Segunda-feira chegou como sempre chega, amedrontadora, encabeçando uma semana inteira de dias e problemas. Lenna já acordou com indisposição, sem ânimo para encarar a escola e levantar cedo. Paulina teve que chama-la duas vezes e a Stefana mais duas, para que ela se levantasse da cama.
Paulina – Como eu queria que essa menina fosse tão dedicada pra estudar como é pra ficar no computador e celular.
Disse a mãe aos pés da cama vendo a preguiça da filha se estendendo ao ponto de atrasar; a si mesma, e a todos os outros membros da casa.
Paulina – Como seria bom trazer o carro pra dentro desse quarto e buzinar.
Lenna se levantou depois dessa última reclamação, e seus cabelos pareciam com uma manga chupada.
Paulina – Tá igual a uma assombração.
Stefana – Eu disse pra ela não dormir com cabelo molhado.
Lenna – São as duas falando em quanto eu estou dormindo, não dá pra aguentar.
Paulina – Já passou da hora de dormir faz tempo, e você que se vire ai com seus cabelos, eu não vou pentear e nem despentear essa arapuca pra tatu.
Com vinte minutos de atraso elas finalmente partiram para a escola. E Lenna, cochilava e acordava dentro do carro, quando ele dava solavancos e quando parava em um sinal. Como ela foi se deitar, as três da manhã não teve tempo de ter um sono reparador, mas assim que ela desembarcou na escola, a cara de sonambula desapareceu, ela se revigorou na esperança de um acaso encontrar Friedrich por lá.
Na sala de aula as meninas chegaram já no fim da chamada e receberam meia presença. A professora Fuentes dava aulas de espanhol, usava um lápis segurando o seu coque, batom vermelho escuro e forte e maquiagem olho de gato nas pálpebras superiores, era uma mulher morena, com cabelo pintado de loiro com a tintura bem desgastada pois quase já revelava a sua cor negra original. Ela usava salto alto agulha, mesmo sem necessidade, naturalmente ela detinha estatura acima da média. Não necessitava de óculos até o ano passado, mas pós os quarenta anos sua visão começou a falhar e agora seus os óculos, no plural, pois tinha mais de um, viraram acessórios que sempre combinavam com as cores dos seus calçados.
Começou a aula com uma poesia macabra.
Profª Fuentes – Um homem morto, dois homens mortos, três homens mortos, quarto, cinco, seis, todos tortos, encurvados com os estômagos perfurados.
Um homem morto, dois homens mortos, três homens mortos, quatro, cinco, seis, sete, todos tortos, olhos arregalados como se o próprio diabo os tivesse assustado.
Um homem morto, dois homens mortos, três homens mortos, quatro, cinco, seis, sete, oito, todos tortos. Esse último queriam fazer parecer um acidente. Que demente mataria tanta gente?
Um homem morto, dois homens mortos, três homens mortos, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, todos tortos. A população se comove, pânico não resolve.
Um homem morto, dois homens mortos, três homens mortos, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, todos tortos. O primeiro era açougueiro, o segundo um pobre imundo, O terceiro um pastor alvissareiro, o quarto, quinto, sexto, sétimo, oitavo e o nono, viraram carbono, queimados e dentro de um quarto trancados, o Dez era um senhorzinho vendia pasteis.
Dez homens mortos, todos tortos, a investigação terminou e quem protagonizou esse crime bárbaro se suicidou. Onze homens mortos, todos tortos, um novo assassino apareceu, e quem será a próxima vítima? É como fazer uma aposta no cassino.
Os alunos ficaram em silencio sem saber o que dizer, até que a professora explicou:
Profª Fuentes – Me desculpem por essa poesia horrível, mas eu achei ela apropriada, para faze-los pensar um pouco, dado o momento. É uma poesia que não tem final como podem ver, sem resolução, a contagem de assassinatos e assassinos continua indefinidamente. Agora alguém pode me dar alguma outra interpretação do que ouviu?
Amy – Como assim professora, apropriada dado o momento?
Profª Fuentes – Quer dizer que não souberam ainda?
A professora olhou para os seus alunos e só encontrou ainda mais dúvidas em seus rostos.
Profª Fuentes – Houve um atentado, um maníaco saiu atirando em um show. Isso foi no panamá, na madrugada de hoje. Eu trouxe a poesia para relacionar com o atentado e para podermos discutirmos sobre violência nos dias atuais.
Amy que era muito questionadora e participativa bastante dessa vez resolveu criticar a conduta da professora que ficou aparentemente indignada e rebateu logo após esse comentário de Emy:
Amy – Mas a senhora acha razoável trazer um assunto assim para ser tratado na sala de aula, Isso não vai acarretar desconforto? somos adolescentes. Acho que certas pautas como assassinato não deveriam ser postas em debate.
