:: Paixões em tempos de redes sociais ::
É incrível a velocidade com que as paixões acontecem. É algo fugaz, rápido, ligeiro, veloz, efêmero. E quando você menos espera, acaba.
Eu a tinha visto em uma rede social. Falei com ela por lá, mas sem sucesso. Então, procurei um pouco e a encontrei em outra rede.
E aí nossa história começou assim, despretensiosamente, com ela me respondendo mais de um mês depois de eu ter enviado a primeira mensagem…
Já no início da conversa ela me surpreendeu, tamanha era a simpatia. E eu esperando no mínimo uma patada, porque ela tinha aquela cara de mulher que não dá papo, que nem sequer inicia uma conversa. Mas me enganei. A conversa foi fluindo naturalmente, a identificação foi quase que imediata e mútua. Ela foi se mostrando para mim de uma maneira que me encantou.
Talvez, nos meus vinte e poucos anos, eu nunca tivesse conhecido alguém assim.
Migramos então para a terceira rede social, onde seria mais fácil mantermos um diálogo.
Ela, com seus também vinte e poucos anos, falava sobre tudo. E como falava!
Mas vocês acham que eu ia reclamar? Que nada!
Eu gostava e sorria quando via que tinha mensagem nova dela.
E a cada mensagem ela se mostrava um pouco mais.
E eu fui descobrindo que ela era tudo: de menina a mulher, quiçá mãe. E não tinha um pingo sequer de pretensão nas suas palavras. Ela não se gabava (e olha que bem que podia!).
Preciso dizer que ela me encantava a cada dia mais?
E assim, passamos uma semana inteira conversando.
Nossas conversas varavam as madrugadas. Eu não estava fazendo nada da vida, mas ela trabalhava. E eu sabia o quão prejudicial aquilo era para ela, mas era inevitável pedir para que ela ficasse um pouco mais quando vinha se despedir.
E na maioria das vezes, ela atendia meu pedido. O apego foi inevitável.
Mulher tinhosa, como podia me ter tão facilmente nas mãos?!
As conversas continuavam durante o dia, e, por incrível que pareça, sempre tínhamos assunto. E assim passaram-se quatro semanas.
Eu então comecei a achar que era ela a mulher com a qual eu tinha sonhado durante muito tempo.
Será que depois de tanto tempo de conversa, era enfim hora de conhecê-la?
Decidi que sim. Já que o papo fluía absurdamente bem no virtual, obviamente no real ia ser melhor ainda! Então, numa das nossas conversas, depois de enrolar um pouco e dar algumas “voltas”, decidi chamá-la pra sair.
O receio era gigante, mas, o não eu já tinha, né? Então era hora de tentar o sim.
E pra minha felicidade, ele veio!
Era meio da semana, e marcamos no sábado. Já sabia que ficaria ansioso por longos três dias. E assim foi. Três dias que pareceram uma eternidade!
Já não aguentava mais!
Enfim o sábado. Apesar de já estarmos conversando desde cedo, umas três horas antes do encontro ela me mandou uma mensagem, perguntando se tava tudo certo.
Lógico, mulher! Que pergunta boba!
Seis horas. Ela me manda mensagem dizendo que já chegou e está esperando onde marcamos.
Eu ainda no metrô, atrasado, praguejava em silêncio porque estava fazendo-a esperar. Respondi que logo chegaria lá e pedi desculpas pelo atraso.
Ela riu e disse que não se importava, que era pra eu ir tranquilo.
E então eu cheguei e logo de longe a reconheci. Linda, meio de cabeça baixa, rindo sozinha pra alguma coisa que estava vendo no celular. Às vezes ela levantava rapidamente o olhar, provavelmente pra ver se eu estava chegando. Pude perceber que ela fez isso três vezes enquanto eu me aproximava um pouco mais, e na quarta vez que ela o fez, nossos olhares então se encontraram e ela sorriu pra mim.
Naquele momento eu me apaixonei.
Apertei o passo, cheguei perto dela e a abracei. Senti cada parte do meu corpo tremer e meu coração pulsando tanto que parecia vir na boca.
Acho que ela percebeu, mas não fiz questão nenhuma de disfarçar. Também, por mais que eu quisesse era impossível! Tudo isso transparecia de forma tão viva em mim, que fingir que nada estava acontecendo seria como falhar miseravelmente em uma daquelas “máquinas da verdade” dos programas de tevê.
