Helena acordou no chão da sala que fedia a urina de gente. Meio confusa e sem razão, se perguntava o que teria acontecido noite passada. Se lembrava que chamara alguns amigos para beber e eles amigos os amigos deles. Nada mais. Tinha garrafas de bebidas, peças de roupas, comida, um som, uma poça de urina e ela. Do jeito que estava, parecia parte de toda aquela bagunça. Parecia mais uma garrafa de uma cerveja vazia entre as outras. Caminhou em direção ao banheiro. Ele fedia mais que o resto de toda a casa. Ficar ali estava insuportável, até para ela que fedia a cerveja de bordel.
Eram seis da manhã e o prédio acordava para a vida agitada de cidade grande, só que ela acordava sem saber para que. Há um mês foi demitida. Era colunista de um jornal. Até agora sobrevivia com as últimas economias. Seu gato morreu. Seu peixe morreu. Tinha que pagar o aluguel e as prestações do carro. Sua sala fedia a urina e ela urinava em si cada vez que pensava em suicídio.
Resolveu sair do apartamento fedorento sem nenhum plano de onde iria. Pensou nos amigos. Puts! Amigos? Eram não. Fazia frio, mas ela não sentia. Bateu a porta e esqueceu a chave. Tentou ter um cachorro também, mas o coitado foi atropelado porque ela não segurou a coleira no estacionamento. Sua mãe morrera quando tinha cinco anos, seu pai era alcoolatra. Sua maior coleção não era de jóias, não era de bolsas, não era de sapatos. Colecionava desgraças.
Apertou o botão do elevador. Três segundos e a porta se abriu. Cada passo uma dor. Havia um homem alto, cabelo comprido, magro, bem magro. Tinha um cigarro na mão. Ela mal viu ele, se viu, ignorou. Apertou o botão para descer. Ele não apertou nenhum.
Chegou na rua, olhou para os dois lados enquando o rapaz do elevador vinha logo atrás. Começou a caminhar ao passo do vento, ele a seguia e ela o ignorava.
- Tinha uma pedra no meio do caminho - Ele falou, sua voz era grossa e forte; se tivesse em outro momento. Helena até fletaria com ele.
- No meio do caminho tinha uma pedra - Ele continuava a falar, sua voz era sofrida como se soubesse que de algo muito ruim ia acontecer.
- A pedra era o muro de Berlin - Ela sentia as frases infiltrando em seu corpo.
- A pedra era o mar para a descoberta até o fim da Idade Média.
Já estava um pouco mais acordada, viva não. Fedia a cerveja e urina enquanto caminhava pelas calçadas de onde nascera. Tinha um homem lhe seguindo. Nunca tinha o visto antes. Com certeza não morava no prédio. O dia começou mal, como todos os outros, mas esse parecia pior. Quanto mais o homem falava, maior era a vontade de suicídio.
- Tinha uma pedra no meio do caminho. Quem sabia viver chutava, quem não sabia morria.
Pedras e Pedras, Helena. Por mais que quisesse não entender nada, ela entendia. Não era burra. Podia ser tudo, menos burra, ela sabia de có os versos das pedras de Drummond. Continuava andando agora a passos mais lentos. Dois minutos e ele não falava mais nada. Pensou em olhar para trás, mas sentia os passos dele, ainda estava com ela. Por que havia parado de falar?
Terminava o cigarro. E nesse tempinho de término de traga, Helena rempensa as falas e assossiava a sua vida, se é que se pode chamar de vida. A questão não era nem a vida em si, era saber viver.
- Para viver tem que saber chutar pedras, Helena - Helena enlouquecia com aquelas palavras e se convencia cada vez mais que não nasceu para a vida. Não sabia viver porque era como uma garrafa de cerveja vazia, fedia e não tinha mais nada de prazeroso para oferecer. O fedor de urina se avivava e sentia que toda sua vida era uma só desgraça.
- Você sabe chutar pedras, sabe? Não precisa viver, certas pessoas não nascem para chutar pedras.
Por que falava tudo aquilo? Não importava, estava perto da linha de trem. Seus passos estavam tão lentos que os do rapaz a ultrapassou. Ele Subiu em cima do trilho e abriu os dois braços suplicando por um abraço. Ela olhou para ele extremamente desesperada porque agora via seu rosto e ele tinha cara de morte e dor. Foi em direção ao abraço.
Cada passo um peso.
Um grito sangrava no ar. Uma morte. Helena morreu. O trem passou quando a primeira lágrima caiu.
Morreu sem saber que sabia chutar pedras. Ela chutou a maior de todas as pedras na sua vida. O próprio ato de viver. Sangrava e sangrava. O cheiro de sangue se misturava com o de urina. Morte mais digna que essa?
Morreu porque sua própria consciencia, fumante, gritava que ela não sabia viver. Morreu assim como o cachorro, o peixe, o gato. Abandonada. Suicídio mais doloroso que esse? Morreu porque viver doía e fedia a urina.
Andreza Silva, fundamentalpretoebranco