[DUNYAS ENO UNYAAH – O RAPTO E A VIAGEM] CAP. 1.3
Visto-me, rapidamente, colocando uma camiseta de uma das minhas bandas favoritas, o Korn, uma calça jeans preta e meu All Star da mesma cor da roupa. Arrumo minha mochila colocando dois cadernos universitários, um estojo simples, além da camiseta branca da escola.
Penteio meu cabelo deixando-o solto, como gosto. Olho novamente no espelho. Se meu cabelo fosse preto, iam dizer que sou EMO com essa franja grande cobrindo uma parte do meu rosto.
Queria poder mudar a cor do meu cabelo, mas minha velha não deixa. Diz que pintar o cabelo é coisa de mulher mais velha e não para criança. Mais que droga! Não sou mais criança! Em vinte dias completarei dezesseis anos!
— O café está pronto, filha! – a ouço gritar da cozinha.
Dou um longo suspiro ainda olhando para meu reflexo, depois vou para cozinha carregando minha mochila, meu celular preto e meu headfone da mesma cor que o aparelho. Dou uma olhada na minha mãe que está de costas para mim, lavando alguma coisa na pia.
Ela é tão bonita com esse cabelo preto, cacheado e longo, parece o céu noturno de tão escuro que é. E o corpo... ainda não sei porque ela continua sozinha depois de eu ter nascido. Poderia ter o homem que quisesse, contudo acredito que tenha acontecido alguma coisa entre ela e meu pai.
Minha velha não gosta de falar no assunto, apenas disse que ele morreu um pouco antes do meu nascimento e toda vez que quero saber mais fica nervosa, desconversa, fala sobre qualquer outra coisa.
— Ei! Por que está parada aí me olhando?! Já disse que vai se atrasar! – ela me olha com seus grandes olhos negros e um sorriso lindo nos lábios rubros como sangue. Sua pele é tão alva como o leite. Eu poderia dizer que ela é a branca de neve dos contos de fada e apesar de ter quarenta anos nem parece.
— Não quero ir na escola. – me sento na cadeira mais próxima, colocando a mochila no chão, o celular e o headfone coloco sobre a mesa, depois pego um dos copos que já estava ali – Sabe que as garotas não gostam de fazer amizade comigo.
— Quem sabe nessa nova escola você consegue fazer amigos. – ela coloca a garrafa de café sobre a mesa que está completa com pães, geleia e leite.
Nossa vida não é de luxo, minha mãe trabalha à noite como bartender. Nós nunca tivemos uma casa para chamar, realmente, de nossa porque estamos sempre nos mudando, já moramos em tantas cidades que até perdi a conta. Neste momento, estamos morando em São Paulo.
Minha velha disse que já moramos aqui quando eu era bebê. Nosso apartamento alugado é simples, com dois quartos, um banheiro minúsculo, uma pequena sala e uma cozinha americana. Não temos muitos móveis, somente o necessário.
— Tive aquele pesadelo de novo. – coloco o café no copo.
— Qual deles? Você sempre tem pesadelos. – ela se senta de frente para mim.
— Aquele que você aparece chorando abraçada a um homem que nunca vi. Ele parece que está morto ou morrendo.
— Hum... é só um sonho, filha. – desvia seu olhar para a janela.
— Mas, ultimamente, está ficando cada vez mais nítido, tanto que ele se parece com um dos guerreiros que sempre aparece nos meus sonhos. – bebo metade do café antes de continuar – Também estou tendo esse sonho com mais frequência.
— Não se preocupe, é apenas um sonho. Agora, come logo para não se atrasar. – ela pega um pão e começa a passar geleia nele.
Tomo o restante do café puro, logo depois sigo para o banheiro para terminar de me arrumar. Volto para a sala, coloco a mochila nas costas e pego meu skate com desenho de caveira mexicana que sempre deixo atrás da porta de entrada.
— Ei! Você não vai comer nada? – pergunta ela com uma cara de poucos amigos.
— Não estou com fome. – respondo colocando o headfone.
— Sabe que não gosto que você saia de casa sem comer alguma coisa!
— Tá! Realmente estou sem fome. De qualquer maneira, estou levando dinheiro para o caso de ter vontade de comer algo.
— Ok! Não fique até tarde na rua! Sabe que estamos numa cidade muito perigosa.
— Sei disso, Maria. – reviro os olhos, dou um longo suspiro pegando meu celular – Você sabe que quando saio da escola sempre venho direto para casa.
— Maria? Já te disse para não me chamar assim! De qualquer forma, quem sabe se você fizer algum amigo, queira ficar até mais tarde na rua, por isso não chegue aqui depois que eu sair para o trabalho.