Profª Fuentes – Daqui a dois anos vocês estarão na faculdade, é um ambiente onde, dependendo do curso que escolherem terão assuntos similares para serem discutidos. Eu acho que essa turma já tem maturidade o suficiente para tal. E se o livro Medeia um clássico da literatura mundial, fosse o paradidático de vocês e vocês tivessem que discorrer sobre, desistiriam de lê-lo, porque tem assassinato? Medeia mata seus próprios filhos para se vingar do marido. Pesado não é? Mas necessário, muito se pode extrair dele. Atualmente os jovens dessa geração, tentam construir uma redoma de cristal ao redor si, como se isso fosse repelir qualquer maldade, não querem escutar ideias adversas, não querem sentir dor e nem sofrer. Como vão aprender, ter inteligência emocional, se privando das emoções mais humanas, como angustia, tristeza, melancolia, fúria ...
Depois de quarenta minutos de debate sobre a sociedade e a violência a professora mudou o foco e o conteúdo, e ela passou a ler o livro que estava na nossa grade curricular.
Profª Fuentes, passava pela sala enquanto lia um poema de Miguel De Cervantes em um livreto. A atenção na sala era quase unanime, embora tinha alguns engraçadinhos ficavam rindo abafado do que a professora dizia, ignorantes na minha opinião que não possuem nenhum tipo de lapidação sentimental. Acho que exagerei de mais na crítica, mais é que estou tentando prestar atenção no poema e esses risinhos atrapalham! A professora foi para o fundo da sala e sua voz ficava mais distante e abafada, pouco reverberante. Queria que ela fosse para frente da sala de novo para que suas palavras entrassem mais seguras nos meus ouvidos.
Alguém arrastou a cadeira de metal propositalmente criando um barulho agudo e agonizante, Stefana colocou as duas mão sobre as orelhas e fez careta, a audição dela é muito sensível. A professora parou de ler e se dirigiu para a frente do quadro , sua cara estava de decepção , ela era muito rigorosa com a questão de disciplina na sala quando recitava , mas ela é legal quando desfragmenta a sua pose autoritária.
Profª Fuentes – Como eu queria mesmo que vocês apreciassem poesia como eu , mas tudo bem queridos , a única coisa que não tem tato é pedra , garanto que cedo ou tarde acharam alguma poesia que cativem vocês e esse será o gatilho para entrarem no mundo da literatura.
Ela fez uma pausa, fechou o livro de bolso que lia o pôs a mesa e continuou:
Profª Fuentes – Muito bem. A tarefa de casa de vocês é fazer uma poesia de versos irregulares para um amigo, podem escolher qualquer pessoa e quantas quiserem. Mas tem o mínimo de linhas, pelo menos dez e vocês vão ter de ler aqui na frente, claro quem tiver coragem de se voluntariar e depois vamos ter uma votação de quem fez a melhor poesia, valendo um ponto na nota para somar com média.
As garotas na sala se manifestaram com murmúrios favoráveis e os garotos melindrosos e houve uma serie de burburinhos.
Amy – Vai ter muita gente se declarando aqui! Se algum menino estiver apaixonado por mim, não se declare na frente da sala nesse dia porque eu saio correndo, só estou avisando.
Martinez – Nem se acha ela, né.
Ruan – Eu não vou fazer poema pra outro homem!
Cesar fez um rap de improviso.
Cesar – Professora esse lance de poesia, é muita fantasia, não dá pra mim, sou realista, tremendo pessimista, cresci na rua onde eu vi como a sociedade é crua. Quando saca o revolver malandro faz o rapa no bolso do cidadão que volta pra casa com o coração na mão depois de ter sobrevivido ao encontro com o ladrão. Meu lance é o rap, ta ligada na tomada? fim de transmissão.
E a sala explodiu em aplausos e gritos. Na hora do intervalo Lenna e Stefana se sentaram em uma mesa, e pediram salgados na cantina, Infelizmente a fila estava grande e quando foi a vez delas de pedirem o lanche que elas mais gostavam, e que todo mundo gostava também, já havia acabado. Sem opções ambas pediram uma empanada que além de muito quente estava queimada e sem recheio.
Stefana – Gastei meu dinheiro pra comer vento e ainda queimo a língua. Eu acho que eu vou pedir outra coisa depois, quer também?
Lenna – Não, uma empanada já basta pra min, eu não quero criar barriga.
Stefana – Se você fizesse exercícios podia alforriar a boca.
Lenna – Não tenho motivação para fazer exercícios sempre que eu tento iniciar qualquer coisa na educação física já fico com sono imagine em uma academia e eu vou pagar para sentir dor, pra carregar peso igual burro de carga? Tenho ainda mais uns vinte anos antes de tudo despencar, até lá quem sabe minha preguiça suma.
Stefana – Você que sabe, só estou avisando, é melhor começar sempre enquanto é nova. Quando tiver ai cheia de celulites e estrias e gordura localizada e tiver gastando rios de dinheiro em tratamentos estéticos e cirurgia de remoção do estomago, não vai chora pelas suas pelancas.
