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Inspirou profundamente, sentindo a brisa marÃtima acariciar-lhe o rosto. Fechou os olhos ainda em tempo de ouvir um último murmúrio da Tardis. Agora nunca mais. O pânico veio, mas desapareceu assim que sentiu o calor proveniente da mão da mulher ainda unida a dele. Conseguia sentir o ar passando pelo corpo, chegando aos pulmões. Percebia as batidas dos corações. Não. Coração. Não gostava daquilo. Era estranho, incorreto. Qual a utilidade de um único coração? E se ele parasse de repente? E se parasse ali mesmo? Ele, que durante quase toda a vida correra para lugar nenhum, sempre fugindo, o deus solitário agora estava sozinho. O que é um time lord sem sua Tardis? Pode um anjo voar sem asas? Lembrou sem querer do professor Chronotis (que na verdade não era, mas pouco importava). Pobre figura! Envelheceu e, como era regra em Gallifrey, tomaram-lhe a tardis. Deveria perder as esperanças? Não. Jamais. Mais alguma coisa vibrava em seu bolso e se aquecia: o coral da Tardis. Com ele poderia fazer crescer uma nova. Levaria tempo, é claro, mas isso ele tinha de sobra. Se bem que era meio humano agora. Ele envelheceria.
Antes duzentos anos eram simples, passavam rápido. Agora esses mesmos duzentos anos significavam não estar vivo pra testemunhar o crescimento da nave. Não aceitaria isso. Ele era brilhante e tinha consciência de tal fato. Não se deixaria abater e nem derrotar. Dois anos. Dez no máximo. Seria este o tempo necessário para que ela crescesse e estivesse pronta para voo. Ele era o Doctor. O Doctor na Tardis, com Rose Tyler. Rose Tyler. Oh, é verdade, ela ainda estava ali. Não que tivesse esquecido dela, apenas se prendeu, no calor do momento à tão querida nave. Rose não gostava dele. Não ainda. Para ela, ele não era nada além de uma cópia incompleta. Como explicar que era o mesmo? Soltou-lhe a mão como se esta lhe causasse uma queimadura intensa, permitindo que a mesma caÃsse junto do corpo da mulher. Â
- Well… - Começou. Era um bom começo. Ainda tinha o olhar fixo no ponto onde instantes atrás estava a nave. – Bonita praia. Belas… coisinhas.. Areia. Sim, areia! – Ele apontou para o chão e moveu os pés ali mesmo, tendo um repentino ataque de empolgação como um digno de sua oitava regeneração. O que o fez parar foi a expressão de Jackie Tyler (Jackie ainda estava ali?) e Rose. Interrompeu meio sem jeito a própria fala, olhando e desviando o olhar do rosto dela. Assumiu uma expressão séria. Poderia entrar em pânico depois. Poderia lembrar que era o Doctor e que não havia razão para entrar em pânico. O importante agora era tirar as duas dali. A pergunta era como. Tinha uma sonic screwdriver no bolso do casaco, mas estando no meio do nada não seria de grande ajuda. Aquelas mulheres já haviam estado ali antes. Como uma criança que tenta seus primeiros passos, ele estava nas mãos dela. Nas de Rose. E de uma coisa ele tinha certeza: podia confiar em nela. – Como saÃmos daqui? – Indagou com o ar mais entusiasmado que conseguiu. Era o Doctor. Agiria como ele. Elas não precisavam ver o resto.
Uma parte de Rose parecia ter ido embora com a Tardis, num zumbido distante era como se ela pudesse sentir as vibrações da própria alma se fragmentando, tomando rumos que ela jamais poderia seguir. Estava presa ali, mais uma vez. Sem ele. Ou, pelo menos, sem parte dele. Era estranho. Sua mão sentia a do Doctor, o mesmo calor, a mesma presença e, ao olhar de soslaio, podia reconhecer o mesmo nariz perfeito e o cabelo esvoaçante que o tornava insuportavelmente atraente. Porém não era o Doctor da Tardis. Aquele fora embora, talvez para sempre dessa vez. Aquele que queimara um sol apenas para lhe dizer adeus e, ainda assim, deixara palavras perdidas naquela baÃa, levadas consigo em sua nave. Rose desejou o universo pudesse reajustar as coisas, que voltassem ao momento em que ela jurara ficar com ele para sempre, e ali ficar, encontrar outros caminhos, viver outras aventuras, prender-se a ele ao ponto do infinito para que nunca se separassem e que, mesmo naquele momento, ela estivesse ao lado dele.
Porém ele estava ali. E ela percebeu que assim como sua alma se fragmentara, a dele poderia ter tido o mesmo destino. E, diferente dela, que deixara a Tardis partir com nada além de sua lembrança e uma quantidade incalculável de sentimentos, ele deixara ali uma parte concreta de si mesmo. Uma parte que estaria ali para sempre, um para sempre que ela poderia acompanhar, um para sempre que dividiriam, se ela assim quisesse. Como se fosse possÃvel não querer. Mesmo que fosse ainda estranho aceitar. Compreender, na verdade. Era estranho compreender. Uma vez que compreendia que todas as memórias dele estavam ali, que as palavras ditas por ele foram as que ela deixou de ouvir quando pela primeira vez se separaram, naquela mesma praia, também pensava que o Doctor continuava na Tardis, sozinho. Como se acostumaria a ter uma parte dele quando já estava tão apegada à ideia de tê-lo por completo? Sentiu um nó na garganta ao ouvi-lo falar. Ela própria não poderia ficar muda para sempre, mas ainda não decidira quais palavras seriam adequadas para aquele momento. Sua mãe cruzou um olhar confuso com ela, talvez esperando que Rose a dissesse como agir, sendo que a própria parecia perdida em si mesma.
-- Caminhamos um pouco. Tem um posto aqui perto, chamamos um táxi. -- Rose fez um movimento com a cabeça, indicando a praia à Jackie, que pareceu não compreender o recado, estreitando os olhos e encolhendo os ombros, como se perguntasse o que aquilo significava. Rose repetiu o gesto, arregalando os olhos e movendo os lábios num nÃtido "nos dê espaço" que certamente fora lido pela mãe, que num gesto casual de reprovação caminhou com rapidez na direção da estrada, reclamando vez ou outra pelo excesso de areia em seus sapatos. Rose suspirou, se aproximando finalmente do Doctor. Apesar da euforia anterior que a fizera beijar seus lábios, agora restava uma pequena tensão que parecia ter sido deixada ali onde antes estava pousada a Tardis. -- Então... -- Abriu um de seus sorrisos fáceis, constrangida pela própria insegurança. -- Como se sente? Quero dizer... Um coração a menos, suponho, um único planeta para explorar. Eu, de novo.  Ou pela primeira vez. Eu não sei, ainda estou confusa nessa parte. -- Riu nervosamente, tentando arrumar os cabelos que o vento da praia insistia em manter sobre seu rosto. -- Você é, realmente... você, certo? -- Rose sempre fora curiosa e inquieta o suficiente para acabar dizendo mais do que deveria, muitas vezes da forma errada, e embora se esforçasse para não soar rude, tinha medo de estar sendo tremendamente rude naquele instante. Duvidar do que seus olhos viam era uma forma completamente nova de incredulidade, mas seu tempo ao lado do Doctor na Tardis tinha a feito acreditar que mesmo aquilo podia ser aceitável. -- Isso é esquisito! -- Seu riso estava embargado numa mistura complexa de sentimentos, algo entre vontade de chorar e rir ao mesmo tempo, assim como a necessidade de abraçá-lo e ignorar as dúvidas estabelecidas por um ponto no momento inacessÃvel de seu cérebro.