Quando o celular novo de Fox quebrou mais uma vez, ninguém se surpreendeu - o tempo de vida do aparelho, inclusive, foi maior do que muitos que vieram antes dele. O que realmente a deixou sem reação foi o pequeno dispositivo escondido entre as peças que antes compunham seu telefone. Depois de um tempo cogitando todas as possibilidades, a loira teve de aceitar: O governo, ou a entidade responsável pela distribuição dos aparelhos eletrônicos, estava observando a cidade.
Respirando fundo e observando rapidamente a sede do Clube do Livro, a garota começou a chamar atenção de todos os presentes. A cada segundo que se passava, a câmera escondida em seu bolso pesava cada vez mais e ela sabia que tinha começar logo a reunião. “Acho que já está todo mundo aqui, não?” Começou, nervosa. Apesar de ser a conselheira de Erik, ela tentava se falar diretamente com grupo o mínimo possível. “Tenho certeza que todos aqui me conhecem, mas ao lerdo que não sabe quem sou… Prazer, meu nome é Fox e eu sou a conselheira dos Lions.” Brincou, tentando diminuir a tensão que havia se instalado no cômodo.
“Ok, vou direto ao ponto. Quem me conhece sabe que celulares são objetos temporários em minhas mãos e, outro dia, o meu mais novo celular quebrou. Rest in peace, Gilson, you’ll forever be missed. Enfim, não foi por isso que eu pedi para o Erik convocar uma reunião. O real motivo é esse aqui.” Continuou, tirando a câmera de seu bolso. “Vocês devem estar pensando ‘Mas por que uma câmera seria motivo para uma reunião desse clube super exclusivo e ultrassecreto?’ e eu respondo: porque essa câmera estava instalada no meu celular e eu posso garantir a todos vocês que ela não deveria estar lá.” A cada palavra que saia de sua boca, Ivory ficava cada vez mais revoltada com a situação. O que aconteceu com a liberdade deles? “Resumindo, tem alguém nos observando.” Completou, antes de jogar a câmera no público.
Com o clube reunido ele sabia que seria mais fácil chegar em qualquer conclusão sobre aquilo. Ele não conseguia tirar a expressão de grave seriedade da sua face, afinal, aquela era sua expressão sempre que estava no meio de uma reunião, a notícia de Fox só piorava sua irritação. Ele já tivera seu tempo para pensar muito no assunto, então podia pelo menos manter uma postura de calma sendo que já havia deixado o momento de pura raiva para trás enquanto marcava aquela reunião. Havia escutado cada palavra da conselheira, mas a atenção estava completamente voltada nos membros das duas partições do clube, esperando uma reação exaltada de qualquer tipo.
— Se estão nos observando com câmeras pelos celulares ao invés de usar a de fábrica, já é motivo para sabermos que não estão nos grampeando, mas isso não é, em nenhum nível, um alívio, mas sim mais motivo para irmos mais a fundo disso.
É verdade, Laurel havia se esforçado mais do que nunca para ler os pensamentos de Fox e saber do que aquilo tudo se tratava, mas era difícil adivinhar o que a amiga estava pensando quando ela parecia focada em outros assuntos propositalmente. As duas saíram juntas do apartamento de Thrisha, indo até a Holly’s a pé. Laurel tinha pego o taco de baseball como Fox pedira - taco que, agora, encontrava-se encostado num canto do subsolo da cafeteria ao lado do machado de Erik.
Assim que Hayward começou a falar, a telepata suspirou, cruzando os braços para prestar atenção. Estava ansiosa desde o momento em que recebera as mensagens de texto e agora, podia sentir o próprio coração batendo mais forte, fazendo com que começasse a descascar seu esmalte em nervosismo. Já sabia de quase todas as informações presentes na introdução de Fox, mas a menção de uma câmera despertou seu interesse: Laurel se inclinou mais na direção da mesa, com os olhos semicerrados. A conclusão de Fox era, obviamente, racional, o que fez com que a telepata engolisse em seco e se enchesse de ódio. — You gotta be fucking kidding me… — sussurrou, esforçando-se para não perder a calma ali mesmo. Depois que Erik falou, assentiu de leve. — Sim, só significa que eles devem estar em algum lugar assistindo a gente com pipoca como num reality show. — Ela bufou. Aquilo era quase um pesadelo extremamente familiar para ela. Foco, Laurel, foco. — Alguém já viu algo parecido com essa… Coisa antes? Sabe, nos seus próprios celulares ou algo do tipo.
Marlie, sentada no canto da sala, observava todos enquanto eles se pronunciavam. Era notável, tanto por suas expressões quanto pela linguagem corporal, como a maioria dos mutantes, se não todos, estavam terrivelmente preocupados com a situação. E não era pra menos: quem ficaria contente ao saber que estava sendo espionado? O objetivo principal de Bradcliff não seria protegê-los do mundo exterior? Ao menos, era o que pregavam a cada um deles, desde seu primeiro dia na cidade.
Ela cruzou as pernas e passou o cabelo para trás das orelhas logo em seguida, inquieta, diferente de como normalmente se comportaria. Marlie poderia ser bem impassível, mas não naquele tipo de situação. “Acho que não, não vi. Não é como se eu ficasse muito ao lado do meu celular, ou posso ser só muito distraída…” ela pigarreou, cortando a falatória. Não deveria se permitir ser contagiada pelo nervosismo do grupo. “E não querendo ser paranoica, mas essa câmera não está funcionando agora mesmo, está? Ou a câmera de outro celular?” ela tateou seu bolso a procura do próprio aparelho, porém se lembrou de tê-lo deixado em cima da cama, na pressa de chegar ao Clube.