— Tá, mãe! – reviro os olhos novamente.
Essa é Dona Maria Ribeiro, minha mãe. Sempre otimista. Sempre preocupada. Sempre linda. Nunca tivemos grandes discussões porque ela é muito amorosa e preocupada com meu bem-estar. Na verdade, constantemente fica preocupada por eu não ter amigos, mas ela entende, já que nos mudamos com grande frequência. Nunca entendi o motivo disso e todas as vezes, antes de nos mudarmos, fala que o lugar onde estamos não serve mais para ter uma vida tranquila.
Coloco para tocar no celular a música “Slept so Long” do grupo Korn logo depois de fechar a porta e sigo para o elevador.
Ao chegar na rua, percebo que o dia está bem nublado. Aposto que minha velha vai aproveitar para fazer compras no mercado, pois ela nunca sai de casa quando está sol, até parece que tem medo dele. Coloco meu skate no chão e começo a andar pelo bairro na direção da escola.
Moramos em um bairro chamado Lapa que é bastante movimentado com várias avenidas com o trânsito carregado, mas também tem algumas ruas mais tranquilas. A nossa é uma dessas mais calmas e a escola não fica muito distante.
O problema de se começar em uma nova escola é entrar com o ano letivo já em movimento. Como estamos no primeiro dia útil do mês de maio de dois mil e dezesseis, já se passaram três meses desde que as aulas começaram. Isso quer dizer que vai ser mais difícil tentar fazer amigos, se bem que essa tarefa nunca se realizou em qualquer momento do ano.
Ao chegar perto, percebo que já está repleta de adolescentes risonhos na frente do muro e da entrada. Como sempre acontece no primeiro dia de escola nova, sinto alguns olhares curiosos e outros de extrema arrogância para cima de mim. Droga! Por que isso acontece? Não sou alienígena! Antes de parar em frente ao portão, noto uma árvore do outro lado da rua não muito distante da entrada, é exatamente para onde sigo, assim posso aguardar com mais tranquilidade a prisão abrir suas portas.
Um garoto afrodescendente legítimo, cabelo bem curto, que está junto de uma turma perto do portão, está me encarando e isso me deixa nervosa. Os garotos, normalmente, passam longe de mim, por isso ainda sou “boca virgem”. Como pode uma coisa dessas? Dezesseis anos na cara e ainda sou B.V., mas também, quem é que vai gostar de uma garota como eu. Magricela, sem qualquer atrativo e ainda por cima, albina.
O garoto se aproxima, isso faz com que eu perceba que é tão alto quanto um jogador de basquete, por isso tenho que levantar um pouco a cabeça para olhar em seus olhos e... Nossa! Que olhos lindos! Parecem duas jabuticabas! Tiro meu headfone quando ele abre um leve sorriso e fala algo.
— Eu disse oi! Aluna nova, não é?!
— Sim. – “É claro que sou aluna nova seu doido, por acaso já tinha me visto aqui antes?”, poderia dizer essas palavras, mas me contenho.
— Meu nome é Júlio. Qual é o seu? – questiona ainda sorrindo.
— Já sabe qual é a sua sala?
— Minha mãe disse que é o 2º ano B.
— Ah! Que legal! É a minha sala! – ele abre mais o sorriso e... Nossa! Que sorriso lindo! – Vou lhe mostrar tudo. Vou tentar te apresentar para alguns alunos, mas não se preocupe se não fizer amigos logo de cara porque até comigo foi um pouco difícil me enturmar.
— Beleza! – mostro-lhe um leve sorriso.
O portão é aberto e a molecada começa a adentrar as entranhas do prédio.
— Vamos evitar o tumulto, por enquanto. – ele diz se virando para olhar o pessoal entrando, em seguida, volta sua atenção para mim e abre novamente um grande sorriso – Vejo que é roqueira e esqueitista.
— Sim. – murmuro coçando a cabeça. “Você é mesmo um gênio”, reflito.
— Mas, você trouxe a camiseta da escola? Eles são muito chatos quanto a isso! – ele levanta uma sobrancelha e seu sorriso se desfaz.
— Trouxe. – tiro a mochila das costas, pego minha camiseta, depois de vesti-la por cima da outra, agarro meu skate e coloco a mochila em um dos ombros – Vamos entrar?
Ele pega minha mão livre e me puxa em direção ao portão. O que quer? Nenhum garoto pegou a minha mão antes! Acho esse Júlio muito estranho e... bonito. Balanço minha cabeça para esquecer meu pensamento e, assim, me preparar para o que está por vir.