Algo Que Eu Tive
Eu não posso me concentrar por mais de um segundo pois o próximo segundo é aquele que eu não sei e é aquele em que não me desejarei mais como pessoa física e sólida – funcionando com todas as engrenagens certas mas girando em todos os tipos errados de ordens sem me revelar ou diminuir, sem me relevar ou me constatar a mínima função de meus mínimos objetos de espírito que é ser bem pouco ao seu maior preciso que é ser imensurável seu, e de tantos outros sem conseguir ser a mim mesmo da única maneira que sei. E o segundo anterior é um quarto com todos os espelhos virados ao centro e uma vela encerada no ventilador. Ele pede minha atenção irrestrita, mesmo já a tendo por completo.
Saiba o quão facilmente viciável e frágil posso ser e a exata pessoa na qual esse quarto me tornou é como se ele previsse que eu fosse fechá-lo antecipando o seu fim do jeito que antecipo o meu e se esvaziando de sentido antes que eu possa fazê-lo da maneira mais crua e gaúche que meu corpo de vara pode; andando em círculos, pois mãos abertas não fazem linhas retas e não poderão fazer enquanto eu não subsistir ao meu medo de ser quem eu posso ser, e quem mais ninguém pode ser pois quem seria essa figura tão pateticamente minha? Quem seria bruto e dócil no mesmo virar de frase, na mesma abnegação? Quem compraria esse relógio que só acerta duas vezes ao ano, uma quando a pilha acaba e outra quando é Agora.
A coisa importante sobre tempo é que ele definitivamente leva o seu.
E olha: se abríssemos esse quarto de novo e você fosse o sol e eu fosse a formiga, como tanto se havia de ser, e se tudo que fizéssemos fossem nossos espelhos mimados com os quais já não podemos lidar e para os quais não fomos feitos eu não me queimaria, eu apenas cansaria do reflexo.
- Mateus Borges














