A vez em que fui feminizado, ou quando Dolores nasceu.
Quando inspiro com mais força ainda posso sentir o cheiro dela, não só do perfume, mas o cheiro dela, seu suor, sua saliva, seus fluidos misturados, o bruto natural do mais puro refino... Desde então, Proust passou a fazer total sentido. A Madeleine dos meus pensamentos tem cheiros e sons... Aquele cheiro que não se engarrafa e não se vende, felizmente ou infelizmente.
Flashes do que aconteceu ontem aparecem a cada piscar de olhos, se fechá-los por mais tempo posso ter um gostinho meio realidade virtual on demand só meu. Tipo um Bird Box às avessas... Será que alguém compra esse roteiro? (Olá, dona Netflix!) Se eu contar essa história ela deixa de ser minha, mas se não contar ela me consumirá neurônio por neurônio.
Já acordei ofegante, talvez pela tensão que se mostrava ser a tônica do dia, ou por ter caído da armadilha de Morfeu, fantasiando o que viria a acontecer mais tarde. Levantei no horário de sempre, com o foco em me preparar física e mentalmente para o tão esperado encontro. Os nove dias corridos entre a proposta e o encontro foram angustiantes. Negociamos o que faríamos, onde e quando. A cada mensagem de texto o coração acelerava, a dúvida é uma certeza constante pra quem tem a insegurança como parceira. Será que ela vai desmarcar? Vai ficar satisfeita com a minha encenação efeminada, ou vou ser vencido pela timidez?
Na caminhada até o metrô o calor e o nervosismo molhavam minha camisa. A ansiedade me fazia olhar o celular a cada dois minutos, sentindo a falsa vibração daquilo que seria uma nova mensagem. O dia finalmente chegou, depois de marcar e remarcar. A tensão se fortalecia com o proibido e a situação dificultada pelo lugar e hora marcados. Como caminhar pelas sombras em pleno sol de verão ao meio dia?
Partimos pra loja, lugar onde se gestaria a desejada persona. Cheguei primeiro e fui timidamente dando corpo e cara àquela que seria e não seria eu ao mesmo tempo. Ousei pedir uma sandália preta, meia pata (seguindo a sugestão dela), de salto fino, queria me calçar com a devida elegância, impressionar aquela que me pedia pra conceber uma figura feminina. Quando fechei a fivela senti o toque no ombro, a voz e o perfume (ah, Madeleine...). A profusão sensorial percorreu meu corpo por meio das sinapses, numa fração de segundos me dei conta de que ela estava ali. Ela veio mesmo! Num vestido leve, preto, com algumas estampas mais claras, com a mochila e a bolsa tiracolo de costume, tudo isso e toda a beleza do seu corpo muito bem suportados por tênis brancos.
Calcei a outra sandália e tentei ficar de pé com a ajuda dela. Devo ter crescido uns 10 centímetros, mas parecia que estava com pernas de pau. Será que ela ficou impressionada? Impressionei a mim mesmo (ou mesma)? Andar de salto é uma habilidade que não se adquire gastando pontinhos acumulados em batalhas... infelizmente. Queria ter esse atributo naquela hora. Baixa a bola, quer dizer, baixa o salto! Torcer o pé não era uma opção. Minha menina seria menos glamorosa. A segunda opção era mais baixa com salto grosso, andei com muito mais facilidade e segurança. A timidez do início estava dando lugar à tranquilidade, a companhia e o suporte dela me deram segurança. Já estava me divertindo, o constrangimento se por ali passou foi muito ligeiro. Olhava pros caras acompanhando suas esposas e mandava mentalmente um “foda-se” pro olhar de julgamento.
Escolhido o calçado, faltava escolher o vestido. Corremos os olhos por modelos e cores diferentes até que ela apontou um vestido preto bem justo, tecido com bastante elasticidade, pequenos cortes horizontais abriam o decote e as laterais na altura do quadril. Sorri me imaginando dentro dele, sorri mais ainda quando o vesti e me vi diante do espelho, gargalhei quando ela, junto comigo no provador, denunciou que eu tinha vestido ao contrário enquanto brincava comigo me cutucando entre cócegas e mão-boba. O resto de tensão foi embora... Por um instante respirei tranquilo e quase esqueci que estava numa zona de risco.
Escolhida toda a indumentária que montaria a minha versão feminina, quase fechando a conta ela trouxe um modelo bem mais detalhado e bonito de sandália, ainda era um pouco mais alta que a outra. Um modelo que a vendedora não mostrou, não sei se pela minha pouca desenvoltura, ou por descuido. Experimentei rapidamente e aprovei a escolha, ficaria alguns centímetros mais alta! Look atualizado, conta paga, partimos pra comprar algumas bebidas pra relaxar e levar embora o resto de tensão. Que vontade de andar de mãos dadas... Não pra mostrar e afirmar que “estava com ela”, mas pra pegar emprestado um pouco do espírito livre que exala naturalmente pelos poros. Isso mesmo, ela sua liberdade!
