Os estampidos explodiam por trás das barreiras invisíveis e sólidas que Alex projetava. Connor lançava feitiços rápidos e dois deles já eram capazes de destruir qualquer escudo forjado, sendo que o atual sempre seria mais frágil que o anterior caso fosse conjurado outro logo em seguida. A barreira explodiu pela segunda vez. Alex saltou para trás com a espada ainda em mãos, usando-a para se defender de um lampejo azul que Connor lançara aproveitando a brecha do irmão estar no ar. Para o horror de Alex, Connor havia lançado um explosivo prevendo que usaria a espada para se defender. A explosão jogou Alex para trás no mesmo segundo em que o baque metálico lhe ensurdeceu por instantes. O pulso fez esforço para manter a espada em mãos, mesmo com a explosão e então o sentiu torcer. A dor excruciante acendendo até o ombro e latejando na nuca. Suas costas bateram contra o chão, arranhando e queimando sua pele com o atrito. - Corrente das almas! - de baixo das mangas da jaqueta de Alex emergiram correntes em chamas negras que abraçaram o primeiro Pinheiro que tiveram contato no caminho. A força mecânica jogou o ex-diretor para o outro lado da árvore fazendo-o dar uma rápida volta ao redor. Soltou as correntes e deu uma suave cambalhota no solo para evitar o impacto. Ao soltar as correntes, as chamas corroeram as estruturas metálicas ovais interligadas, deixando no lugar, flagelos de chamas negras que se dissolveram no ar. - Avada Kedavra! - Alex estava cansado de ouvir aquelas palavras. Evitando de fazer outro feitiço de proteção, mergulhou desviando do feitiço. Aonde estava a criatividade dos bruxos? Até mesmo dos mais maníacos que adoravam ver as vítimas sofrer ao invés de simplesmente morrer. Eliminar inimigos tinha virado prioridade do Ministério. Connor lançou outro feitiço enquanto ele ainda estava no chão. As pedras explodiram e Alex foi lançado para frente, caindo de bruços na terra dura. Seu peito cedeu e algumas tossidas engasgaram o Pronteriano. Sangue escorria da cabeça, manchando os cabelos loiros e a pele pálida. Estava fraco, cansado de lutas incessantes e de ter que fugir. Não queria mais lutar contra Connor. Esperou por mais um último feitiço, no fim das contas feliz por ser a ultima vez que em que teria que ouvir aquelas malditas palavras. Cansado de ter que batalhar com seu irmão sempre que ele se aproximava. Era como se achassem que Alex quisesse se vingar ou algo assim. Ficaria mais feliz ao saber que Emily havia acabado com ele, ou Júlia. Não... Júlia não. Sua melhor amiga não. O amor de sua vida não mataria o seu próprio irmão. Mesmo depois de tudo que ele havia feito. Mataria sim, e sem pensar duas vezes, mas Alex era tolo demais para ser convencido da verdade quando a garota estava envolvida. Connor pisou em alguma folha seca e a realidade voltou à tona com o estalo crocante do outono. Ele não havia lançado a maldição da morte em Alex como o mesmo desejaria que tivesse feito. Em vez disso caminhava até ele. Lentamente. Lento como a morte chega. Alex desejou que fosse rápido porque sabe que pode mudar de ideia e fazer alguma besteira, como tentar lutar. Tentar sobreviver. Se não morrer nessa batalha, poderia morrer na próxima. Estava cansado de adiar o inevitável. Todos morrerão algum dia, e Alex desejou que o dia dele tivesse chegado. Então Connor está do seu lado, de pé, encarando de cima. Sua sombra era gigantesca em cima de Alex. O irmão mais velho tremia no chão. - Levante. - mandou Connor. Alex tentou se lembrar da palavra: - Não. A palavra soou como um gemido que escapou dos lábios do bruxo. A espada de Gryffindor ainda sendo pressionada na palma esquerda pelos dedos. Firmes. Connor respirou fundo como se pedisse paciência para si mesmo. Abaixou-se. Passou a mão pelos cabelos de Alex como se acariciasse. Na verdade era exatamente isso que ele fazia. Acariciava Alex, seu irmão mais velho. O toque de Connor era frio, morto. - O vermelho de suas hemorragias realça a palidez da vida que se esvai. - a voz de Connor se arrastava e enquanto seus dedos dançavam entre as mechas, ele procurava a origem de onde o sangue vazava do coro cabeludo. Encontrou então um pequeno buraco onde uma pedra provavelmente abrira um talho que por pouco não lhe causou um traumatismo. A batalha entre Voldemort e Hashirama não podia mais ser ouvida. Acabara? O homem de armadura vermelha venceu? Vencerá? Está vencendo? Connor passou a varinha pela cabeça de Alex, mais uma vez os fios loiros ondularam e se fixaram no ar antes do couro cabeludo. A ponta da varinha encaixou no ferimento. Alex gritou com a dor quando seu irmão colocou