Sumário: Otávio, mariana e Randolfo levam Luccino para a casa dos Beneditos para ver Romulo
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Capítulo 8 - Príncipe Encantado
Logo, Otávio se aproximou da casa dos Beneditos, parando o carro na frente da ponte sobre o lago e saindo. Randolfo o seguiu, enquanto Mariana continuava a acariciar os cabelos de Luccino, que dormia em paz contra seu ombro.
- Acho melhor não acordá-lo – ela comentou, olhando para Otávio, que se aproximou. Ele assentiu, e se virou para Randolfo.
- Por favor, já vá entrando e chamando Rômulo. Tente não fazer muito alarde.
- S-s-sim Otávio – ele bateu continência e saiu, fazendo Mariana e Otávio sorrirem.
- Ele leva essa hierarquia muito a sério. Te trata como major até quando é só Otávio – ela comentou, e Otávio deu de ombros.
- A culpa é minha. Sempre fui muito reservado, não gostava que me tratassem pelo primeiro nome sem minha patente. Eu tinha muito orgulho dela, porque era tudo que me definia como pessoa – ele lentamente subiu no carro, no outro lado de Luccino, e pegou a mão do mecânico – Agora eu posso ser... eu. Eu acho.
- Sim, você pode – Mariana assentiu sorrindo e acenou para Luccino. – Por que você não o leva pra dentro? Eu não tenho força suficiente e o Randolfo deve demorar um pouco. Não é bom deixa-lo na friagem da noite.
- Tem razão – Otávio concordou, lentamente movendo seus braços um por baixo das pernas de Luccino, e o outro por baixo de seus ombros, o puxando para si o mais delicadamente possível, justamente para não acorda-lo. Luccino tinha um sono muito leve, mas machucado e cansado como estava, mal reagiu à movimentação. Mariana ajudou Otávio a posicionar Luccino e assim que ele estava perto o suficiente, Otávio se locomoveu para fora do carro, seus braços firmes para não machucar Luccino ainda mais.
Quando finalmente ficou de pé, Luccino pareceu ganhar consciência, ainda que por um segundo ou dois, suas mãos segurando o paletó de Otávio fracamente, e sua cabeça se encaixando sobre o ombro do major, de maneira a se encolher contra Otávio.
Por conta disso, Otávio sentiu seu coração esquentar, um sorriso acanhado aparecendo em sua face ao ver o quão vulnerável Luccino estava, ali, em seus braços, dormindo. Ele soltava baixos barulhos que indicavam um sono pesado e confortável, e seu corpo se encolhia cada vez mais, como se toda a proximidade não fosse suficiente.
Por um momento, Otávio não pode deixar de admirar a paz no rosto de seu amado, iluminado pela luz da lua.
- Otávio? – Mariana sussurrou, chamando sua atenção, e acenou para a porta aberta da casa. Seu sorriso, um tanto alegre, não escondia o quão feliz ela estava com a felicidade deles, mas também deixava Otávio um pouco envergonhado. Ele ainda não estava muito acostumado com demonstrações de afeto em público. – Vamos?
- Sim, claro – ele murmurou de volta e saiu em direção à porta, segurando Luccino próximo de si e entrando na casa. Mariana, assim como Randolfo, não ligou a luz, para não alertar seus pais, e encaminhou Otávio para o sofá da sala, aonde ele poderia colocar Luccino até que Romulo viesse.
A vontade era de continuar segurando Luccino em seus braços até que ele soubesse que tudo estava bem. Mas ele sabia que não seria de muito agrado, então pediu que Mariana se sentasse no sofá para que seu colo fosse o travesseiro de Luccino, antes de deita-lo no sofá.
O custo foi grande, porque Otávio queria continuar com ele por perto, e também porque ao se separar dele, as mãos de Luccino seguraram mais forte seu paletó, um gemido baixo saindo de sua boca, como se seu subconsciente precisasse da presença de Otávio perto de si.
Mas Otávio sabia que não podia ser assim, então tirou as mãos de Luccino de si e as colocou para baixo, observando enquanto Mariana voltava a acariciar os cabelos do amigo.
- É muito doloroso, não é? – ela perguntou, baixo, sem olhar para Otávio, e embora a pergunta dela pudesse ter vários significados, várias respostas e vários contextos, ele sabia bem do que ela falava.