Compras feitas, rumamos de uber pro atelier, quer dizer, pro motel. O que queria de novo era agarrá-la, beijar com toda a vontade que estava gritando por dentro, tirar seu vestido e sentir seu corpo quente ali no banco traseiro do carro mesmo. “Calma, rapaz, mais vinte minutos”, me dizia o aplicativo. Chegamos à portaria, suíte escolhida e o motorista nos deixou em frente. Optamos por uma com Pole Dance, pois ambos nos divertiríamos na barra cromada. Entramos, subimos, fechamos a porta, largamos as coisas no chão e num movimento quase coordenado nos abraçamos e nos beijamos com força, parecia que a saudade e o desejo reprimido vieram como numa erupção. Nos desvencilhamos e fomos nos acomodar.
Abrimos cada um uma cerveja e enquanto tomávamos ela começou a pintar minhas unhas de roxo com glitter. Pensei: é verdade, eu vou me montar! A drag tá saindo do armário!
Antes de qualquer coisa, eu sentia que estava em ótimas mãos, ela tratou de trazer tudo que precisava pra montar e desmontar essa drag cearense desajeitada de 1,78 (sem salto, tá meu bem?!). Esmalte, maquiagem, pincéis, batom, removedor, demaquilante, bem básico. Entre risos, palhaçadas e mais risos ela me maquiou, com direito a sombra, batom e rímel. Foi estranho, estranhamente bonito, ver meu rosto com certos traços ressaltados e com cores diferentes.
Unhas pintadas, rosto maquiado, o que mais faltava? O vestido e as sandálias! Nascia uma drag, batizei-a Dolores. O vestido ficou bem apertado e curto, nada de “bela, recatada e do lar”!
Dolores nasceu! Uma drag magrinha, longilínea, meio desengonçada, pernas finas e pouca bunda... Quase o oposto dela, com suas curvas a atributos perfeitamente esculpidos. Brincamos no pole, desfilei, posei e fiz um "quase strip" pra ela. Sem cueca, meu pau escapava a cada movimento e eu ficava puxando o vestido pra baixo. Sim, uma drag encabulada. Ríamos e ríamos. Ela registrava e se deliciava com a visão da minha representação feminina. Fiquei um pouco tímido, não consegui ser a sedutora que planejava, mas consegui arrancar risadas, se parar um pouco e me concentrar ainda ouço aquele riso gostoso.
Mais que uma brincadeira ou fetiche, aquele momento me fez pensar muitas coisas. O que me faz homem? O que me faz macho? O que não me faz macho? Qual a importância de parecer macho? No fim das contas tudo é uma grande representação, ou como diria mama Ru, “todos nascemos nus, todo o resto é drag”. Representar não é falsear, é se permitir ser mais de um e ser verdadeiro sendo cada um.
Me pus à disposição dela pra fazer o que ela quisesse, estava ali pra atender um desejo, mas como satisfazer alguém que é mestre na arte de se doar? Sou um aprendiz apenas... Queria me doar por inteiro pra deixa-la satisfeita, queria fazer com ela o que ela fez comigo desde o primeiro momento, pois ela é aquela que traz a alegria, que traz o que há de mais positivo, de mais vigoroso.
Toda essa experiência corporal e ontológica serviu como um preparo pro que viria. A expressão mais pura do sexo, com entrega, liberdade, generosidade, excitação extrema, força e leveza... Ainda de vestido, maquiado e de salto ela me tomou pra si. Naquele momento eu era eu mesmo e Dolores, era um ser disposto e à disposição. Foram cinco horas entre o céu e o inferno, entre o êxtase e a euforia. Tudo ficou tão simples, tão cruamente sublime, tudo se encaixava e se coordenava pelo comando mais sutil. Acho que dessa vez despimos mais do que nossos corpos, despimos nossas peles, fui eu, fui Dolores, fui eu, fui meu, fui dela, fui dono, fui tomado, fui apaixonado.
A narrativa dessa história, qualquer narrativa dessa história, nunca será completa, nem se no meu lugar estivesse Funes, o memorioso... Nem se lentes, câmeras e microfones estivessem a captar todos os movimentos e sons ainda faltaria o cheiro, o gosto, o toque, o corte fotográfico do meu globo ocular. É uma história só minha, vivida na pele com pele.
Ê memória... só te peço pra não me dar uma rasteira e ficar sem o prazer de rever esses momentos sempre que quiser. Mas memória é bicho solto tal qual aquela que me deu o prazer a sua companhia, não se controla, não se doma, apenas se aprecia. A memória é a lembrança do que já foi, do momento morto, mas naqueles momentos eu vivi e revivi. Deus definitivamente é uma mulher, pois só ontem eu recebi o sopro da vida e o hálito era feminino.