Wheatpaste art at São Paulo. Lambe-lambe em São Paulo.

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Wheatpaste art at São Paulo. Lambe-lambe em São Paulo.
Não, não é sem querer, nem vai ter volta.
Pinheiros, São Paulo - Brasil.
Ooi, gente fiz 1 ✨apoia.se✨ onde cês podem receber recompensas tipo esses lambes que eu faço á mão, tamanho A4, por alguns reais por mês, entra lá pra ver o que + to oferecendo: 🌈 https://apoia.se/kahalia 🌈
A força da escrita feminista de Ryane Leão
Conheci Ryane, assim como a escritora G.L., no Wallpeople, evento que a gente organizou em 2015 reunindo vários artistas no Largo da Batata, em São Paulo. A força da poesia dela é arrebatadora, é como se fosse um conforto à alma. Aquele conforto que toda mulher precisa ter no final do dia, depois de passar por tantos machismos na rotina. É um alívio.
Quando mudou-se de Cuiabá para São Paulo, em 2008, a estudante de Letras e escritora, Ryane Leão, ficou impactada com os muros caóticos da capital. “Eu saía pra andar pra ficar anotando as frases que via ou escrever sobre os grafites. Não demorou muito pra eu querer fazer parte disso, que até hoje pra mim é uma forma justa de fazer arte (e acessível às pessoas). Estamos fazendo arte por lá pra lembrar a todos de que a rua é nossa”, conta. E foi assim que criou o “Onde Jazz Meu Coração” – que também é música do saudoso Belchior -, desta necessidade de estar na rua empoderando as minas.
Confira a entrevista na íntegra:
- Idade, formação, onde nasceu. 28 nos, cursando Letras na UNIFESP, nasci em Cuiabá.
- Está em SP há quanto tempo? Estou em SP há 9 anos.
- Escreve há quanto tempo? Desde sempre, não sei a idade certa, mas desde pequena. De qualquer maneira, muito mais desde que mudei pra SP aos 19 anos. Escrever é estar viva.
- Quando começou a colar lambes? O que te impulsionou? A possibilidade de levar a poesia pra perto das pessoas, o espaço ocupado por mais uma mulher na arte de rua, o respiro que um poema pode trazer pro seu dia. São tantos os motivos pra ter começado e não ter desistido até hoje, tantos. Só sei que a poesia transforma. Tira a gente do lugar. Lembra da nossa essência. Nos movimenta. Dá vontade de mudar a realidade. Provoca, grita, chama pra luta, chama pra vida. Vez em quando precisamos de um desses sintomas (ou todos).
– Qual foi o seu primeiro lambe e sua primeira poesia? Meu primeiro lambe foi o “meu coração é um puto que manda em mim”. Hoje em dia ele manda numas coisas ainda, mas bem que tenho aprendido a balancear emoção e coração. A gente precisa entender que amor é combustível sim, mas somente quando há troca. E amor que dá sentido mesmo é amor próprio. Parece que não (haha), mas ainda amo esse lambe.
- O que te inspira em teus textos? A luta das mulheres, principalmente a luta das mulheres negras. Como mulher preta ativista, trabalho com essa pauta dentro e fora das ruas. Além de poeta sou professora de inglês e dou aula com foco em feminismo negro e cultura afro para grupos de mulheres negras. Resgatar nossas raízes é essencial, e esse resgate também vai pros meus poemas. Me inspiram também as minas que caminham comigo pelos saraus e slams de SP: Mel Duarte, Luz Ribeiro, JadeQuebra, Ingrid Martins, Gabi Nyarai, Jenyffer Nascimento, Elizandra Souza, Raquel Almeida, Patrícia Meira, Mariana Felix, Tawane Theodoro, Deusa Poetisa entre muitas outras. Sem contar as manas de outras frentes artísticas (como Issa Paz, Sara Donato, Brisaflow, Ma boo, Nenê Surreal). As minas estão juntas no fronte e não vão recuar.