No fim do abraço, por mais que fosse minha vontade, não tive coragem de pegar sua mão e sair dali junto a ela como se fossemos um casal. Simplesmente sugeri que fossemos pra algum lugar, pra podermos parar pra conversar um pouco mais. E assim seguimos, lado a lado.
Ela me fascinava mais ainda a cada palavra dita e a cada sorriso dado. E tinha o riso solto, daqueles que é impossível não gostar.
Ali permanecemos durante umas boas três horas, conversando, rindo e divagando sobre a vida.
Até que ela me alertou de que já era tarde e que deveríamos ir, ainda mais porque eu morava longe, e poderia ficar perigoso pra mim.
Me diz, como não me encantar totalmente por uma mulher dessas?!
Saímos dali e fomos caminhando até o metrô. Ela comprou seu bilhete e eu fiquei esperando ela voltar, tomando coragem pra enfim beijá-la.
E sem pensar muito, o fiz.
A puxei pela cintura e acho que a beijei como nunca havia beijado ninguém. Senti entrega da parte dela também, o que me fez querer com que aquele beijo durasse o máximo de tempo possível.
E ele pareceu durar, pelo menos pra mim, aqueles três eternos dias que levei até enfim conhecê-la.
Ela então disse “Tchau! E me avisa quando chegar!”.
E eu bobo só consegui acenar com a mão e fazer que sim com a cabeça. Comecei a acompanhá-la descendo as escadas da plataforma, até que precisei correr, porque meu trem parou, e eu então embarquei nele.
Ainda consegui dar uma última olhada pra ela pela janela do vagão, até que a perdi de vista.
Mal sabia eu que era a primeira e única vez que a encontraria antes que os desencontros da vida nos fizessem seguir cada um seu caminho.
Quando cheguei em casa fiz como ela pediu, e a avisei.
Não houve resposta imediata. E nem nas horas seguintes.
Ela só me respondeu no outro dia pela manhã, pedindo desculpas pela demora e dizendo apenas “Que bom! ;)”.
Passamos então um (longo) domingo sem trocar sequer uma palavra.
Antes de dormir, mandei “Boa noite!”. Não obtive nenhuma resposta.
Ela, que era sempre tão presente, de repente se tornou ausente.
No dia seguinte, ao acordar, peguei o telefone, ávido pela mensagem rotineira de bom dia que ela costumava me mandar. E adivinhem?
Nada. Não havia sinal algum dela. Parecia que ela havia evaporado, sumido da face da terra.
Não me contive e mandei uma mensagem de bom dia. Horas depois ela me mandou um “Boa tarde!” acompanhado de uma carinha sorridente.
Achei que ela ia complementar com alguma coisa, mas simplesmente ela ficou offline e não disse nada mais.
Precisava saber se estava acontecendo alguma coisa.
Como podia ela, aquela mulher com a qual eu havia sonhado durante tanto tempo e acreditado que havia enfim chegado na minha vida, ter se tornado tão indiferente de uma hora pra outra?
Perguntei: “Tá tudo bem?”.
E quando já tinha praticamente desistido de obter uma resposta por meio daquela rede social e estava quase ligando pra ela, chegou uma mensagem de voz.
Em cerca de dois minutos ela me disse o que eu não queria ouvir.
Um balde de água fria parecia cair em cima de mim naquele momento.
DOIS MINUTOS. Esse foi o tempo necessário para que ela simplesmente terminasse tudo que nem sequer tínhamos começado de fato, mas que, na minha concepção, de maneira sólida, vínhamos construindo durante nossas conversas diárias.
Repassei mentalmente todos os momentos daquele sábado, ao mesmo tempo em que me maldizia, tentando descobrir em que ponto eu havia errado.
Falei demais? Falei de menos? Fui ausente? Deixei a desejar? Em que?!
Tudo isso em vão. De nada adiantaria todo aquele esforço, não havia porque eu me preocupar. Ela já havia decretado o fim sem ao menos ter o início.
Então percebi que havia caído na armadilha dos amores em tempos de redes sociais e, consequentemente, dos relacionamentos descartáveis - e observem, não apenas os amorosos.
São fugazes, rápidos, ligeiros, velozes, efêmeros. E quando você menos espera, eles acabam.
Laila S.
Maio, 2016.