Aguiar tinha uma foto que guardava com zelo no bolso de trás da calça jeans. Era a única coisa dele que parecia em bom estado. Quando acordou sem memórias de quem era, ainda em seu escritório na delegacia, poucas coisas retiveram sua atenção, a fotografia salva do café derramado foi uma delas. Quando Cleo apareceu para levá-lo para São Paulo com tamanha urgência, a fotografia foi uma das coisas que levou.
A mulher dos olhos escarlates sorria de forma inebriante e toda vez que ele se pegava analisando as linhas de seu rosto, um calor sobe por seu peito, tão certeiro quanto o sol que se ergue ao leste. Ao lado da fotografia, um post-it com uma lista de compras e um lembrete em letras maiúsculas carregadas: NÃO ESQUEÇA DO JANTAR. Aguiar grunhiu, decepcionado.
Na caminhonete, pequenos sinais dela forçaram a atenção, Aguiar anotou cada pormenor em sua mente vazia de lembranças. Elásticos de amarrar o cabelo e um par de brincos no porta-moedas, um espelho pequeno junto de um estojo de um batom vermelho canela já no fim, um rosário branco balançava em volta do retrovisor.
“Você tem namorada?” Aguiar olhou para Cleo, sentada ao lado dele no banco do passageiro. Ela levantou a sobrancelha, incrédula que ele teria algum compromisso.
“Tenho.”
Embora não soubesse se era verdade, a resposta carregou uma certeza esquisita.
Durante o Hexatombe, quando caminhava entre morte e vida no clima árido do Nordeste brasileiro, Aguiar sempre se segurava encarando as linhas do rosto de Inês, sua Inês. Viu aquela foto tantas vezes que memorizou cada sarda pontilhada em seu corpo, leu a nota do post-it tantas vezes que conhecia cada pormenor das letras desenhadas. Talvez a perspectiva de que poderia voltar para Inês fosse a principal coisa que o mantinha caminhando. Sua Inês.
Quando dormiu com Escarlata, quase gemeu o nome de Inês algumas vezes. Suspirava a cada ondulação do corpo e se fechasse os olhos, podia fingir que era ela, e não Escarlata. Pensando bem, talvez tenha deixado o nome escorrer em algum momento. Tentou manter Inês longe dos ouvidos de Escarlata, mas deve ter sucumbido uma vez ou outra. Inês era dele, um segredo sacro que mantinha alojado no peito, no fundo da memória. Quando tudo acabou e Aguiar sucumbiu ao sono, sonhou com ela. Não sabia se era memória, se era sonho, mas era ela, sempre. Conquistava as noites com um movimento suave dos cabelos brancos. Sua Inês.
Quando Dalmo morreu, Aguiar tentou não chorar no sepultamento, mas chorou quando foi dormir — e sequer conseguiu dormir de fato, talvez tenha desmaiado de cansaço. Apertou a fotografia contra o peito e pela primeira vez em um bom tempo, rezou. Rezou para que ela estivesse o esperando, e rezou para que conseguisse sair dali vivo.
Não sabia para quem rezava, talvez se segurasse à fotografia dela como um católico se segura ao rosário até as bolinhas marcarem as mãos. Talvez estivesse rezando para ela. Não sabia, e pouco importava. Àquela altura, poucas perguntas realmente importavam. Aguiar não sabia se quem chorava era o corpo, ou o Agente em sua alma. Não sabia mais onde as barreiras acabavam, nem fazia ideia do que era e o que não era. Apenas queria estar de volta em casa.