A minha memória mais antiga é sobre nós.
Meus pés pequenos, descalços, cravados na grama úmida. Os teus, firmes, guardados pela botina gasta. Você fingindo bravura, voz séria, dizendo que era hora de voltar, calçar os sapatos, me aprontar para a escola. E eu correndo — rindo, leve, solta no vento — gritando que hoje é sábado, que não tem aula, que hoje é só nosso. Que hoje é dia de existir contigo. De andar, de inventar o tempo, de ser feliz sem pressa.
Fecho os olhos e ainda sinto o toque da relva entre os dedos, o cheiro doce do mato, o calor da brisa. Vejo teu rosto sob a meia-sombra do boné, tua cabeça lançada para trás numa gargalhada livre, e ouço tua voz dizendo que eu sou a tua menina. E não tem jeito.
Eu não sabia, então, o tamanho do privilégio que era ser tua. Mas sabia — com a teimosia das certezas infantis — que nada no mundo nos separaria.
Você me colocava no colo, ali mesmo, no banco do trator, e juntos rompíamos aquela imensidão verde que era o nosso lar.
Passávamos o dia assim.
Eu e você.
E quando voltávamos, mamãe ralhava, dizia que eu era pequena demais para seguir teus passos, que teu trabalho era perigoso. Mas você ria, despreocupado, e dizia que eu podia tudo. Que éramos invencíveis.
Enquanto ela ameaçava trancar o quarto, a gente se entendia num olhar: eu deixaria a janela aberta, e você viria me buscar ao nascer do sol.
A minha memória mais feliz também é sobre nós.
O céu do litoral tingido de laranja, o mar azul a perder de vista, a areia quente abraçando nossos pés. Minha cabeça no teu ombro, teu corpo me aninhando, tua voz me prometendo que as coisas iam melhorar. Que você ia melhorar. Que nós, de algum modo, íamos ficar bem.
Ali, debaixo do entardecer, me enchi de esperança.
Andávamos devagar pela praia e, num sussurro, jurei te acompanhar. Você riu e disse que não se promete o que já é. Que eu já era tua.
Naquele instante, compreendi: apesar da dor da perda, das recaídas, do medo constante de te perder — você me escolheu. E isso me bastou.
Foi ali que me senti invencível.
Mas a memória mais triste… não é sobre nós.
É sobre o que ficou no lugar.
O vazio. O silêncio do que já não era.
Fecho os olhos e ainda sinto o frio dos teus dedos entre os meus — logo você, que sempre foi calor e sol.
Lembro do opaco dos teus olhos, perdidos em territórios que não sabíamos nomear. Do beijo na tua testa pálida, da pele tão fina, da despedida velada no último “eu te amo”.
Da noite sem sono, da espera cruel, da certeza imposta.
Do momento em que o mundo me disse que você partiu.
A última memória sobre nós chegou com o amanhecer.
Uma madrugada mal dormida, o céu ainda escuro, e eu atravessando os corredores do hospital como quem caminha por dentro de um pesadelo.
Vi o medo nos olhos do meu irmão. Senti o tempo parar.
Sentei ao teu lado. Segurei tua mão.
Fomos nós, pela última vez.
E eu me despedi.
Ali, naquele instante suspenso, deixamos de ser “nós” para sermos “eu e você”.
Logo você, que era feito de vida.
A minha memória mais recente é só minha.
É dos meus pés de novo descalços na grama, agora coberta pelo orvalho. É do vento cortante atravessando a mata, do silêncio cheio de lembranças.
É do desejo de ser outra, e da descoberta de que ainda sou tua.
Porque o teu par de botinas, de algum jeito, ainda me segue.
E então eu entendo: a liberdade não é ausência. É herança.
De todas as coisas que o teu amor podia me ensinar, ficou a mais bonita de todas.
Você me ensinou a ser feliz.

















