Essa semana foi dia da visibilidade trans. Talvez muitas pessoas não saibam muito sobre o assunto e eu também não sabia há algum tempo atrás. Mas basicamente, ser transgênero é você não se reconhecer com o gênero que você possui biologicamente. Exemplo, o gênero que a pessoa nasceu é feminino, mas ela não se reconhece como mulher, mas como homem, que e o gênero oposto ao dela. Gênero não tem nada a ver com opção sexual, hétero e homo. Minha explicação foi bem vaga e desculpa por não saber explicar melhor, mas já faz algum tempo que eu pesquiso e vou atrás do assunto e creio que você não precisa ser para entender sobre, mas para mim e uma questão de respeito ao próximo me colocar no lugar deles.
Com tudo isso, ouvi falar sobre a serie POSE, é uma série de 2018 da FOX com oito episódios. Ela se passa em 1988 em NY e basicamente mostra a comunidade LGBTQ local e a eclosão da AIDS, e tem algumas críticas sociais a sociedade. Boa parte do elenco da serie são pessoas transexuais, e isso e uma grande conquista pra comunidade, já que estamos falando sobre visibilidade.
Eu não sou de chorar, eu realmente tenho muita dificuldade de chorar. Mas desde o primeiro episódio eu chorei e não foi pouco. POSE me deu uma lição de moral. A série se passa a mais de 30 anos atrás, a realidade era extremamente diferente de hoje, então nosso modo de ver a serie precisa de um esforço a mais. Os personagens, ou 98% deles são pessoas a margem da sociedade, e isso já têm um impacto sobre a minha vida, porque eu me senti de alguma forma conectada com elas.
E agora entra os detalhes que aprendi vendo POSE. Não é porque você nasceu em um lugar sem oportunidade que você precisa aceitar isso e aceitar a prostituição e as drogas. Ambas sempre estiveram presentes na minha vida, ao meu redor.
POSE me mostra como a comunidade LGBTQ criou sua própria identidade, com reflexo grandioso hoje na linguagem, nas músicas, nas baladas, na moda e na mídia. Por consequência, a comunidade foi extremamente culpada pelo surgimento da AIDS, e não tem nada a ver com culpa e culpados, mas como a doença contribuiu para eles serem excluídos e marginalizados pela sociedade... Em uma cena um personagem soro positivo diz que ninguém jamais vai querer curá-los porque a sociedade os quer mortos. Eu não sei se você já fez um teste de AIDS, mas eu já, e hoje eles te dão o resultado em menos de uma hora a 30 anos atrás demorava duas semanas... E eu entendi como eles se sentiam ao fazer aquele teste, o medo, o arrependimento, a dúvida. Se eu me senti mal por tem que esperar menos de uma hora o que deve ser 2 semanas?! Felizmente para mim deu negativo, mas nunca vou esquecer aquela sensação, e se tivesse dado positivo eu ainda poderia tomar o coquetel dado pelo governo, eu ainda teria bons hospitais e minha família ao meu lado. Mas a serie me mostrou a realidade de não ter remédios, hospitais horríveis onde as pessoas eram tratadas como nada, bem parecido com o nosso SUS.
Mas a pior parte era que todas as pessoas da série foram abandonadas por suas famílias biológicas. E mostra essas pessoas criando laços, se ajudando, morando juntas, se apoiando, sendo família. E vou te dizer isso foi um dos motivos que eu mais chorei.
POSE fala sobre ser gay, ser transexual, ser negro, ser pobre, sobre ser mulher e ter que lidar com homens, POSE fala sobre mim e sobre você, POSE fala sobre a pessoa que esta ao seu lado no ônibus, do seu vizinho, do cara da padaria, do seu irmão ou irmã...
E sabe, vivemos numa sociedade onde em vez de aprendermos um com o outro, criticamos muito o diferente. Eu não sou trans e nem homossexual, mas isso não quer dizer que eu não possa ser família com eles. Que eu não possa me compadecer e querer encher eles de amor e respeito. Precisamos sair da nossa bolha egoísta, precisamos olhar pro lado, tem alguém precisando que sejamos família para com eles.
Eu sempre fico muito mal quando paro pra pensar “qual será meu legado.”, sempre tive medo de ser uma pessoa vazia, sem conteúdo. E isso sempre me motivou a ser uma pessoa envolvida em causas e movimentos, realmente já fui mais militante do que sou hoje, mas e porque eu aprendi a gritar menos e realmente fazer algo. Ou estudar para fazer algo bem feito.
A personagem Blanca da série sabe que vai morrer de AIDS, não sabe quando mas sabe. E ela decidiu mudar a realidade da comunidade, ela decidiu lutar para que outras trans não sofram o que ela sofreu, ela decidi acolher um menino gay que quer ser dançarino, um que decidi largas as drogas, enfim ela realmente quer mudar a vida de outras pessoas e deixar um legado. Porque ela se deparou com a própria morte e a morte de vários amigos, e como parecia ser triste ter passado por este mundo e não ter aproveitado as oportunidades de mudar as circunstâncias. Eu perdi alguém muito perto de mim, e o luto, a morte eles te corroem por dentro, você demora a acordar pra vida de novo, mas ao mesmo tempo você olha pros lados e percebe como existe uma linha tênue entre a vida e a morte.
POSE mudou minha vida, me mostrou que o vitimismo não vai mudar nada, que é preciso lutar, por si e pelos outros. Não se conforme, faça o possível para ajudar quem te rodeia, e mudar a situação do ambiente que você estiver. Sei que falei muito sobre transexualidade, mas é porque eu sei que tem algo a maispara eu fazer sobre isso nesta vida.
Blanca eu não quero morrer sem ter feito o possível por um mundo melhor, obrigada...