What we were and what we are is hidden in the scars || Pololissa
Alek envolveu seu dedos pelo pulso de Lissa e impossibilitou sua fuga. Seu aperto não era firme a ponto de a machucar, mas a determinação dela em se afastar dele estava longe de ser capaz de o obrigar a solta-la. Poderia facilmente conduzir uma corrente elétrica por seu corpo e ir embora, e talvez lá no fundo fosse o que queria, mas a curiosidade de saber o que ele queria dizer era bem maior. Assim como a quase necessidade de aproveitar um pouco mais de cada contato com ele que pudesse ter. Os poucos segundos que pode aproveitar do contato visual com ele já eram o suficiente pra ela se sentir estranhamente aquecida e sem fôlego. Quando ia parar de se sentir assim com ele? Era absolutamente inconveniente. Podia ver naqueles olhos tempestuosos parte do que amava nele. Conseguia ver o quão terno ele era com ela na maior parte do tempo que tiveram, e cada vez que eles tinham esse momento era mais difícil de duvidar de qualquer coisa que ele falasse. E em um movimento tão rápido quanto o primeiro ele a puxou pela cintura e a tomou para si. Pensou ter sentido o corpo do maior ficar tenso contra ela, para relaxar aos poucos. Talvez estivesse sentindo dor e isso a preocupava.
Estar novamente presa a ele trazia uma sensação de conforto muito boa, não conseguiu evitar de aproveitar do calor do corpo dele e do perfume tão característico. Ele se encolheu ainda sem a soltar, o pensamento que ele poderia chorar a apavorou e Melissa enfim devolveu o abraço. Tinha tanta coisa presa em sua garganta, tanta dor e preocupação e também tanto alívio de saber que ele estava vivo, que ele voltou… Tinha formado tantas teorias sobre o que aconteceu por lá… Queria muito entender o que fez ele agir como quase todos na vida dela e ir embora. Por mais que estivesse tentando essa coisa de não guardar mágoa. Ele havia feito exatamente o que disse que não faria e isso era a parte principal presa na garganta da loira. Se sentiria melhor se jogasse contra ele tudo que pensava? Só de pensar em reviver cada sentimento do último ano dava uma revolta, uma raiva que fazia seu corpo inteiro tremer e sua respiração e batimentos cardíacos acelerar ainda mais.
Alek parecia não entender que a última coisa que ela queria fazer era exatamente isso, o deixar ir não era de verdade o que ela desejava. Lissa entendia porque ele pensava isso, ela mesma o fez acreditar nisso. Só era tão doloroso pensar em não o ver mais, ainda mais agora que ele estava de volta. Mas por quanto tempo? Quanto duraria ele com ela antes de ir embora de novo? Soltou um riso sem humor e profundamente magoado com mais essa ideia. Seria bom se Melissa conseguisse voltar a ter esperança neles como tinha antes. Fechou os olhos e o apertou um pouco mais, nunca foi fácil para ele pedir desculpas, favores e principalmente implorar. O estado da voz dele fez o gosto amargo na boca dela voltar, ele deveria estar assim por ela, e por isso ela preferia ter o deixado e ir para casa, onde poderia ter sua crise de choro sozinha e fingir que não o magoava de volta. Sabia que estava sendo egoísta, mas a verdade era que tudo se tratava de medo. Foi ele que a deixou assim, ela não conseguia simplesmente perdoar sem entender o motivo. Só que o perdoar significava que ficaria vulnerável a ele novamente.
❛❛ O que você tem pra explicar? Você foi embora. Foi isso que aconteceu; você enjoou e voltou pra casa. Agora enjoou de lá e voltou pra cá. Tudo bem, eu entendo.❜❜ Na verdade não entendia. Não entendia mesmo, nada do que o motivou a ir embora ou a voltar. Ainda assim, essa história é a que mais se encaixava nas teorias dela; ele se cansou disso e precisava de uma emoção nova. Agradeceu por ele não estar a olhando quando as lagrimas começaram a descer. Soluçou contra o peito dele e se esforçou para interromper o abraço, mas não o afastou ainda. Ainda não. Ele faria isso mais cedo ou mais tarde, e respirou fundo aproveitando o que ela sabia que acabaria antes que ela estivesse o suficiente dele. Provavelmente ele ficaria irritado com ela estar sendo tão estúpida e rancorosa, e tão teimosa. Melissa sempre era teimosa, e isso era absolutamente problemático.
