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O Porquê de Ser Não Binária Mas Não Usar Pronomes Neutros
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Avisos de gatilho: misoginia, transfobia, transmisoginia, racismo, silenciamento e agressões psicológicas contra a negritude e a feminilidade de mulheres negras, opressão de gênero, negação de identidade, sexualização do corpo gordo/de crianças
Este texto foi traduzido e disponibilizado para nosses apoiadories no dia 5 de agosto de 2017
Muito antes deu ter me assumido não binária, pela maioria da minha vida, eu tive dificuldades com o gênero e a performance de gênero. Passei a maioria da minha infância e adolescência sendo violada por ser uma menina Negra e gorda. Frequentemente eu era tratada como se fosse “um dos meninos” ou um objeto (“aquilo”), porque eu não era feminina ou menina o suficiente para ser considerada atraente, ou merecedora de ser tratada como ser humano, ou vista como inocente/incontrolável. Minha negritude e gordura e proximidade com a mulheridade sempre foram tratadas como se fossem coisas de outro planeta, fui marginalizada duma maneira que muitas outras pessoas não vivenciaram.
Como vemos na mídia e em nossos espaços interpessoais, feminilidade é significativamente produzida através da branquitude e da magreza. Sou nenhuma dessas duas coisas. Meu corpo, sendo maior e sendo negro, sendo lido como cisgênero ou DMN (designado mulher ao nascimento) mas não sendo visto como uma menina/uma mulher tem me forçado a lutar com o gênero de maneiras específicas e violentas.
Ao crescer,as roupas “de meninas” não conseguiam servir em mim na maioria das vezes, então fui forçada a comprar na seção “masculina” para conseguir achar roupas. Por si só, isso é uma forma de enviadescer o gênero, incorporar uma visão da gordura como uma qualidade inconforme ao gênero, porque os corpos “das mulheres” devem ser pequenos e delicados, devem ser vistos como controláveis (a gordura é vista como poderosa e esmagadora pelo olhar da masculinidade), para o consumo mas só quando você se encaixa em certos padrões de beleza e de humanidade. Meu corpo nunca foi assim. E minha única oportunidade para achar uma maneira de expressar o meu gênero numa maneira que me permitiria ser vista como “mais feminina” me foi negada, poque as roupas que afirmariam a minha feminilidade não estavam disponíveis no meu tamanho.
Além dessas questões de apresentação do meu gênero, minha performance de gênero foi constantemente policiada por adultos em minha vida. Mis professories reconheciam a minha feminilidade o suficiente pra me mandarem fechar as pernas – me mandaram me encolher e sentir humilhada. Mas validavam a minha falta de feminilidade ao não me enxergarem como vítima em potencial ou como alguém que poderia sofrer quando eu estava constantemente me defendendo de mais colegas cruéis. Constantemente policiavam o meu tom de voz, porque eu era vista como “agressiva demais” e “brava”, ao mesmo tempo que me mandavam parar de usar tantas gírias que eram vinculadas à feminilidade. Me mandavam ficar em silêncio quando eu estava empolgada demais, mas era punida se ficava quieta. Os sinais mistos e o rigor da performance de gênero binário se tornaram difíceis de entender internamente.
Enquanto eu vivenciei um tipo específico de invisibilidade, policiamento e falta de recursos para o meu corpo / gênero, comecei também a vivenciar a sexualização do meu corpo por homens mais velhos que enxergavam a minha gordura e o desenvolvimento de partes do meu corpo através duma lente de suposta mulheridade / corpo adulto. Ter seios maiores e uma bunda muito maior quando eu era menor se tornou uma premissa para homens se justificarem ao me sexualizarem / me agredirem. Como eu fui negada o gênero de mis colegas de minha idade, e por adultos que não me desejavam sexualmente, eu também estava vivenciando um tipo de violência de gênero muito específica de homens mais velhos que estavam mirando em meu corpo como uma representação de mulheridade / abundância / disponibilidade sexual através de uma lente de violência misógina.
