Essa é a história de como um dia eu tive um amor. Mas isso não é verdade. O que não quer dizer, de forma alguma, que é uma mentira. Verdade e mentira não são, necessariamente, opostos complementares. Um pode muito bem existir sem o outro. Eu não faço a menor idéia de como começar essa história, aliás, eu nunca sei como começar uma história. Eu sempre preferi fins a inícios. Até que um dia ele apareceu no meu fim e me fez querer como nunca antes um início. Era dia primeiro de agosto. Mas isso não é verdade. Poderia ser qualquer dia, pra mim, na minha maravilhosa percepção temporal, todos os dias são primeiro de agosto - Mas nos reais primeiros de agosto, eu nunca reparava que era primeiro de agosto. Era tanta ânsia para o dia real, mas quando ele chegava nunca reparava -. Era primavera, ou inverno ou atém quem sabe verão. O dia havia amanhecido como muita chuva, as árvores estavam lavando sua alma. Eu adorava ver aquilo. Estava sentada em um banco na parada de ônibus olhando toda aquela beleza do banho das árvores, quando eu olhei pra frente, o vi. Ele estava sentado no banco, em meio à praça aberta. Todo molhado, mas não molhado como pessoas normais ficam quando pegam chuva. Ele estava molhado como se fizesse parte da chuva, como se tudo ali, naquele instante estivesse chovendo ele. Como se de repente, a cidade toda estivesse sendo banhada da alma dele. A chuva que sempre foi linda, com a alma dele conseguiu ficar ainda mais. Ele sempre teve dessa, sempre fez as coisas ficarem mais lindas. E naquele momento ele invadiu meu mundo, entrou sem bater. Instalou sua casa no meu coração e seus traços no meu pensamento. Passou como vendaval e me deixou sem ar. Era tanta beleza, mais tanta beleza. Eu tinha uma fome de querer devorar, como os olhos tudo o que ele tinha de bonito. A partir daquele dia, nasceu em mim uma necessidade de estar perto dele. Uma necessidade de ver toda aquela luz de perto. Ele tinha um cheiro sutil de margaridas na primavera. Tinha um sorriso de raio de sol toda manhã, e tinha olhos de estrelas, repletos de passado, em toda noite. Na medida em que nós conversávamos, eu me perdida mais e mais em tanta necessidade de estar com ele, de ouvir suas histórias, de ter seus olhos sobre os meus de a cada vez seu gosto se tornar mais o meu gosto preferido. Eu queria juntar ele a mim, fazer da pele dele minha tatuagem, do sangue meu o coração dele bombear. A cada vez que ele chegava, um rio de felicidade trazia. Mas a cada vez que ele ia, um oceano de angustia e taquicardias deixava. Antes, no início de tudo. Ele sempre vinha, mas depois, no meio perto do fim, a cada vez que eu achava que ia morrer de saudades ele demorava mais a vir. Até que um dia as vindas não mais se fizeram. Foram tempos difíceis, tempos em que a única chuva que eu presenciava, era a que caia dos meus olhos toda noite quando me tocava de que ele não mais. Eu gritava, procurava e implorava para ter o meu amor de volta. Só de pensar que eu não teria mais ele, logo ele a quem eu tanto amei. Eu enlouquecia. Ficava sentada na sala em que tantas vezes nós dois ficávamos juntinhos, sem caber de imaginar até o dia raiar. E chorava. Eu não conseguia imaginar o porquê de tu ter ido embora, do porquê de ter chegado a hora do nosso fim. Jogada na cama imaginando onde você poderia estar, quase me afogando em tanta saudade, eu olhei pra mesinha do lado da cama. Tu havia deixado um livro teu ali, não era qualquer livro, era um dos teus livros preferidos. Aquele do Caio, Os Dragões Não Conhecem O Paraíso. Comecei a ler-lo e foi como se você estivesse ali comigo de novo, aquele livro parecia tanto contigo que era capaz de encher de ilusória companhia toda a falta que tu fazia. Quando eu terminei de ler o conto Os Dragões Não Conhecem o Paraíso, eu finalmente compreendi você e tudo o que aconteceu. E de repente todo aquele amor que eu sentia foi embora junto com a dor para o mundo das lembranças. O que eu senti nunca foi amor. Amor não é um verbo que se conjuga no passado ou no futuro, amor é um verbo que se conjuga apenas no presente. Quando você ama, amor de verdade não há necessidades, não há falta de ar, não há mortes. Amor é um sentimento muito nome para nos aprisionar em tanto sofrimento. Amor nos liberta, amar é ser livre. É saber voar, e poder voltar. Amor não faz mal. Quando eu vi isso entendi de onde vinha tanta beleza que ele carregava. Ele sabia amar. Por isso de suas amoras serem tão doces. Um gole do café e um despertar dessa nostalgia, pego minhas coisas e volto pra minha vida. Que agora não é mais vazia.