que desejava não seria a adequada, mas incapaz de deixar que falasse sozinha. Precisava responde-la.
“Seu príncipe não te deu motivos para tal ainda.” Murmurou, os dentes cerrados para que não chamasse tanta atenção enquanto a encarava com alguma intensidade. Tentou não imprimir um certo tom de deboche em suas palavras, mas foi incapaz de fazê-lo, especialmente porque ele realmente não estava com paciência para tal. A proximidade entre os dois estava começando a tornar tudo aquilo mais doloroso do que deveria ser – machucados à parte – e, por mais que Louis fingisse não se importar com a segurança de Whilhelmina, ele teria que acabar com aquela brincadeira o mais rápido possível. Fechou os olhos por alguns segundos, respirando fundo antes de finalmente os abrir e buscar os da selecionada com algum tipo de sutileza que ele simplesmente não sabia de onde tirou naquele momento decerto tenso para os dois. Não queria continuar a escutar as baboseiras que a morena dizia buscando, com toda certeza, irritá-lo, mas não havia um verdadeiro meio de saída para aquela situação. Teriam que continuar a fingir que não se conheciam, e Louis realmente tentou assegurar-se de que ele podia fazer aquilo, mas foi incapaz de controlar sua boca nos segundos seguintes, abrindo-a com alguma dificuldade devido aos cortes e a apreensão por ser ouvido de forma inocente por alguém no recinto que não ela. “Não acredito que seria louco a esse ponto, senhorita.” Whilhelmina era uma verdadeira má influência, e Louis não podia se permitir continuar com aquele comportamento destrutivo. Revirou os olhos uma última vez, sabendo que estava o irritando de propósito, mas era simplesmente inepto a responder de uma forma que não fosse minimamente rude à morena.
“Tenente.” Murmurou, encarando-a de uma forma nada sutil, o que poderia pôr a vida dela em risco, mas, naquele momento em especial, Louis não se importou com as consequências de seus atos. Os punhos ainda jaziam cerrados sobre as pernas do guarda – Louis muito provavelmente estava infringindo uma certa quantidade de dor a si mesmo para que continuasse ali, de forma que as palmas das mãos passaram a arder com mais quatro novos cortes em cada uma delas – e o sangue seco em seu pescoço começava a incomodá-lo, mas não se sentia inclinado a quebrar aquele contato visual, a menos até finalmente decidir. Não sabia quanto tempo realmente havia passado, mas tomou o máximo de ar que conseguia e o soltou imediatamente antes de quebrar o vínculo entre os dois com um arquear de sobrancelhas – o que não foi nada bem vindo já que Louis teve a infelicidade de escolher justamente a qual o supercílio estava danificado – para então umedecer os lábios com alguma dificuldade antes de voltar novamente os olhos para ela. “Vai demorar muito? Tenho mais coisas para fazer, senhorita.” Juntou toda a ironia que sabia não habitar em seu corpo naquela mísera frase, mas sabia que iria irritá-la daquela forma e, ao menos assim, eles estariam livres um do outro o mais rápido possível. “Nem todos tem a sorte de serem selecionados para ser a próxima rainha de Illea.” Em seu favor, Louis realmente não quis imprimir tanto desgosto em suas últimas palavras, mas realmente precisava ser o mais distante possível da selecionada, e não conhecia forma melhor do que a irritar para que terminasse com aquele martírio de uma vez por todas.
Você possui algum objeto a qual não fica sem, e que pra onde vai o leva junto? (armas não contam)
—— Como os que um certo amigo meu possui? — Louis esboçou um sorriso sardônico, debochado, mas mudou de ideia no meio do caminho, negando logo em seguida. Não poderia falar realmente sobre o cordão de prata dado pela irmã, poderia? Tampouco do pingente de cruz minimalista que herdou de sua mãe – um dos poucos relicários de sua origem católica e portuguesa –, ao qual levava sobre o peito pendurado no cordão presenteado por Julia. Lembrava-se claramente da ocasião na qual o recebera. O pai estava partindo em mais uma campanha militar e ele iria junto para que aprendesse a arte da guerra com Sebastian – a guerra deve a todo custo ser evitada, Louis, mas no caso de não haver opções, acabe logo com ela para que o povo viva em paz. Sempre as mesmas palavras, os mesmos dogmas; talvez em um dia não tão longínquo, Louis finalmente percebesse a força das palavras do recém coroado rei do país, mas naquela noite, simplesmente assentiu, cansado por conta do tédio.