E por isso, ele suspirou.
- Você não faz ideia.
- V-v-vamos – a voz de Randolfo veio do segundo andar, e Otávio se levantou enquanto Mariana olhou para as escadas. Romulo e Randolfo logo apareceram, descendo os degraus com algumas velas acesas.
- Mariana, major – Romulo acenou, e eles repsonderam com um gesto de cabeça, antes que o médico se ajoelhasse na frente de Luccino e colocasse as velas ao redor, na mesa, no chão, e algumas sendo seguradas por Randolfo e Otávio – O que aconteceu?
- Luccino me disse que Virgílio o agrediu várias vezes, o prendeu e ameaçou. Mas nós não vimos o estrago feito – Otávio falou, o mais calmo possível, enquanto Mariana deixava Romulo olhar os machucados da face de Luccino.
- Ele dormiu, parece estar bem – ela complementou, e Romulo suspirou, acenando.
- Não me parece que tinha nada além de hematomas em sua face. Com licença – Romulo pediu, antes de desabotoar o paletó e a camisa de Luccino. Mesmo com a movimentação, Luccino não parecia nem perto de acordar, o que era muito bom para Romulo. Ele afastou a blusa e puxou sua regata para que pudesse ver seu dorso, aproximando uma vela para que pudesse ver melhor.
Depois de alguns toques e observações, ele suspirou e se afastou.
- Olhando agora, não me parece que exista nada muito grave, mas seria melhor examina-lo de novo pela manhã, com a luz do sol. Ainda assim, acho que talvez tenha fraturado uma costela pelo roxo em seu lado direito. É melhor que ele durma bem até amanhã, e assim que ele acordar, venho vê-lo de novo.
- M-m-muito obrigado Ro-Romulo – Randolfo acenou, sorrindo, e Romulo se levantou, acenando.
- Mariana, você vai ficar como ele hoje? – ele perguntou, e ela acenou, embora tivesse olhado para Otávio rapidamente.
- Sim, sim. Eu fico aqui de tocaia caso alguma coisa aconteça – ela concordou, se arrumando no sofá. – Não ligo de dormir aqui.
- Ótimo – Romulo sorriu. – Qualquer coisa, me chame por favor. Senhores – ele acenou e saiu, levando as velas consigo. Otávio suspirou baixo e arrumou Luccino, puxando sua regata para baixo e fechando os botões de sua camisa, antes de se levantar e acenar.
- Eu vou até sua casa avisar Brandão – ele disse para Mariana, que sorriu, um pouco triste. – Com licença. Volto amanhã.
Depois de um momento de hesitação, ele se abaixou e beijou a testa de Luccino de maneira mais delicada possível, antes de acenar para Mariana e Randolfo e sair, seguindo para a porta.
Não conseguiu nem mesmo chegar no carro, alguém segurou seu braço. Ele se assustou um pouco, surpreso, mas quando se virou, sentiu-se relaxar ao ver Randolfo o olhando.
- Sim, Randolfo? – ele perguntou, levantando uma sobrancelha. Randolfo abriu a boca para falar, mas a fechou de novo, antes de abri-la mais uma vez, sobrancelhas franzidas.
- P-p-por que não fi-fica? – ele respondeu com outra pergunta, e Otávio sentiu a inocência de seu amigo em cada palavra que saiu de sua boca.
Randolfo era muito bom para seu próprio bem.
- Eu não posso ajudar em nada, e além disso, não seria de bom gosto que dona Ofélia e senhor Felisberto acordassem comigo na sala – ele explicou, calmo. – Mariana e Luccino tem uma boa explicação. Afinal, ela é filha deles e Luccino é um velho amigo da família e está machucado. Qual seria minha desculpa?
- N-ne-nenhuma – Randolfo disse, parecendo um tanto frustrado – Vo-você só seria um-um amigo preocu-cu-cupado!
Otávio não pôde deixar de sorrir. Randolfo era uma alma muito pura, ele não sabia nem o que responder.
- Mas não é isso que eu sou – ele falou, suavemente, deixando a sua tristeza passar por seu filtro, se instalando em sua voz. – Além disso, já teve toda a confusão de mais cedo sobre como o Luccino não tem nenhuma namorada ou noiva, como ele fugiu depois do comentário, e eu também não sou muito bem visto pela dona Ofélia depois de largar Lídia no altar, enfim. Não vale a dor de cabeça.