pressão sobre o objeto. Agora encostando em seu crânio. Gritar só piorava tudo. - Crucio. - sussurrou calmamente Connor. Soou como uma melodia. Os gritos se seguiram noite adentro, o céu fez todos se esquecerem de que o sol estava emergindo a uma hora atrás. O mundo vibrava na visão do bruxo. Vibrava em pânico e tortura. Alex sentiu a dor mais dolorosa que já sofreu na vida. Se sobrevivesse não sofreria nada pior depois disso. A varinha dentro de um ferimento em sua cabeça dando as ordens a devida maldição da tortura. O mundo se distorcia em sua visão. Ele ia ficar louco em segundos. Alex se esqueceu de que foi treinado para ignorar a dor, que conseguia controlar suas batidas cardíacas, que podia pensar em uma maneira de escapar. Esqueceu de tudo que poderia ajudar ou tornar as coisas menos piores naquele momento. Simplesmente aceitou que perdera e agora iria sofrer. O feitiço cessou, mas Alex sabia que ia levar outra dose logo em seguida, e depois outra, e depois outra, até que enlouquecesse para ser morto ou simplesmente morresse antes mesmo de conhecer a insanidade. Mas não... Connor tirou a varinha de dentro da cabeça de Alex e a dor excruciou uma última vez... Por enquanto. Um arrepio percorreu todo o corpo do homem no chão. - Porque não está reagindo? - perguntou Connor como se importasse. Houve uma pausa muito longa até Alex conseguir grunhir um mínimo ruído entre os lábios cortados: - Não vale a pena. A atmosfera enegreceu ainda mais, se é que isso fosse possível. O arrepio percorreu o corpo de Alex de baixo para cima e estalou no topo de sua cabeça, latejando. A expressão de Connor endureceu: - Porque não? Para a surpresa tanto de Alex como de Connor, Alex riu e cuspiu um pouco do próprio sangue ao fazer isso. A cabeça teve mais uma ascenção a dor, mas ele não conseguiu manter a seriedade, na verdade nunca havia nem sequer tentado. - Isso é tudo que você sempre quis não é mesmo? Vencer de mim em algo. - gemeu Alex por entre os lábios que escorriam sangue. A expressão de Connor se solidificou ainda mais. Como uma pedra fria e inexpressiva. Alex não precisava olhar para ele pra saber como esta. Era a mesma reação que o garotinho Connor tinha feito quando descobriu que o irmão mais velho era o herdeiro de todo o poder do clã. - Uma pena que eu vou morrer sem você conseguir realizar este sonho. - Você está no chão, Alex. Eu estou de pé. Um ponto de vista interessante, mas não necessariamente certo. - As histórias de heróis nunca acabam como as crianças ouvem. Os adultos escondem com o "feliz para sempre". - Alex parou para soltar o resto do ar e recuperar a respiração com dificuldade - Mas você, Connor, você perdeu os pais cedo demais para que eles pudessem te ensinar isso. E só você é o culpado disso. Você os matou. As palavras pesaram. Desde que tudo se passou, Alex nunca tinha dito isso. Nunca tinha falado com o irmão sobre o assunto. Passaram tempo demais longe um do outro, criaram suas histórias, razões e motivos, mas nada escondia o fato de que Connor foi responsável por derramar tanto do sangue igual ao dele. Todas as vezes que se viram desde a morte do clã, eram com varinhas em mãos. Ambos prontos para matar um ao outro, nunca para ter uma breve conversa, mesmo que nenhum dos dois tivesse esquecido da voz um do outro. Aquela criança loira de olhos azuis jamais adivinharia que seu irmão caçula ainda seria capaz de derramar tanto sangue por inveja. Pelo fato de que se Alex morresse, ele seria o herdeiro. Mas na época haviam muitos protegendo Alex. E Connor teve que matar esses muitos. O que ele não sabia, é que seus pais faziam parte dos defensores. Ambos tinham a impressão de que jamais diriam isso um ao outro, embora Alex no começo de tudo, após a aceitação das atrocidades cometidas pelo irmão, quisesse dar uma lição em Connor. - É. Alguns sacrifícios precisam ser feito para se obter o que precisa. - disse Connor finalmente. Com a voz menos autoritária. O mesmo tom de voz de vergonha que Alex só havia ouvido quando eram crianças, quando Connor assumia ter comido um doce escondido para seus pais, principalmente para sua mãe que sabia o que os filhos iam fazer antes mesmo que fizessem. Os olhos doces porém sérios de sua mãe, Mariana. Do tipo de pessoa que queria ser dura e firme com o filho, mostrá-lo que está errado, mas algo em seus olhos ainda guardava uma doçura tão grande que logo ela perceberia que seu marido que teria que ser o responsável pelas broncas. Uma mulher que foi apelidada de Cinderella pelos elfos locais, que tinham o prestígio de vê-la enquanto trabalhava com as atividades manuais. Era lindo