o desdém contido na voz dela era motivo de vergonha, pelo fato de que ele não parecia acreditar em nada que ela falava. não adiantaria seque jurar pelo estige, ele já tinha formado a sua opinião. aquele era um dos motivos que a relação não deu certo: ian parecia sempre o mais cético possível, em tudo. fosse nas pessoas, nos motivos e até mesmo em ações. não poderia o julgar, passou por momentos que o fizeram ser assim. mas pensou que com ela seria diferente, afinal, era ela. ⠀⠀"⠀⠀por que disse isso? parece que está jogando na minha cara que eu sou fraca o suficiente para ceder a isso novamente.⠀⠀"⠀⠀rebateu, com a raiva tomando conta da sua voz. ela queria controlar-se, manter-se o mais cordial possível para não atrair olhares para eles, mas o modo como ele parecia desacreditar nela e a tratar como uma criança a irritavam. ela estava errada, e sabia, mas ainda sim não julgava ser motivo plausível para ele estar agindo do modo como estava. era adulta, assumiu seus erros e estava pagando por eles, não precisava carregar mais uma culpa. não fora sua intenção que ele estivesse por perto quando tudo aconteceu, sequer cogitou que seria ele o azarado que a acharia. tudo obra do destino, talvez um pouco de zombaria, para lhe mostrar que a única pessoa que não deveria saber estava não só consciente do ocorrido como a salvou. o jeito que ele parecia ter prazer em lembrá-la o quão imperfeita era, quão errada estava corroía todas suas veias, transformando seu sangue em um combustível para a raiva que ia a consumindo. o sentimento, que começou pequeno dentro se seu estômago, como uma aflição, agora consumia boa parte do seu peito, a fazendo abaixar a cabeça enquanto o ouvia. ⠀⠀"⠀⠀é claro que você desconhece, ian. você é filho dos deus dos deuses, afinal. esperam de você liderança, protagonismo. o normal e corriqueiro para um dos três grandes.⠀⠀"⠀⠀não ergueu a cabeça enquanto dizia as palavras, contendo o choro que insistia em sair.⠀⠀"⠀⠀mas que saber? você só pode ser um herói se seguir um plano. um plano que precisa ser feito por mim, pelos meus irmãos. um plano que não pode haver erros, que a menor taxa de falhas ainda sim é uma lembrança constante de seu fracasso. que nem mesmo o melhor dos planejamentos impedirá que seis campistas caiam no submundo. e que você tem uma parcela de culpa nisso. e o que quer que acontecer lá.⠀⠀"⠀⠀a verdade mais crua de todas. ela se sentia culpada por cada um deles que haviam caído. não todos que salvou com o seu aviso, aquilo era passado, afinal, perdera seis. amigos, irmãos, amores de pessoas que ela conhecia e convivia diariamente. semideuses que tinham sonhos e era impossível não se sentir culpada por aquilo, por mais que quisesse esquecer. ela seria relembrada, diariamente, até que conseguissem resgatá-los, daquilo. atena, com seus silêncios ou até mesmo desaprovações, era o que antonia lembrava em cada um daqueles momentos. era esperado que os filhos do chalé seis exibissem nada além de perfeição. e foi assim que cresceu, tendo annabeth chase como uma lembrança constante da sua falta de sorte em não ser uma das favoritas da mamãe. a resposta dele embrulhou o seu estômago e permitiu que a lágrima escorresse, com a visão dela ficando embaçada ao ver a figura dele. por mais que tivesse um fundo de verdade, agora era ela que não conseguia acreditar nas palavras dele. ⠀⠀"⠀⠀é isso que diz a si mesmo todos os dias antes de dormir?⠀⠀"⠀⠀indagou, com a voz em um tom mais baixo. aquele assunto não era o foco antes, mas ser relembrada de tudo que havia compartilhado em um momento como aquele era um jogo sujo da parte do loiro. engoliu em seco, antes de prosseguir.⠀⠀"⠀⠀você não gosta de mim, ian. talvez tenha gostado um dia, mas agora? sou apenas uma lembrança de como você se sente vivo comigo e do que posso ser capaz de te fazer sentir.⠀⠀"⠀⠀balançou a cabeça, meio incerta se deveria estar dizendo aquilo. eles haviam sido intensos do inicio ao fim. e o fim era a recordação do porquê não deveriam mais estarem juntos.