Ao longo da minha vida, eu estive vivenciando tanto dessa jornada chamada mulheridade/feminilidade negra ao mesmo tempo em que fui vivenciando a negação da conformidade de gênero. Essa luta interna me levou a uma realização muito difícil quando eu cresci e achei mais recursos, linguagens e ferramentas para navegar a minha identidade de gênero: eu me senti tão desconectada da noção de me enxergar como uma mulher Negra, ao mesmo tempo que me sentia muito desconfortável em dizer que eu não me identifiquei com / não vivenciei a experiência da mulheridade Negra. Eu encorporei tanto da violência e trauma que eu enfrentei, e resiliência e poder como coisas pertencentes à mulheridade e feminilidade Negra. Ao reconhecer isso, eu escolhi usar pronomes femininos porque estes pronomes me foram negados e são uma derivação e um presente do tempo que eu passei construindo a minha maneira Negra e afeminada, num mundo que me negou a fazer isso. Representam o esforço e a luta que eu precisei ter para construir a minha mulheridade Negra dentro do meu alinhamento de expansividade de gênero.
Não gosto de pronomes neutros porque sentem muito alheios pra mim. Não é uma crítica àquelus que combinam com estes pronomes, mas é mais um questionamento deste termo “neutralidade de gênero”, em um mundo onde nada é neutro ou objetivo, e muitas vezes os padrões são baseados na masculinidade e na branquitude. Os únicos momentos em que eu gosto de usá-los são em espaços que se sentem confortáveis ignorando a minha identidade de gênero e continuam me enxergando como uma mulher cis. Estas situações me provocam sentimentos de que eu preciso provar algo com meu gênero, porque eu me declarar “não binária” nunca será o suficiente, especialmente sendo lida como cis / DMN e afeminadíssima navegando numa forma em que as pessoas sentem conforto na minha apresentação e perfomance. (Por exemplo, pessoas me verem usar maquiagem, perucas e vestidos parece se alinhar com as suas ideias de feminilidade e as presunções sobre meu corpo ser aquele de uma mulher). Mas o que significa se eu correr para os pronomes neutros ao enfrentar a violência ao invés de ser vista além de minha apresentação e perfomance de gênero ?
Não sou uma mulher Negra mas eu me identifico com a mulheridade Negra e as experiências que eu tive ao criar a minha própria mulheridade pra mim mesma quando isso sempre me foi negado. Não só a violência, a misoginia racista, e a desumanização da minha pessoa para me roubarem a minha infância, mas a resiliência cultural e social e inovação de ser uma menina Negra faz muita parte do meu ser.
Não sou um homem Negro ou uma pessoa transmasculina, mas me identifico com as experiências que tive com ser lida como masculina por causa da minha gordura Negra e minha feminilidade Negra sempre foi enxergada como tal. Tanta da feminilidade Negra e da perfomance dela significa ser barulhenta, exigente, verdadeira, mesquinha, favelada, forte demais, tudo demais, poderosa demais. A maneira em que a branquitude e a ideologia da supremacia branca são construídas, não somos vistas como femininas ou como mulheres ou como humanas. De várias formas, a masculinização de nossos corpos e a performance tem sido a base para a nossa desumanização e a nossa negação da conformidade de gênero. A Transfobia racista vivenciada por todas as mulheres Negras, afeminadas e meninas é porque a nossa beleza, humanidade, e identidade de gênero são constantemente vistas sob uma lente violenta de branquitude.
Ao reconhecer todas as minhas experiências com gênero, não tem nada neutro aqui. Não sou neutra em qualquer coisa que eu faço. Sou muito parcial, barulhenta e uma bixa bagunçada que vive pelo drama nesse corpo e no meu gênero. Mas mesmo assim, pronomes neutros não se encaixam comigo, pronomes femininos se sentem os mais alinhados com meu gênero porque eu tive que lutar para estes pronomes na minha jornada para conseguir ser vista como uma menina / mulher Negra, ao longo da minha vida inteira, por todas as maneiras em que o gênero, a segurança e a humanidade me foram negades. E até mesmo gora, percebo que tanta coisa que eu vivenciei tem me levado a estes pronomes. Ainda posso ser não binária e ter pronomes pressupostamente “binários” porque eu não acredito que existe neutralidade no meu gênero, nem creio que pronomes neutros sejam apropriados para a MINHA Negritude. Meu gênero tem uma jornada, um trauma profundo e um mundo de resiliência por trás dele. Em todo momento em que eu tenho a oportunidade de dizer meu gênero a alguém antes que elu o pressupõe é um ato de poder comunitário.
Texto original por , Ashleigh Shackelford neste link
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