– Você costuma fazer seus trabalhos só em SP ou quando viaja também costuma fazer? Costumo levar os lambes comigo pras cidades que viajo pra poder espalhar um pouco em cada canto. O lambe em si é prático, além de ter sempre comigo rolinho e cola caseira de farinha. Além disso, tenho um bonde do lambe-lambe, então a gente se ajuda a se espalhar. Essas meninas que colam comigo hoje em dia participaram de uma oficina minha e da Lela Brandão (@fridafeminista) no início de 2016. Alguns dos projetos que estão na ativa depois desse dia: @historiadefogo @poesiamovel @projeto.encontrarte @manifestodasmina @feminismonasruas
- Como é a reação do público quando te vê colando os lambes? Já sofreu algum tipo de preconceito com isso? Das coisas mais simples, muita gente diz que é sujeira, depredação. Já puxaram meu cabelo, questionaram em voz alta se mulher tem que estar fazendo isso na rua. Quando colo sozinha todo homem mexe. Todo homem. De bonde é melhor porque os caras se cagam. Apesar de já ter sofrido essas violências, tem sido muito pior a representação dos artistas e da arte de rua no Brasil. Nesse momento sofremos com uma política totalmente embranquecida que considera somente o que está no museu como arte e com uma violência severa aqueles que resistem com suas ideias, rolinhos e latas de tinta nos espaços públicos. Somos marginalizados, considerados vagabundos e desocupados, mas fazemos disso luta.
Tem dias que é exaustivo, mas sei que somos muitxs reagindo no fronte. Nunca vi revoluções acontecendo de outra forma.
- Você vê mais aceitação do lambe do que das outras formas de arte urbana? Sim, o lambe é folha e cola. Parece que dessa forma fica mais simples na cabeça das pessoas. Existe muito preconceito e desrespeito com o grafite e o pixo e muita gente nem sabe que lambe-lambe também é grafite. Acredito que a melhor forma de ampliar o espaço para os mais variados tipos de expressão seja a informação. Oficinas acessíveis, saraus que convidam artistas, encontrões independentes, palestras, vídeos, fotos. Tudo vale. Precisamos nos fortalecer entre nós e entre todos, e chamar pra luta quem tem a arte pulsando nas veias – ou ainda ajudar as pessoas a encontrarem essa pulsação.
Aconselho lerem e conhecerem o trampo da Nenê Surreal, que oferece essa perspectiva da mulher no grafite (a violência de gênero nesse meio, o recorte racial, etc). Essa mulher é inspiração pra todas nós que resistimos.
- Sua poesia empodera as mulheres, principalmente as negras. Conta mais sobre sua luta. Sou mulher preta, lésbica, poeta e do candomblé. Tem um poema meu que diz isso e depois complementa “bem do jeito que o mundo não quer, que pena, porque é assim que é sempre será”. Com o resgate da minha identidade negra pude escrever mais sobre isso, o que causou uma forte identificação de muitas mulheres com a minha escrita. Também realizo oficinas de escrita para mulheres negras, porque somos nós na base de toda a pirâmide social. Somos as que mais se calam, as que ninguém quer ouvir, as que desde a escola são silenciadas, as que não são motivadas a gritar. Somos as que mais morrem todos os dias. Tem um filme com uma fala da Viola Davis que me representa muito e diz bastante sobre meu trampo: ” (…) Podemos começar dizendo a verdade. Ninguém nunca tinha me perguntado qual é a sensação de ser eu. Uma vez eu disse a verdade sobre isso, e me senti livre”. Está no filme “Histórias Cruzadas” quando a personagem fala um pouco sobre o processo de escrever/conversar sobre si, sobre a realidade que enfrenta.
Pra quem não acredita ou considera vitimismo, aconselho dar uma olhada nas estatísticas do Brasil quando se comparam brancxs e negrxs. Apesar de tudo que possam dizer, vejo meu trabalho reverberando e mulheres acreditando em si mesmas e declamando poemas e existindo novamente. É isso que importa, isso que interessa. No fim de tudo, é isso que vale.
- O que é arte pra você? Há algum limite desse conceito? Arte é me fazer existir e trazer comigo outras mulheres que estão atrás da própria voz. Sozinha a arte não é nada. Juntas a arte faz tremer o universo.
- Em tempos sombrios de falta de aprofundamento nas relações humanas, o que você acha que a arte de rua faz para mudar esse cenário? Traz fé e esperança de mudança. Da vontade de revolucionar dentro e fora. É resistência, continuação. Faz lembrar nossas ancestrais e mostra pras gerações futuras que temos que dizer o que sentimos e o que somos com respeito e amor. Como eu sempre digo: vexame é não lutar.
Se quer respostas, olhe os muros.
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