Lenna – Começou o terror psicológico.
Stefana – Evite passar vergonha com o biquíni, faça abdominais, agachamento, abdução de perna, coma frutas e verduras.
Lenna –Coach de academia!
Stefana – Como que vamos viajar para praias brasileiras sem estar com o corpo modelado? Mas e ai pra quem vai fazer sua Carta poética?
Lenna – Tem a coragem de perguntar isso pra mim, claro que vou fazer para você!
Stefana – Obrigada! Você também será a minha destinatária.
Lenna – Como se eu não soubesse. Você contou mais para mais alguém sobre o Elyfon?
Stefana – Não, você é minha única confidente desse assunto. Não tenho mais para quem contar isso. Queria mesmo pegar um alto falante sair por ai em um carro passando por todas as ruas da cidade dizendo que todos correm perigo, mas quem ia acreditar nisso além de você?
Lenna – Esconjuro, vampiro maldito tinha que aparecer logo agora que me apaixone pela primeira vez por alguém. Agora fiquei sem fome, imaginando as pessoas que vão morrer...
Stefana – Ninguém morreu ainda, calma.
Lenna – Me manda ter calma, mas em breve eu vou ter que andar pelas ruas a noite com atenção redobrada , porque posso estar sendo seguida e vigiada por um vampiro homicida que a qualquer momento pode invadir a minha casa , matar os meus pais , matar quem ele quiser , porque ele é um ser milenar , imortal completamente possuído pela maldade com uma força perigosa e desconhecida e onde quer que ele vá coisas ruins começam a acontecer só pela mera presença. Realmente dá para me acalmar se tomar uma anestesia de cavalo.
Stefana – Eu tomo conta de você e dos seus pais, já disse ...
Lenna – É, mas e o Friedrich, você pode garantir que nada vai acontecer com ele?
Stefana – Não, desculpe. O Professo vai ficar vulnerável, mas tem muita gente na cidade, quase meio milhão de pessoas, não é possível que o Elyfon vá matar justo sua paixonite ou atacar exatamente as crianças da escola que estudamos.
Lenna – Estamos impotentes. Tem uma guerra civil no meu país contra o poder paralelo dos revolucionários, uma criatura das trevas geradora da discórdia na minha cidade que só eu e mais três pessoas sabem, um cenário mundial se formando para um possível guerra nuclear, é muita mazela.
Stefena – Tem um cenário de se formando para uma possível batalha nuclear desde o início da guerra fria e até agora não houve e quanto a isso eu estou certa que não vai acontecer, as nações em muito a perder. Agora a guerra civil colombiana e essa criatura das trevas, são realmente problemas palpáveis, por isso tem que rezar pra Deus, para nos dar livramentos, para que a gente tem a gente sobreviva a maldade e não sucumba a ela.
Lenna – E as pessoas que não acreditam em Deus?
Stefana – Eu não sei quem Elyfon vai escolher para matar, podem ser cristãos ou não, mas a oração sempre é uma precaução e prevenção contra coisas ruins.
Stefana – A gente tem que acabar o lanche rápido a próxima aula já vai começar!
Lenna – É geografia né? Mas o que achou da discussão da aula da professora Fuentes?
Stefana – Sobre assassinato? Achei interessante a pergunta que ela fez. ‘’ Quem aqui teria coragem de matar outra pessoa, para salvar alguém ou para legitima defesa?’’ Bom, nenhuma menina respondeu mas a maioria dos meninos disseram que sim, matariam. Os homens são biologicamente feitos para combate, a mente deles é cheia de simulações de conflitos envolvendo violência em que eles precisam atacar para proteger. São como espadas, Nos mulheres agimos muito mais como escudo, nos colocamos na frente de alguém que amamos para nos sacrificarmos.
Lenna – Como você sabe que os homens simulam situações de conflitos . Quer dizer eles isso imaginam em situações de brigas, é isso?
Stefana – É. Meu pai disse pra mim que se imagina lutando contra várias pessoas, criando vários de cenários com vários tipos de desentendimentos que ele poderia ter com alguém e que o levasse a ter que partir para cima. Eu suponho que todos os homens devam ser assim também.
Lenna – Eu não sei se mataria alguém para proteger outra, eu prefiro nem pensar nessas coisas.
Stefana – Outra diferença que você citou, as mulheres preferem não pensar confrontos corporais.
Lenna – É porque nós somos muito melhores em atacar com língua.
Stefana – Mas com a lábia você consegue impedir um assassino de te matar?
Lenna – Da , seduzindo. Eu não tenho essa malicia e nem esse poder feminino de ficar atraente e sedutora de uma hora para outra. Porém em uma situação de vida ou morte, qualquer coisa para sobreviver, vale.
(Mais trabalhos , baixo )
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