Mãe...
Entendo que para ti seja incompressível essa falta de interesse em coisas rotineiras, que seja incompreensível o motivo de eu não tirar o cabelo da escova de pentear, ou que tu não entenda o porque da procrastinação na hora de fazer tarefas simples como estender uma roupa. Entendo que tu não entenda nada disso e não lhe culpo por isso, nem eu entendo. Eu sei que tu não sabe o motivo de eu estar trancada no quarto, quase que todo o tempo deitada na cama, assistindo umas bobagens por aí ou dormindo, eu sei que tu não sabe e não tem problema, nem eu sei! Mas, mãe, por favor compreenda que eu tento, todos os dias, eu tendo melhorar, eu tento mudar pra te agradar, eu tento ser uma pequena alegria em sua cansativa e monótona rotina. Mesmo que eu não faça a janta, mesmo que eu não arrume tua cama, mesmo que eu esqueça de ir ao mercado, eu ainda assim estou tentando. Mãe, por favor, saiba que eu vou dormir pensando em fazer a janta, em arrumar tua cama, em ir ao mercado, mas eu acordo e tudo se foi. Acordo e tá vazio aqui de novo. Eu quero, mas tem algo que não me deixa te retribuir tudo o que tu faz pra mim, tudo o que tu já abriu mão por mim e tudo o que tu merece só por ser quem tu é e viver como tu vive. Amanhã eu vou desejar lavar a louça rapidamente, estender as roupas que estão na máquina, tirar os cabelos da escova de pentear, mas sei que não vou fazer e quero lhe pedir perdão por isso. Não faço pois sou preguiçosa? Não sei, mãe, juro que não sei. Um dia eu vou fazer, vou ser a filha que tu foi, a filha que tu merece. Queria que tu pudesse ver as coisas que penso, as coisas que sinto, talvez isso lhe ajudaria a não esperar tanto de mim. Não sou a Rosa, mãe, sou apenas a Margarida e ninguém espera tanto das margaridas.