Julia tinha acordado junto aos dois nobres, mas fingira estar dormindo até que não pudesse mais evitar correr atrás dos únicos homens constantes em sua vida – era óbvio que já nessa idade ela corria atrás de nobres, guardas e cozinheiros, mas Louis e Sebastian eram família, e aquele conceito era simplesmente forte demais para ser deixado de lado. Os gêmeos haviam brigado na noite anterior por um motivo bobo – Julia queria que ela a desse mais atenção quando tudo o que Louis desejava era um pouco de paz e tranquilidade –, mas mesmo assim continuaram sem se falar. Até aquele momento. Estava prestes a passar pelos portões do palácio quando escutou os gritos estridentes da gêmea, e foi incapaz de continuar a jornada, voltando-se para ela e esperando que terminasse de transpor o espaço que os separava. Antes mesmo que Louis pudesse dizer algo, entretanto, a morena simplesmente deu um tapa em seu peito, jogando o cordão em suas mãos. “Versprechen Sie mir, dass Sie kommen zurück. Bitte.” Louis conseguia observar as lágrimas se formarem nos olhos da gêmea, mas não entendia realmente o motivo daquilo tudo. Era apenas mais uma viagem; apenas mais um acampamento; apenas mais uma batalha. Não havia motivo para tamanha comoção, mas assentiu, pendendo o cordão com seu pingente em forma de cruz no pescoço enquanto se despedia devidamente da irmã. “Wir werden wiederkommen, Schwester.”
Adiar mais ainda aquele momento era impossível, então Louis a tomou em um abraço, sentindo que era o mais certo a se fazer, mesmo que não conseguisse realmente entender o motivo daquilo tudo; da demonstração de afeto e das lágrimas desferidas pela irmã. Alguns segundos depois, percebeu que até mesmo ele começara a chorar, mas não havia uma explicação certa para aquilo. Sebastian não se demorou a alcançá-los, dando um beijo terno em Julia antes de voltar ao carro que os levaria ao aeroporto e pedir para que Louis o acompanhasse. O, então, príncipe simplesmente assentiu, demorando-se um pouco mais para largar das mãos da gêmea. “Keine Sorge. Vati wird, damit umzugehen.” Formulou um sorriso apenas para acalmá-la, despedindo-se logo em seguida de uma das únicas mulheres que significaram realmente algo para ele. Inúmeros soldados morreram durante aquela batalha, e aquele cordão o fazia lembrar-se de que tinha, sim, algum lugar aonde voltar. Julia era sua casa – Sebastian também o era, mas era com a irmã que ele dividia um laço extrassensorial --, e aquele mísero cordão, aquele mísero pingente faziam parte de sua história.
Louis jamais os tirou, desde então.
Quais são suas intenções c/ minha amiga??
Ele parou por algum tempo, sem saber realmente se a selecionada estava falando com ele ou outra pessoa por perto. Quando percebeu, segundos depois, que a pretendente de Damon estava perguntando justamente a ele aquele tipo de coisa, Louis simplesmente franziu o cenho, tentando não demonstrar de que tinha ciência do que estava falando – talvez apenas estivesse blefando, era um traço natural nas pessoas da corte, e Gott sabia que as nove remanescentes já estavam convivendo nela por tempo suficiente para aprenderem uma coisa ou duas. Depois de algum tempo, entretanto, Louis levantou uma das sobrancelhas, evidenciando sua pose imponente enquanto respirava fundo – talvez buscasse a paciência para não deixar a selecionada falando, talvez buscasse as palavras certas, não sabia realmente –, mas quando começou a falar, sabia que suas palavras deveriam soar verdadeiras. —— As mesmas que tenho para com a senhorita. Protegê-las de novos ataques. — Afirmou, mantendo a solenidade pelo tempo necessário enquanto fazia uma leve reverência à dama. — Com sua licença, senhorita. Assuntos bélicos precisam de minha atenção, no momento. — Afastou-se de Bridget, certo de que ela não devia ter acreditado em sequer uma de suas palavras, mas não havia nada mais que Louis pudesse fazer a respeito. Sabia que aquilo voltaria para assombrá-lo, mas não conseguia se desfazer das memórias e sensações que ela causara nos parcos momentos em que estiveram juntos desde então.