Seus dedos ainda estavam nos primeiros botĂ”es da camisa de Amos quando sua voz a fez erguer a cabeça, sentindo uma sĂșbita vontade de rir, imaginando que aquela era uma das brincadeiras que eles costumavam fazer, fingir que eram de fato um casal aos olhos da sociedade. EntĂŁo notou â ou serĂĄ que imaginou aquilo? â um brilho de seriedade nas Ăris escuras do homem, atiçando algo em seu interior como ferro em brasa. âYou would, wouldnât you?â Apesar da pergunta, parte dela desejava nĂŁo obter resposta alguma, por isso abaixou o olhar novamente, prestando atenção no trabalho que fazia antes. NĂŁo era sempre que Olga o vestia, despi-lo era muito mais de seu agrado; despi-lo era o inĂcio de seu desejo, nĂŁo apenas de seu corpo, mas de seu tempo, de sua atenção, o inverso era o prelĂșdio de sua cĂłlera. âCan you imagine? Me, being your lady, sitting by your side at dinner parties, holding your hand under the table, dancing with you in the garden because society says married people cannot dance in the ballroom, but we would, outside peopleâs eyes, because there is no one I would rather dance with.â Ao terminar o abotoar, seu olhar buscou o dele, ficando na ponta dos pĂ©s para roubar-lhe um beijo doce. Sorria agora, quase sonhadora, como se uma realidade como aquela fosse realmente possĂvel com eles.Â
O afastar veio somente pela necessidade, Olga andou alguns passos para pegar o paletĂł encostado na cadeira, no mesmo lugar que ele havia deixado na noite passada. Se colocando atrĂĄs de Amos, a cortesĂŁ ergueu a peça o suficiente para que ele colocasse os braços pelas mangas. âAnd I could give you children, two or three, running around our house.â O sussurro foi dado prĂłximo ao lĂłbulo alheio, ajeitando o paletĂł em seus ombros, o deixando perfeitamente alinhado. Olga jamais teve o desejo de ser mĂŁe, talvez alguma vez em sua juventude, quando sabia que seu dever era casar-se e ter filhos, mas ao se tornar cortesĂŁ a ideia era assustadora, perigosa atĂ©. Criança nenhuma merecia nascer naquele mundo, por mais ostentativa que pudesse parecer, com suas mansĂ”es grandiosas, comidas caras e jĂłias brilhantes. Sabia, tambĂ©m, que havia um motivo das garotas de Madame Dubois nunca engravidarem, mas Olga jamais quis saber o que realmente havia nos chĂĄs que ela mandava servir. âA sweet dream, donât you think so?â Um sonho doce, que agora se tornava amargo em seus lĂĄbios. Jamais poderia segurar a mĂŁo de Amos durante um jantar, dançar em bailes, sem receber olhares que a lembrariam o que ela um dia foi, olhares que o julgariam, tambĂ©m, e Olga nĂŁo poderia suportar ser a causa dos infortĂșnios para a reputação de Amos. E nĂŁo poderia dar-lhe filhos, lindas crianças que seriam tĂŁo belas quanto ambos, porĂ©m que vida bastarda os faria viver ali? Seu passado era um fantasma que dormia em sua cama.
O Ășltimo toque era a gravata, e mesmo sem ela o Khatri-Eaton parecia mais realeza do que qualquer um da famĂlia real. Ele estava lindo, e pronto para voltar ao mundo que a cortesĂŁ nĂŁo pertencia. Olga percebeu, entĂŁo, que alimentar aqueles sonhos era tolice. Fingir que eram de fato um casal apenas os machucaria mais quando a iminente separação viesse, e ela precisava se lembrar de quem era de verdade, que posição ela estava. NĂŁo era mais uma dama da sociedade, o diamante da temporada, respeitada na mesma medida em que era desejada. Seu semblante se fechou, apesar do sorriso brincalhĂŁo em seus lĂĄbios que nĂŁo chegava aos olhos, enquanto fazia nĂłs na gravata de Amos. âI have always wondered⊠When you fuck her, do you think of me?â Era, no mĂnimo, cruel, o que fazia, mas aquele era seu intuito, lembrar ambos de quem ela realmente era: Uma cortesĂŁ feita para dar prazer a ele e a tantos outros quando seus respectivos cĂŽnjuges nĂŁo eram o suficiente, ser a fantasia possĂvel, a ninfa, a sĂșcubo, o anjo, o que eles precisavam naquele momento. âDoes it excite you? Makes you go harder on her? Do you moan my name with your mouth on her skin?â A De Havilland afundou a dor que aquelas palavras lhe causavam tĂŁo fundo que fazia frio, afastando-se dele com um olhar que nada demonstrava. âDonât be silly, mon cher. The risk is not worth it.â
A intimidade de um ato tĂŁo simples quanto ser vestido era tĂŁo intenso aos olhos de Amos que, por vezes, seu corpo era invadido por tremores involuntĂĄrios, daquele que era necessĂĄrio um inspirar mais profundo posteriormente. A atenção que depositava naquele momento poderia ser sentida de longe, e ele, que conhecia os trejeitos de Olga como ninguĂ©m â como assim bem julgava â, assimilava cada mudança de expressĂŁo que lhe era entregue, tal qual cada palavra. Se assim fosse possĂvel, se embebedaria daqueles dizeres, e o faria de bom grado. âI would.â Resposta curta, evidentemente, e esta abafada pelo o que a cortesĂŁ dizia. IdealizaçÔes de sonhos inalcançåveis, danças prometidas e casamentos distantes. Tudo que ele, apesar de tĂŁo utopista, jamais teve a coragem de imaginar muito alĂ©m. A dor, como ela provavelmente pontuara na mente, era presente nele tambĂ©m.