- O-o amor va-vale toda a dor-dor-dor de cabeça – Randolfo falou, desanimado, e Otávio sentiu uma forte dor em seu peito ao ouvir aquilo de seu melhor amigo. – M-m-mas se essa é-é sua von-vontade...
- Não é minha vontade – Otávio disse, sua voz cheia de dor assim como seu peito estava – é minha obrigação. Para comigo mesmo, e para com o Luccino. Agora com licença. Eu tenho que avisar o coronel de onde Mariana vai passar a noite.
- ... e-eu queria que o m-mun-mundo não fosse t-tão injusto.
Otávio sorriu triste para Randolfo e gentilmente bateu em seu braço, antes de apertá-lo.
- Todos queríamos – ele acenou e se virou, seguindo para o carro. – Até amanhã Randolfo.
- At-até amanhã O-Otávio... passar bem.
Otávio assentiu e subiu no carro, seguindo os passos que lembrava e saindo para a casa do coronel para avisá-lo, e depois seguiria para o quartel, tentar descansar um pouco que fosse.
No meio da noite, Luccino se viu abrindo os olhos, se encontrando num lugar escuro e quente, muito mais quente que sua oficina e um pouco mais do que o quarto que usava na casa do coronel.
Um pouco assustado por não reconhecer o lugar imediatamente, ele tentou se levantar, mas ao se mexer, sentiu uma forte dor em todo lugar e grunhiu, se deitando de novo e segurando seu estômago.
- Luccino, por favor, fique deitado – uma voz feminina encheu seus ouvidos, o fazendo abrir os olhos de novo. Olhou para cima, para quem fazia cafuné em seus cabelos, e seu desespero se foi quando viu o sorriso de Mariana. – Olá dorminhoco.
- Mariana? O que está acontecendo? – ele perguntou, se mantendo deitado enquanto respirava forte. Tudo doía. – Onde estamos?
- Na casa dos Beneditos – ela explicou, e ele relaxou ainda mais. – Você dormiu no caminho da delegacia e não acordou mais.
- Dele... Virgílio – ele murmurou, se lembrando do que tinha acontecido e suspirando. – O que aconteceu?
- Randolfo e Otávio colocaram ele na cadeia e depois nós o trouxemos aqui para que Romulo pudesse dar uma olhada nos seus ferimentos. Ele disse que não parece que exista nada grave, mas quer examiná-lo de manhã.
- E... o Otávio? Onde ele está? – ele perguntou, baixinho, um tanto acanhado. Ela sorriu para ele, curiosa com toda essa vergonha.
- Foi avisar Brandão que eu ficaria aqui. E também foi descansar no quartel. Disse que virá aqui bem cedinho, para te ver – ela respondeu, inclinando a cabeça – Por que tanta vergonha em perguntar por ele?
- Ah... eu acho que tive um sonho... – ele murmurou, ainda um pouco sonolento, e ela riu suavemente.
- Que sonho? Me conte.
- Não foi nada especial...
- Sim, claro. Me engana que eu gosto – ela sorriu, ele mordeu os lábios de vergonha – Vamos. Me conte.
- Eu... sonhei que ele estava me carregando nos braços – ele murmurou, e Mariana sentiu Luccino relaxar. – Como... um príncipe de contos de fadas, sabe? É-é bem tolo, eu sei, mas...
- Não há nada de tolo – ela falou, acariciando seus cabelos. – Você é só um bobo apaixonado como tantos outros. Não tem problema nenhum com seu... major encantado – ela riu, e Luccino sorriu, fechando os olhos e suspirando feliz.
- Sou sim... um tolo apaixonado... – ele murmurou, segurando sua própria camisa sobre seu coração. – Mas foi um sonho um tanto incrível... eu não lembro de muita coisa, mas... ele me carregava por campos floridos e depois... me deitava sobre uma cama daquelas de reis... e me dava boa noite...
- Por que não tenta dormir um pouco mais? – ela perguntou, suavemente – Vai que sonha de novo?
- Sim... eu espero que sim... – ele murmurou, bocejando, antes de relaxar sobre o colo dela e sorrir. – Boa noite Mariana...