Naquele ponto do baile, Addie já tinha bebido mais do que deveria para alguém que trabalharia na manhã seguinte; não se orgulhava disso, nem um pouco: todo o controle tendo ido por água abaixo custaria caro. Ela pensou em atravessar as portas e enfim sair daquele salão antes que acabasse fazendo mais alguma merda, mas no momento em que foi abordada por Seline, decidiu que poderia ficar mais um pouquinho… por ela. “Babe, noooo.” Fechou os lábios num bico ao escutá-la, abrindo os braços e puxando a morena em um abraço. Deixou escapar um risinho carinhoso com a parte sobre a maquiagem borrada, aproveitando a proximidade para levar o polegar até a bochecha dela e limpar uma lágrima preta pelo rímel num deslizar delicado sobre a pele. “Tá tudo bem, ó, eu borro minha maquiagem mais do que cê pensa… Sei que parece que eu sou assim, toda big tough girl, mas tô longe disso.” Confortou-a, sorrindo de canto. “Eh… eu não sou a melhor pessoa ‘pra falar sobre amor, gatona. Só fodo com as minhas chances, mas…” Adora deixou escapar um suspiro, ponderando sobre o quê dizer a seguir. Seria a primeira vez, em muito tempo, que se permitira abrir sobre um assunto que evitava como o diabo evitava a cruz: “Eu te digo de certeza que nenhum de nós têm só uma chance no amor, não. Nós temos… várias. Cada pessoa que cê conhece, é uma experiência diferente, um sentimento novo. Cê nunca sabe o que o futuro pode te trazer e… às vezes… alguém que nunca tínhamos visto com esses olhos faz com que a gente repense tudo. Questione tudo.” Mordeu o inferior; se havia uma pessoa ruim com conselhos, teria que ser Adora Çekmez. Mas ela não parou: “E cê é sensacional, Sel. Você vai ser amada por alguém tão foda um dia que você vai olhar ‘pra trás, pensar nessa conversa, e rir.” Deslizou as mãos pelos ombros da amiga numa carícia. “Quê que te fez pensar nisso tudo, hein? Quem foi o babaca da noite?”
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤ ㅤㅤㅤㅤㅤㅤ apenas se permitiu ser abraçada e encolheu o corpo contra o de adora, mantendo-se aconchegada ali. também não reclamou das lágrimas sendo limpas, apenas fechou os olhos e esperou que ela arrumasse o estrago. " você falou sobre isso de ver alguém com outros olhos de um jeito tão convicto... " os olhos azulados permaneciam marejados, mas isso não impediu seline de semicerrá-los. " tem questionado muitas coisas nesses dias, senhorita adora? " brincou com ela, na tentativa de tirar um pouco do peso que o assunto trazido causava. não queria estragar o clima do baile pra ninguém, ainda mais se o alguém em questão fosse tão companheiro quanto adora era. " é que... " cortou a própria fala, por puro instinto. estava tão acostumada a se proibir de falar sobre o assunto que o filtro era automático. mas suspirou e, como se estivesse juntando coragem, continuou. " eu tive alguém que teria gostado muito desse baile. " deixou que o olhar despencasse, se controlando até demais para não voltar a chorar. mas o álcool lhe fazia ficar tão mais solta que o que normalmente teria terminado ali teve prosseguimento. " ele teria me chamado pra dançar e ter dito que fiquei linda nesse vestido. " sorriu em felicidade com a lembrança, ainda que o restante de sua expressão demonstrasse uma tristeza absurda. foi quando desabou de vez, finalmente abraçando adora de volta. " e saber que eu nunca mais vou ter nada assim me dói tanto. "