Blues da Desistência
escrevo esta carta aos fracassados, a cada alma que sucumbiu. a todo homem ou mulher frustrado, desacreditado. escrevo com a empatia de quem também desistiu.
escrevo para que todos nós sejamos lembrados, para que nossa dor seja, ao menos, eternizada. não que minha escrita seja capaz de eternizar nada. mas merecemos que se analise os nossos passados.
eu desisti de tantas coisas durante minha vivência. desisti de lutar por um amor verdadeiro, desisti de ter uma carreira que me proporcionasse algo real em troca de um plano de saúde. eu desisti de parar de fumar e de beber mais vezes que eu consigo me lembrar - e que eu gostaria de admitir – e, caso você ainda não tenha notado, eu desisti de rimar essa carta-poema. - talvez, até o final, também desista do poema e se torne somente uma carta. sinceramente, eu sempre começo a escrever sem saber como encerrar. –
desistir é liberdade! insistir no que claramente não daria certo é autoconsciência. vai ficar a mágoa, mas nem deu tempo de criar saudade. assumo meu mau temperamento, meu comportamento reprovável, assumo minha desistência!
desistência. desistir da existência. eu detesto essa etimologia freestyle porque foi assim que a Linn da Quebrada concluiu que Deus é um conjunto De-Eus. mas sério, eu desisto da existência. assumo meu papel de NPC.
um feliz e autoconsciente NPC, que, conscientemente, abre mão da consciência. porque desistir de pensar sobre o mundo, sobre meu vício, sobre Gaza, sobre o fechamento mensal dessa empresa que provavelmente vai ser o último positivo antes de se foder com a Tarifa-Bolsonaro, sobre a Marcela – sempre a Marcela, é o que me dá paz o suficiente pra deitar a cabeça no travesseiro e dormir todas as noites.
é isso e a maconha que eu jurei que passaria um mês sem e não consegui passar nem 24 horas, mas isso é um assunto pra depois.
eu desisti do flerte e passei cedo demais pro momento em que o que há de pior em mim pode aparecer e fracassei em mais uma tentativa. como eu fracassei no meu casamento, como eu fracassei quando tentei viver de arte.
e por mais que pareça solitário, o mundo está cheio de fracassados, de desistentes, de degredados.
nós não estamos sozinhos. e talvez isso seja o suficiente pra eu não surtar, e viver a liberdade de ser só mais um.
29/07/2025 – 11:12











