𝗇𝗈 𝑎𝑢𝑑𝑖𝑒𝑛𝑐𝑒 𝖼𝗈𝗎𝗅𝖽 𝖾𝗏𝖾𝗋 𝗐𝖺𝗇𝗍 𝗒𝗈𝗎. 𝗒𝗈𝗎 𝗰𝗿𝗮𝘃𝗲 𝗍𝗁𝖾 𝖺𝗉𝗉𝗅𝖺𝗎𝗌𝖾 𝖺𝗇𝖽 𝑳𝑶𝑽𝑬 𝗍𝗁𝖾 𝖺𝗍𝗍𝖾𝗇𝗍𝗂𝗈𝗇, 𝗍𝗁𝖾𝗇 𝔪𝔦𝔰𝔰 𝔦𝔱, 𝗒𝗈𝗎𝗋 𝖆𝖈𝖙 𝗂𝗌 𝖺 𝐫𝐮𝐬𝐞. ⸻ 𝗂𝗍'𝗌 𝒄𝒉𝒂𝒐𝒔, 𝖼𝗈𝗇𝖿𝗎𝗌𝗂𝗈𝗇 𝖺𝗇𝖽 𝗐𝗁𝗈𝗅𝗅𝗒 𝘂𝗻𝘄𝗼𝗿𝘁𝗵𝘆 𝗈𝖿 𝖿𝖾𝖾𝖽𝗂𝗇𝗀 𝖺𝗇𝖽 𝗂𝗍'𝗌 𝗐𝗁𝗈𝗅𝗅𝗒 𝐔𝐍𝐓𝐑𝐔𝐄 ͟.
𝒮𝚃𝙰𝚁𝙶𝙸𝚁𝙻 ⠀ ⸻ ⠀ você não sabe quem eu acabei de encontrar na praça das sete famílias. isso mesmo, 𝗟𝗜𝗟𝗟𝗬𝗔 𝗤𝗨𝗜𝗡𝗡 𝗠𝗔𝗖𝗞𝗘𝗡𝗭𝗜𝗘! ela é uma humana que atua como podcaster e estudante de cinema aqui em ninivae, sabia? ouvi dizer que possui apenas 24 anos. os ventos sopraram que esse rostinho angelical é cativante, mas são os rumores sobre ser gananciosa que ameaçam a nossa paz. será que teremos problema em lhe estender a mão?
* 𝘁𝗮𝗴𝘀. * 𝗽𝗶𝗻𝘁𝗲𝗿𝗲𝘀𝘁. * 𝘄𝗮𝗻𝘁𝗲𝗱. * 𝗵𝗾𝗻𝗻𝘃.
ㅤ˓ ⿻ ۫ ࣭ ⠀ 𝐬𝐭𝐨𝐫𝒚𝐭𝐢𝐦𝒆 ⠀𓂃 a infância de lillya foi comum. comum para um mackenzie. cresceu aprendendo sobre as espécies que coexistiam com os humanos, sobre como contê-las, enfraquecê-las e, principalmente, eliminá-las. a preparação começou antes mesmo que ela tivesse idade para questioná-la. lillya foi treinada física e mentalmente para cumprir o que se esperava de qualquer herdeiro da família. passou por aulas de combate corporal, ainda que nunca tenha sido a mais entusiasmada nesse campo — deus a livre quebrar uma unha. ela entendia a utilidade do combate corpo a corpo, mas era apenas disciplinada o suficiente para não ser repreendida. foi no tiro esportivo que encontrou sua verdadeira vantagem. sua mira era precisa, estável e dificilmente errava o centro do alvo. toda essa preparação tinha um propósito claro: o baile. o evento que marcava a transição entre nascer com o sobrenome e merecê-lo. lillya cresceu com essa data pairando sobre ela como uma certeza inevitável. e, considerando sua mira, a pergunta nunca foi se ela acertaria o alvo. a pergunta sempre foi se ela enxergaria o alvo como algo além disso.
apesar da criação excêntrica, ela ainda conseguiu construir algo que se aproximava da normalidade. frequentava a escola, tinha colegas, participava de atividades extracurriculares... ela continuava sendo uma mackenzie, mas começou a testar até onde podia ser outra coisa sem deixar de cumprir o que era esperado. curiosa como sempre, entrou para o teatro. gostava de entender personagens, motivações e conflitos. gostava de construir narrativas e conduzir o olhar do público. e quando escrevia suas próprias histórias, elas sempre escorregavam para o mesmo lugar — para a sua própria experiência convivendo com criaturas sobrenaturais — e justamente por isso, ninguém levava a sério. achavam uma imaginação fértil demais para alguém da idade dela. maldito glamour que distorcia a verdade aos olhos dos outros. lillya aceitava os risos porque precisava aceitar, mas havia um certo desprezo na forma como observava a ignorância das pessoas ao redor.
