Há poesia após auschwitz? Eu li essa frase ha muito tempo na escola, em uma aula de literatura. Ela me marcou desde então e eu nunca entendia o porque. Agora eu entendo.
É possível existir poesia após um grande sofrimento?
Chega a ser irônico como essa frase se aplica a mim agora, eu sempre brinquei que você era um sobrevivente de auschwitz.
E no final você era e foi sua última vitima.
Quando você se foi, meu mundo ficou desolado, como os mundos ficam após carnificina.
A poesia perdeu o sentido, como posso escrever algo tão lindo depois de sentir meu coração ser arrancado do meu peito a sangue frio?
Eu não escrevi nada desde então, e você sabe, eu sempre escrevi sobre tudo.
Eu não fiz um post no instagram para comunicar minha dor, como aparentemente todo mundo faz na nossa sociedade liquida. Transformar sofrimento em massagem de ego.
Eu não queria suavizar a dor, o sofrimento deve ser sentido.
Eu queria sentir todas as dores possíveis, tudo que você sentiu, passar por todas as provações, para ver se elas me levavam para junto de voce, como os católicos fazem peregrinação para se aproximarem de seu deus.
Eu acredito que não cheguei nem perto.
Então eu fiz o que eu faço de melhor, me fechei em um mundo que é só nosso.
Eu voltei para o quarto lilás, o qual você entrou, me abraçou enquanto eu chorava e disse que sempre estaria comigo, mesmo não entendendo oque se passava.
Acho que esse era seu grande trunfo, você nunca precisou me entender para me dar exatamente oque eu precisava.
Diferentemente de todas as pessoas, você não queria me desmontar e me revelar. Você sempre aceitou o quebra cabeças que eu sou e me amou por isso.
E agora, quem vai me amar assim? Quebrada, com cicatriz de um holocausto.
Hoje eu resolvi escrever, afinal deve existir poesia após auschwitz. Eu fiz minha tatuagem para você, sangrei para Artemis, que uma vez pediu sangue por sangue, e sempre que eu olho meu braço eu lembro da grande tragédia.
Afinal, esse é o maior sofrimento de todos, ser deixado na terra enquanto o outro se foi.
Você se foi e eu fiquei, com minha cicatriz, minha tatuagem de identificação e a certeza de que a melhor parte de mim viveu um genocídio.
Mas tem que existir poesia depois de auschwitz, depois que sua última vítima cumpriu sua jornada.
Eu espero que você esteja bem. Eu vou continuar aqui, sangrando por você, como você faria por mim.
A vida é muito injusta, mas pelo menos ha poesia após a carnificina para consolar meu coração.