Um nó na garganta se forma toda vez que a resposta para a quanto está na cidade precisa ser dita, pois mais de um ano em Bradcliff não fez Keane se acostumar com o local, apenas lhe cultivou uma raiva por humanos. Tal raiva é o que lhe impulsionou a entrar no Clube do Livro que, mesmo não partilhando a maioria dos ideais dos outros membros, já estava em sua primeira reunião. Não conhecia muitos que estavam ali, mesmo que já pudesse ser considerado um morador participativo, e os que reconhecia só trocou algumas palavras.
“Merda!” Deixou escapar. Após Fox terminar toda sua explicação sobre como o governo esteva os vigiando Keane ficou visivelmente irritado, pois como um ex-famoso, já possuía experiência em ser gravado sem seu consentimento, mas nunca se sentiu confortável com isso, sentimento que só piorou desde que teve toda sua intimidade vazada e viu a vida que levava se esvaindo junto. “Vocês já possuem algum plano sobre o que fazer em respeito a isso?” Questionou. “Iremos incitar toda a cidade contra eles agora ou esperar uma hora mais oportuna para usar essa informação?” A necessidade de reagir começava a brotar dentro dele, trazendo o nervosismo junto que o forçava a bater a mexer a perna descontroladamente repetida vezes, após um suspiro longo, tentando se acalmar, Keane percorreu com seus olhos claros todos que estavam ali presentes. “Eles não são os únicos com habilidades para observar os outros.”
O comunicado inesperado de Erik havia alarmado a líder dos Hounds. Ao mesmo tempo que desejava saber do que se tratava e ficava enfurecida pelo mais novo ter se recusado a contá-la, entendia a importância do sigilo nos assuntos relacionados ao Clube do Livro, então simplesmente comunicou os outros Hounds e se contentou em esperar a hora certa. Era paciente, afinal, e se o motivo de tudo aquilo era tão importante, precisava lidar com calma.
Havia chegado séria como sempre, sentando-se na mesa na extremidade oposta a Erik e sua conselheira, com a mão apoiada na mesa segurando o queixo. Prestava atenção em cada palavra de Fox, mas exasperou-se como todos os outros ao terminar de ouvir a notícia, apenas em escala menor. Suas sobrancelhas marcadas se franziram e Reyna comprimiu os lábios. A escória humana certamente passara dos limites. — Não deve estar funcionando se está fora do aparelho. — Respondeu, sem prestar atenção em de quem todos aqueles questionamentos vinham. — Uma coisa é certa: o resto da cidade precisa saber disso o mais rápido possível, independente se estava só no celular de Fox ou dos outros também.
Yansan não conseguia acreditar que estava perdendo seu precioso tempo em mais uma das reuniões sem sentido organizada pelos Lions, não quando estava tão perto de descobrir o que havia acontecido com seu irmão.
Quando a loira finalmente parou de desperdiçar seu tempo, Yas, ao contrário de todos os outros presentes, não conseguiu conter sua animação. “Você realmente acha que observar esses humanos é a reação adequada? A gente já deixou eles se livrarem de muita coisa.” Yansan retrucou rapidamente, um plano já estava se formando em sua mente. “Nós temos que deixar claro que não somos animais em um zoológico para eles ficarem nos observando e dar carinho. Temos que deixar claro que não estamos contentes e eu já sei qual será o nosso primeiro passo… O pai da princesa ali tava colaborando com os humanos, não é? Ta na hora de jogar a merda neles.”
Vlad desde o início sinceramente estava mais preocupado com o estoque de bebidas em sua casa que com uma reunião qualquer, contudo, seu conteúdo provara-se ligeiramente mais interessante que esperava. Ao lado de Katya, sua irmã, apresentava um ar despreocupado e de certa forma divertido. — De repente todo mundo sabia. — resmungou para ela em sua língua natal — Se temos pessoas tão inteligentes conosco por que ainda estamos aqui? — questionou com um ar resmungão, novamente se dirigindo a Katya em russo. A explosão da irmã o fez endireitar-se na cadeira, a observando com um sorriso no canto dos lábios.
— Acho que devemos ameaça-los. Um a um. — falou finalmente, limpando a sujeira debaixo de suas unhas com a faca de um canivete — Cortar uma mão, matar a filha de alguém importante... — deu de ombros — São só exemplos. — tentava ao máximo disfarçar seu sotaque — De onde eu venho é assim que fazem e os homens são respeitados como devem ser. — fincou a lâmina com força na madeira da mesa — Precisamos de um líder. Não um monte de líderes que nem temos agora. Um único líder que faça todos obedecerem, seguirem suas ordens. — sorriu de maneira torpe — Precisamos de uma única facção. — deixou a ideia correr no ar por alguns segundos — Essa separação idiota só enfraquece o poder. Uma nação boa é uma nação unida e ordenada. — soltou um grunhido de aprovação as próprias palavras, seguido de um murmurio irritado — Bando de franguinhos. Pendurem o pai daquela ali no muro e os avisem que serão os próximos. — completou em apoio a irmã.