Ainda assim, Amos era obediente e atĂ© mesmo subserviente aos comandos silenciosos de Havilland, tendo seu corpo a responder de forma quase automĂĄtica Ă ela. O braço maleĂĄvel, que jĂĄ sentia o calor de seu paletĂł, as costas retas para que ela pudesse alinhar o tecido aos ombros, as mĂŁos inquietas que abriam e fechavam sem parar, afetadas pela ansiedade. Crianças. Era muito, muito cruel escutar aquilo. O prĂłprio Amos nĂŁo tinha filhos â e esse era, obviamente, um tĂłpico de discussĂŁo em sua casa. Mas como poderia sequer ponderar a ideia se nĂŁo conseguia ver mais nenhuma outra pessoa segurando seus herdeiros? Como poderia se, quando fechava os olhos, as feiçÔes infantis eram loiras, com grandes olhos azuis e bochechas cheias? Amos apertou os lĂĄbios e levantou o queixo, dando-lhe espaço para amarrar a gravata. AtĂ© entĂŁo, ele mal falou.
E nĂŁo porque nĂŁo tinha resposta, mas sim porque era cruel. Desesperador, talvez, pensar que Olga era tudo que sempre quis â era apaixonado atĂ© pelo Ășltimo fio do cabelo dela, obcecado pela voz aveludada, devoto aos pensamentos da cortesĂŁ. Portanto, assim que ela terminou de lhe enfeitiçar com aquelas perguntas, as mesmas que incendiaram o corpo do mĂ©dico a ponto de tornar um ato de vestimenta algo torturante, a palma larga e fĂ©rvida alcançou o pulso dela â o mesmo que lhe tocava a gravata â, segurando a regiĂŁo com um firmeza, mas nĂŁo força. Se ela quisesse, poderia se soltar do toque. âWhy?â Essa foi a primeira pergunta que conseguiu formular, e bem poderia servir para tudo que foi lhe dito. Por que ela alimentou suas fantasias, idealizaçÔes e sonhos? Por que queria saber sobre o sexo por obrigação, a falta de desejo e lascĂvia? Amos umedeceu a boca. âWhy do you think â why do you wonder â that I even fuck her? Do you think I desire anyone else, or long for anyone else that isnât you?â Com um puxĂŁo, o mĂ©dico trouxe o corpo mais delicado contra o seu, usando a mĂŁo disponĂvel para segurar agora a lombar de Olga. Dessa forma, ela estava prensada contra si. âTell me, Olga, does this thought travel your mind often?â Lentamente, seu tronco abaixou o suficiente para encontrar a boca dela, desesperado com a ideia dela se afastar novamente. âAnd if so, do enlighten me, does it hurt you? Because thinking of you with anyone else â and I mean it, anyone else â, pains me to the core. I canât think straight.â Confessou como se estivesse Ă frente da missa, chegando a intensificar um pouquinho mais ambos os toques. âI donât fuck her. And donât ever, ever say that you are not worth of risks.â O tom sĂ©rio, autoritĂĄrio e rouco bem reverberou contra os lĂĄbios de Olga, mas nĂŁo havia rispidez em momento algum. Apenas firmeza.
Amos, entĂŁo, encheu os pulmĂ”es de ar antes de aliviar a pressĂŁo imposta na cortesĂŁ, indicando com a fronte o penhoar da mulher. âYour turn now. Fetch me your gown, darling, I will dress you up too.â