ᴍᴀɪs ᴜᴍᴀ ᴠᴇᴢ, ᴀs ᴘᴀʟᴀᴠʀᴀs ᴅᴀ ʟᴏᴜʀᴀ ᴄᴏʀᴛᴀʀᴀᴍ-ɴᴏ ᴄᴏᴍᴏ ғᴀᴄᴀs. Ao final da acidez cuspida contra si, tão próximo ao seu ouvido a ponto de todos os frios fonemas serem escutados com clareza, o moreno sentiu ainda mais a necessidade daquele abraço não terminar nunca mais. Afinal de contas, não importava o quão rude ela era consigo; além dele merecer tudo aquilo e muito mais, Melissa ainda era Melissa, e aquilo bastava. Sentiu também a vontade de levá-la para sua casa, poder explicá-la para ela toda a história, ficar de joelhos e implorar pelo seu perdão -- já que ela era uma das únicas coisas que, em meio à toda aquela confusão na Polônia, se fixara em seus pensamentos e o traziam à lucidez todas as vezes em que ele sentia que sua sanidade estava esvaindo-se (qualquer um que não tivesse uma mente extremamente estável ou que fosse levado facilmente pelo sentimentalismo, teria enlouquecido na situação em que Alek se encontrava até algumas semanas atrás).
Sentiu-a se remexendo em seus braços, na falha tentativa de livrar-se do abraço, mas não permitiu que aquilo acontecesse. Não, não era possível que Melissa, a sua lourinha irritadiça, dona dos sorrisos mais encantadores do mundo, tivesse desistido deles. Quer dizer, aquela era, sim, algo completamente possível, mas Alek ainda era um sociopata funcional que não conseguia se colocar no lugar dos outros. Não conseguia entender o porquê Melissa não compreendia que ele teve sim um motivo para abandoná-la durante aqueles meses, sem manter contato? Ele tinha motivos, sim. Ah, ele tinha muitos motivos. Ela não sabia quais eram eles, mas devia ao menos suspeitar que eles existiam. Aquilo o deixava nervoso, mas o vazio das palavras da namorada (ou ex-namorada?) era muito, mas muito maior, deixando toda a irritação de lado. Alek estava abalado; e ele não tinha a capacidade de lidar com aquilo. Era uma das raríssimas vezes que Aleksander Müller era pego desprevenido e deixado completamente sem reação -- não que fosse algo com que Lissa deveria orgulhar-se, dadas as circunstâncias, claro.
❛❛Não, Lissa.❜❜ murmurou, aninhando-a ainda mais em seu peito, reclinando a cabeça contra o topo da dela como sempre faziam quando se abraçavam (a nostalgia o atingiu em cheio naquele momento). Queria dar-lhe um beijo em sua testa, mas o medo de ser eletrocutado por conta do ato era enorme -- não sabia o quão longe poderia ir com o contato físico; imaginou já estar sendo ousado demais com o abraço repleto de saudade. ❛❛Eu sumi por um motivo. Eu juro que tudo tem explicação -- a minha ausência, a falta de contato, a minha aparência... Tudo, tudo. Eu tive de ir, Lissa. Você vai entender. Só me dê uma chance para te explicar.❜❜
Dito isso, soltou-a do abraço para poder segurar o rosto fino dela com ambas as mãos, os polegares frios -- um deles com um band-aid, uma vez que tinha perdido a unha daquele dedo há meses atrás e ainda estava se recuperando do incidente -- acariciando as bochechas da menor, limpando as lágrimas que escorriam, enquanto Alek encostava vagarosamente as testas dos dois, tentando certificar-se que não acabaria torrado no chão. No final do gesto, lançou um olhar para o lado, parecendo-se lembrar de onde estavam: Na entrada principal da faculdade de Melissa, bem no horário do término das aulas; portanto, estavam sendo um razoável centro de atração. Foi por isso que, soltando uma breve risada, o polonês completou, em um murmúrio:
❛❛É só melhor irmos para sua ou para minha casa. Aqui não é um bom lugar para conversar.❜❜











