Eu não sei mais quem eu sou, droga. Quando passa o efeito da medicação no meio da madrugada em que a insônia insiste em me coagir, tudo o que eu sinto é esse grande e vasto nada. O psiquiatra diz que esse vazio existencial é tédio e eu sou assim pelo transtorno, mas não é só isso. Não é tão simples. Eu sempre fui assim, desde criança. As vezes eu parava e ficava olhando pro nada pensando em absolutamente nada e quando perguntavam o que eu estava pensando e eu respondia a verdade, me diziam que era impossível. Então conforme fui crescendo esse hábito continuou e passou a ser chamado de meditação, era para me ajudar a controlar meu humor, relaxar e desestressar durante o dia. Eu não pensava em nada, nada. E aquilo era vazio. Não era ótimo, não era ruim, era só vazio. De vez em quando batia um tédio e um cansaço, eu deitava e ficava fazendo o mesmo. Mas conforme minha adolescência se aproximou, minha mente foi se enchendo cada vez mais de pensamentos. Que passaram a me enlouquecer, me tirar de mim. Aquele turbilhão de sentimentos que surgiu em mim, eu tinha 13 anos quando começou. Aquele turbilhão de sentimentos bizarros que me ensinaram o que era bom ou não sentir. Aquilo era fantástico e assustador. Então, quando experimentei de todos os sentimentos, um estranho me encontrou: o nada. A apatia, não é meio termo, tédio ou cansaço, é só indiferença, nada. Cada vez que me encontro lúcida sem estar dopada, drogada ou bêbada, eu penso, quando e como foi que eu me tornei esse monte de nada? Mesmo chapada, as vezes eu rio e ajo de maneira indiscriminada, mas o que sinto, na verdade, é nada. Foi uma transformação lenta. Esvaziei meu coração, e nele só entram alguns poucos, intrusos que arrombam a porta ou convidados íntimos que permito entrar e me ajudar com a decoração.