antes de completar dezesseis anos, lillya se envolveu com um garoto da cidade. sabia que ele era um bruxo. não podia alegar ignorância, não com seu conhecimento acumulado sobre cada espécie sobrenatural. não era inocente. acreditava, no entanto, que poderia manter esse relacionamento escondido da família. estava enganada. alguns dias antes de seu aniversário, o garoto desapareceu sem explicações. lillya não teve tempo de investigar, porque o baile da família, o rito de passagem que marcaria sua oficialização, aconteceu em seguida.
como gêmea, o evento foi ainda mais esplêndido, amplificando as expectativas e olhares dos convidados. o brilho e a pompa do baile escondiam o horror que estava por vir: em vez de doze crianças, foram escolhidas vinte e quatro, quatro de cada espécie. todas vendadas e amordaçadas, aguardando o toque do relógio que marcaria a transição da celebração para a caçada anual. seria a primeira demonstração concreta de que lillya enxergava o mundo como uma mackenzie, sem distrações ou compaixão que pudessem atrapalhar a precisão do que tinha de fazer. por isso, ela ajustou o rifle, conferiu a mira mais uma vez e caminhou até a borda do bosque. a noite avançava conforme o esperado: humanos ricos e sádicos percorriam a área, eliminando crianças sobrenaturais, utilizando facas, arcos, pistolas e todo tipo de armamento disponível no arsenal da família. cada disparo que ecoava pela floresta, cada corpo que caía, era o ritual da linhagem se repetindo, uma demonstração clara de poder e controle. quando finalmente derramou o sangue da primeira vítima no anel da família, sentiu a confirmação do dever cumprido. mas a noite ainda reservava uma última prova.
seu pai se aproximou, interrompendo a rotina da noite e disse em um tom calmo e autoritário: “um último presente de aniversário. faça bom uso dele.” as portas da ala lateral se abriram, revelando o bruxo com quem lillya se relacionara nos últimos meses, desaparecido dias antes do baile. ele estava ali, rendido e completamente à mercê da família. o olhar dela encontrou o dele por um instante, e nesse instante soube que não havia alternativa. a consequência de se envolver com uma criatura indigna era ter que matá-lo com suas próprias mãos. lillya ergueu o rifle novamente e atirou. o sangue do seu primeiro amor caiu e se misturou ao legado que ela jurara honrar, confirmando que ela enxergava o mundo exatamente como sua família exigia.
depois da caçada, lillya foi mantida sob rédeas curtas. o episódio com o bruxo não podia ser ignorado, e a família garantiu que ela entendesse que transgressões sentimentais eram inaceitáveis. por um tempo, afastou-se de qualquer criatura sobrenatural, evitando envolvimentos que pudessem comprometer sua posição. concentrou-se em estudar, treinar e manter a aparência impecável de quem tinha o sangue mackenzie correndo nas veias. aos vinte anos, decidiu criar um podcast sobre casos criminais e sobrenaturais, o scream quinn. no começo, focava em histórias distantes, acontecimentos de outras cidades e países, narrados com detalhes que mantinham o ouvinte atento e intrigado. aos poucos, o número de seguidores cresceu. nas redes sociais, as interações aumentaram, comentários e mensagens elogiosas surgiam diariamente. lillya se deu conta de que gostava da atenção, da curiosidade que despertava, do poder de prender a percepção de outras pessoas apenas com suas palavras.
com o tempo, passou a inserir nos episódios histórias de ninivae, alterando nomes, locais e detalhes para manter o mistério, mas deixando pistas suficientes para intrigar seu público. a cidade, as criaturas, os eventos mais estranhos eram transformados em teorias cativantes, narrativas que pareciam ficção para qualquer ouvinte desavisado. mal imaginavam eles que a narradora era parte da própria engrenagem de horror que descrevia, que pertencia a uma família que, há gerações, eliminava crianças sobrenaturais para garantir o controle das espécies. recentemente, lillya também iniciou a faculdade de cinema. a intenção é dar forma às suas histórias e transformar experiências e observações em obras que para outros é pura ficção, mas que para ela é apenas uma realidade que conhece tão bem.
ㅤ˓ ⿻ ۫ ࣭ ⠀ 𝐚𝐫𝒔𝐞𝐧𝒂𝐥 ⠀𓂃 todo membro da família mackenzie usa o anel familiar. é um anel de pedra de rúbi, mágico, cuja origem se mantém desconhecida e só pode ser ativado com sangue sobrenatural. diz-se que o primeiro anel foi um presente da feérica para o primeiro mackenzie, mas é impossível encontrar registros sobre a lenda que deu origem às tradições perversas mackenzianas ou sobre o anel. ele funciona como um portal para o seu portador. basta esfregar a pedra para atravessar alguns metros sem precisar de esforço físico. não abrange distâncias longas e é principalmente usado pelos membros da família durante a caçada mackenziana.



















