Acabei de ver o filme Adeus, professor. E me fez pensar na minha mãe.
Eu não acreditei que ela fosse morrer, não tão rápido. Fazia pouco tempo que passara por intervenção cirúrgica, na tentativa de limpar o máximo possível as células cancerígenas.
Lembro de ir pra minha vó, pois levaria minha mãe no médico, e não me recordo porque tivemos de passar lá, e meu tio me chamou na sala e falou “ o resultado de exame da sua mãe deu me-tas-tas-tico” _ gaguejando. E relatou que não sabia o que era, mas achava que era sério.
Eu sabia muito bem o que significa metástase. E por mais que eu soubesse, havia em mim esperança.
Minha mãe não teve uma conversa comigo sobre isso, e era muito importante que tivéssemos tido essa conversa. Ela estava tentando da maneira dela, e eu da minha. Eu estava cheia de “ obrigações” e ela resolveu me poupar. Conversou com várias pessoas, dessas conversas num tom de despedida, de ir deixando as coisas “ meio prontas” , mas comigo não. Eu a acompanhei em suas internações. Mas, não fazia ideia que estávamos nos despedindo. por mais que estivesse visível a fragilidade de seu corpo.
Em seus últimos dias, dentro de um quarto de hospital, quando ela conseguia ficar acordada, conversávamos. Mas a dor que estava sentindo estava tão grande que aceitou pela primeira vez tomar morfina.
Em uma sexta-feira a oxigenação baixou muito, e técnicas de enfermagem entraram com uma enfermeira sem grandes alardes e disseram que iriam realizar ventilação com ambu. Eu assisti, mas sem ter total compreensão da seriedade da coisa e da delicadeza do momento. Explicaram que iriam pedir a médica para vir conversar conosco e logo ela subiria para a uti. Uma médica entrou e disse que havia a hipótese de ter se espalhado para o pulmão.
Acho que minha mente ainda estava elaborando tudo, e em profundo estado de negação.
Nesse pouco tempo que se passou, ela pediu água, e me levantei para pegar. Ela mal estava conseguindo tomar água, pois o câncer era de boca e garganta.
A ajudei a tomar um pouquinho de água e ela me disse “mamãe te ama, e repetiu mais uma vez, mamãe te ama” e eu disse que também a amava. Minha mãe sempre dizia que me amava, mas eu senti naquele instante que ela havia dado ênfase, foi o jeito dela de talvez dizer mamãe está indo, mas fica bem. Eu devia ter abraçado ela bem forte, pois seria nosso último abraço. Mas eu só queria deixar ela o mais confortável possível por conta da dor.
ela no fundo sabia, que era uma despedida, me questiono se ela também estava tanto em negação como eu, não acho que ela queria ir embora.
Rapidamente ela subiu para uti, não houve alarde da equipe, e não me chamaram para dizer algo que pudesse me fazer pensar que ela podia realmente estar morrendo. Ficamos juntas na uti até umas nove horas da noite. Eu já estava a mais de 24 horas no hospital, decidi ir pra casa dormir e voltar no outro dia. O outro dia era sábado de manhã. Fui acordada com a notícia que ela havia falecido, meu chão abriu. Me culpei por não estar lá, e não saber como havia sido. Eles mantiveram o funcionamento do corpo até que chegássemos para nos despedir. Nos despedimos, conversamos com ela, e lágrimas saíram de seus olhos. Segundo os médicos ela não estava mais ali. Mas no meu coração, ela estava ali sim, ela se despediu do corpo, e pudemos dizer vai em paz, e siga em paz. O amor será eterno. Como é. E a vida é breve e frágil. Já se passaram anos, mas toda vez que vejo algo do tipo, eu lembro, e me pergunto se poderia ter sido diferente.








