Luto de amores vivos
Uma vez sentado em um balcão de bar sozinho, sentou uma garota do meu lado, talvez eu não deva ter dado a atenção que ela desejava encontrar no momento, e no meio da conversa ela me diz: “Você esta naquele período de luto de gente viva né?”. Confesso que por alguns instantes eu fiquei pensando no que ela queria dizer, talvez nem todas aquelas bebidas no balcão fossem possível ajudar a empurrar essa frase que ficou presa na garganta.
Mas depois de pensar por um tempo posso dizer que todos nós de certa forma já fomos viúvos de amores vivos. Sim aquele período de luto que você fica quando termina com alguém que você tinha a certeza que seria o amor da sua vida. Quando você fica sentado na cama olhando para o nada, só pensando sobre aquele amor que você sempre imaginou que teria, morando em uma casa com um jardim enorme, cerca branca com cachorros e filhos, como se tudo tivesse saído de um comercial de plano de saúde.
O destino às vezes pode ser traiçoeiro, e quando tudo parecia certo, ele da uma volta e como um ladrão na noite rouba tudo que temos. E só nos resta o luto. Sim o luto por todas as mentiras sinceras que nos interessavam, por todo o eu te amo, quero você sempre aqui, ou o que for mais que falavam em conversas que tinham a madrugada toda como testemunha. E sentimos um luto pela aquela pessoa que criamos, sim criamos, porque depois de conhecermos melhor tudo que passou, percebemos que as mentiras sinceras eram contadas também em todo novo contato que ela conseguia, balada que ia, ou até mesmo em aplicativos de relacionamento que a pessoa escondia no celular, sempre deixando de reserva caso fosse necessário.
Sim aquele luto que sentimos por tudo que passamos juntos, todas as risadas, histórias compartilhadas, segredos e dores que passávamos juntos, mas nada parecia tão ruim que não fosse possível ser curado pela pessoa nos dizendo que estava aqui. Acho que é por isso que vejo no mercado à noite pessoas sozinhas buscando alguma bebida, talvez seja a melhor companhia no momento para uma noite de luto.
Como um passeio em uma montanha-russa de emoções, em um momento tudo está ótimo, no outro queremos ficar de baixo da cama só esperando por algo que talvez nunca volte, e ficamos novamente nesse luto, como o Tom no filme “500 dias com ela” ficamos revivendo todos os dias com a pessoa, tentando achar alguma pista, tentando achar onde foi que quebramos e nos perdemos, essa parte é a pior parte, sentimos luto de quem nós fomos.
Cada foto que tentamos apagar, cada vídeo que encontramos ainda perdidos é como se uma parte voltasse, e tudo vem junto, o som da risada, o cheiro da poltrona do cinema em que o filme era só um coadjuvante já que beijos e olhares eram trocados o filme inteiro, aquela blusa que você nunca mais usou porque ainda tem o perfume da pessoa nela. Sentimos luto por tudo isso que perdemos, por tudo que vivemos, por planos que nunca vão se realizar e a vida que nunca vivemos.
E em cada fim de noite nos despedimos do celular antes de dormir, agora em silencio sem um boa noite, ensaiamos mandar uma mensagem, apagamos ela e percebemos que o luto é necessário, a dor tem que existir para mostrar que tudo valeu a pena, que foi bom o que vivemos, e esperar que uma hora ela passe, com ajuda ou não, mas que uma hora pare de doer sempre que lembrarmos de alguém. E novamente como em 500 dias com ela, aprendemos com o Tom que quando acaba uma estação, sempre começa outra.