de ver. As garotas menores tentavam imitá-la. E seu pai, o homem que os outros maridos tentavam se espelhar. Aquele volumoso cabelo ruivo, sorridente e com a voz grossa e gentil. Honesto, e um contador de histórias implacável nos bares de Wilterhan ao redor da Ordon Village. Mas tudo isso se fora. Todo o clã fora destruído e brutalmente assassinado pelo exército inimigo que Connor havia revelado a atual localização. Quando todos já estavam esquecendo os traumas da guerra, conseguindo enxergar os dias como uma oportunidade de viver e não de sobreviver. O caos voltou com tudo, envolto em chamas e sangue, levando todos. Homens, mulheres, crianças, árvores e rebanhos. - Eu tenho pena de você, meu irmão. - disse Alex - esse tempo todo ainda querendo fugir da sombra do irmão mais velho, e pra conseguir isso tem que matá-lo. Algo estalou e rangeu de dentro da boca fechada de Connor antes de ele dizer: - O que está morto e deitado, não possui sombra. Connor ergueu a varinha pela última vez diante de Alex. ******************************************* Violet encolhe a mão. Acertará a garganta de Ichyro em cheio, destruirá a traqueia, esmagará o pomo de adão e quebrará o pescoço. Ele olha fixamente para cima, para ela, seus olhos já mortos, esperando o golpe. Pensa no irmão envenenado e morto, engasgado com a própria saliva espumada amarela, o sangue saindo pelos olhos e nariz enquanto convulsiona e perde o ar. - Adeus, criança. - diz Violet Quando ela ergue o braço, sente a dor aguda nas costas, seguida de um arrepio. Não consegue se mexer. Uma mão agarra seu ombro e a impede de cair. Violet sabe de imediato que sua coluna foi quebrada. Seus braços e pernas estão paralisados. Seus olhos se arregalaram. "Eu sou a criança" Ichyro consegue se levantar, com o rosto molhado de suor, sangue e lágrimas. Os olhos vermelhos e inchados, bochecha respingando o sangue de onde ela havia mordido. - Você está uma merda - comenta Dean com a hidden-blade enfiada entre as vértebras de Violet. Ele torce o braço dentro da garota e ela geme com a dor. - É, agora você está melhor do que eu. - comenta Ichyro cuspindo no chão, sua bochecha lateja, seus pulmões reclamam com as lascas de costelas quebradas roçando em sua estrutura rosada. As asas de Dean estavam mais do que curadas. Pequenas labaredas azuis e verdes escapavam por entre as penas de seus membros aviários. O hamadan tinha sido ativado para alcançar a chance de salvar o irmão. Ichyro olha para os olhos violetas de Violet por uma última vez, antes da lâmina de Dean entrar pelo cerebelo e sair pela testa. Violet está morta. É hora de Dean ajudar Vida e Fox contra Rabicho, mas Ichyro precisará ficar fora dessa. ************************************************ Júlia abriu os olhos devagar. Estava desnorteada mas ainda não havia se dado conta de que estava confusa. Ouvia vozes curiosas ao redor dela, falando coisas que ela não compreendia por ser de uma língua diferente. Alguém se aproximou e se abaixou ao seu lado - Como se sente? - era Emily. Em seguida Júlia ouviu o barulho horrendo de embalagens de objetos hospitalares, que estava acostumada a ouvir a vida inteira. - Não tão mal. - respondeu a bruxa se dando conta de que o braço estava enfaixado, mas sem se lembrar porque estava precisando de cuidados. - Sempre as respostas mais otimistas. - Emily deu um riso curto - Essa morfina que coloquei em você mais cedo é de Kamino, você pode ter dificuldade de se lembrar das coisas, mas logo logo você se lembrará de tudo. - Aonde estamos? - perguntou Júlia rapidamente. Sua visão voltara ao normal, ela reconheceu que eram os os alunos que de Durmstrang que estavam ao seu redor mais cedo, pois viu a capa de uniforme de inverno em cima de uma cadeira de balanço. - Estamos em um lugar seguro, Júlia, não se preocupe. Agora fique aqui. Não levante ou vai se encrencar comigo. Preciso cuidar dos outros. - disse Emily saindo apressada, sua bota fazendo barulho no piso de madeira. Quando Emily se foi, Júlia teve que raciocinar: A sala tinha paredes com curvas para os lados, como se estivesse dentro do casco de um navio, o balanço do mar lhe confirmou a hipótese. Não estavam em movimento, mas a água estava agitada. Havia uma mesinha com um copo de água, sua varinha, algumas seringas, ao lado um vidro de morfina e um algodão com álcool. Olhou para seu braço e se lembrou. A mordida da criatura, o sangue, a escuridão, a presença de Connor, Alex. Já deviam estar lutando. Quanto tempo ficou apagada? Sabia que não era muito, mas suficiente para Alex estar morto. Apanhou sua varinha em cima da cômoda e fugiu sem ser vista.